Do ponto de vista financeiro, os 487 milhões de dólares movimentados em apostas, os 3,1 milhões de dólares ganhos pelo vencedor e os 150 mil espectadores em redor da pista são números grandiosos mas não diferem muito da maioria dos Kentucky Derby, o Superbowl, o Grande Prémio do Monaco ou a final de Wimbledon das corridas de cavalos. Mas desportivamente a 152.ª edição, realizada no fim de semana passado, foi histórica.Pela primeira vez desde 1875, um cavalo, o Golden Tempo, treinado por uma mulher, a talentosa Cherie DeVaux, conquistou a prova. Em 1937, a pioneira Mary Hirsch terminou em 13.º com o cavalo… No Sir. Depois outras 18 treinadoras tentaram vencer num mundo predominantemente masculino e Shelley Riley chegou mesmo a ficar em segundo, via Casual Lies, em 1992. Até Cherie DeVaux, após oito anos de tentativas na corrida mais famosa do mundo, romper com todos os paradigmas no último 2 de maio.“Ser mulher não passou pela minha cabeça ao longo desta jornada, a pista de corridas é um lugar duro seja para homens, seja para mulheres, a diferença física conta menos e nem toda a gente tem a mesma envergadura mental que eu, dá para sonhar alto e fazer parte da história. É uma honra para mim ser um exemplo para as miúdas mais novas”, disse ela, que treina 120 cavalos, além do Golden Tempo, em conferência de imprensa após o Kentucky Derby, conhecido como “Os Dois Minutos Mais Incríveis do Desporto”, em referência ao tempo que os cavalos demoram a percorrer o percurso. Golden Tempo, um dos concorrentes menos cotados no início da disputa, começou a corrida de pouco mais de dois quilómetros em último lugar mas ganhou, um facto que só acontecera sete vezes na história centenária da prova. “Sim, ele fez o que normalmente faz, começa atrás e depois ganha posição”, conta DeVaux. “A determinada altura entendi que ele poderia ganhar mas na hora em que cruzou a meta eu quase fiquei em blackout de tanta alegria. Agora estou ainda mais alegre por não voltar a ser questionada se vou ser a primeira mulher a ganhar o Kentucky (risos)”.A montar o cavalo estava José Ortiz, um dos mais experientes cavaleiros do mundo, com 3000 vitórias no currículo, razão pela qual os observadores se perguntaram porque ele aceitou fazer equipa com Golden Tempo, com meros 23 contra 1 nas apostas. “Por lealdade para com Cherie DeVaux. Ela sempre foi muito boa para mim”, disse Ortiz à Forbes. “Por outro lado, embora o cavalo fosse um bocadinho preguiçoso, eu sempre percebi que ele tinha muita qualidade”, acrescentou. .E a vitória foi por um pescoço, como se diz no jargão do desporto, à frente de Renegade, o segundo classificado e favorito dos apostadores. O Renegade que, curiosamente, foi montado por Irad Ortiz Jr, o irmão mais velho de José Ortiz, ambos norte-americanos de Porto Rico. Renegade, Irad e o treinador Todd Pletcher ganharam “só” um milhão de dólares. Agora, seguem-se as corridas de Preakness Stakes e Belmont Stakes, que completam, com o Kentucky Derby, o trio de provas mais relevantes das corridas de cavalos.Números:497: Milhões de dólares movimentados em apostas no Kentucky Derby, densidade por minuto muito superior a um jogo de Champions League ou à final de Wimbledon.3,1: Milhões de dólares ganho pelo vencedor, o cavalo Golden Tempo conduzido pelo jóquei José Ortiz e treinado por Cherie DeVaux.2.ª: O vice-campeonato obtido em 1992 pela treinadora Shelley Riley era a melhor posição de uma treinadora feminina até este ano.