A seleção nacional masculina de basquetebol enfrenta uma das etapas mais determinantes do seu percurso recente, numa fase de qualificação para o Campeonato do Mundo onde cada vitória pesa duplamente — na classificação imediata e no futuro da competição. O selecionador Mário Gomes enquadra o momento com clareza: mais do que ganhar jogos, trata-se de construir desde já a base da segunda fase. “O apuramento não é dos mais simples, mas é habitual. Passam três equipas do grupo para a segunda fase e os resultados entre elas contam. Ou seja, não voltamos a jogar contra essas equipas. Depois juntamo-nos a mais três equipas vindas do outro grupo e dessas seis passam três para a fase final.”Essa particularidade do regulamento transforma cada encontro numa espécie de investimento competitivo. Portugal entra nesta janela com contas relativamente definidas. “Nós estamos com uma vitória, a Grécia tem duas, o Montenegro também tem uma e a Roménia ainda não ganhou. O que quer dizer que, se conseguirmos ganhar estes dois jogos à Roménia, ficamos automaticamente apurados para a segunda fase.” Ainda assim, o treinador rejeita qualquer sensação de facilidade. “Ganhámos os últimos jogos contra a Roménia com alguma diferença, mas não espero jogos iguais. Eles melhoraram bastante, nós também. Se tivermos o nosso melhor nível, temos todas as possibilidades de ganhar, mas só vale a pena pensar no jogo desta sexta feira.”A cautela faz parte de uma filosofia de progressão passo a passo. O objetivo imediato não é proclamado como feito extraordinário, mas como obrigação competitiva. “O objetivo da passagem à segunda fase é um objetivo intermédio e mínimo.” Dentro do grupo, porém, existe ambição mais alta. “Os jogadores têm o objetivo claro de chegar ao Mundial mesmo.”A evolução recente da seleção não surgiu por acaso. Para o técnico, existe uma perceção pública frequentemente distante da realidade. “Os jogadores portugueses têm mais qualidade do que as pessoas pensam. Se não tivessem, não tínhamos conseguido o apuramento para o Europeu nem fazer lá aquilo que fizemos.” Parte do crescimento está ligado às experiências fora do país. “O facto de alguns jogadores terem ido para o estrangeiro fez-nos crescer não só enquanto jogadores, mas também enquanto pessoas.”Mas o fator decisivo, sublinha, não foi técnico nem físico — foi mental. “Em termos de química da equipa, crença coletiva e ambição coletiva, as coisas estão diferentes para melhor.” Para Mário Gomes, a mudança principal foi a forma como o grupo se entende a si próprio. “Aquilo que podemos chamar mentalidade competitiva coletiva mudou. A nossa principal força é aquilo que valemos como equipa — este grupo é mesmo uma equipa.”Coimbra recebe a equipa num contexto especial e o plantel quer também corresponder fora das quatro linhas. “Há uma vontade grande de oferecer um momento, ainda que passageiro, de alegria, especialmente para quem está em dificuldades. Esperemos viver ali umas horas alegres, porque isso só faz bem às pessoas.”.O olhar do selecionador não se limita ao presente competitivo e estende-se ao futuro da modalidade. Questionado sobre o crescimento estrutural do basquetebol português, aponta primeiro uma questão cultural. “A primeira coisa é recuperar a capacidade de construir e respeitar compromissos coletivos, unirmo-nos em torno de três ou quatro objetivos comuns.”Depois surgem medidas concretas. “A formação não termina aos 18 anos. Os primeiros três ou quatro anos de sénior são decisivos para transformar potencial em alto rendimento e os jogadores precisam de contextos de exigência elevada.” Para o técnico, muitos talentos perdem-se precisamente nesse período. “Entre aquilo que é preciso fazer e aquilo que se faz, a nossa oferta nesse segmento é quase nula.”Outro ponto fundamental passa pelos treinadores. “Precisamos de profissionalizar alguns treinadores de formação, sobretudo os que trabalham com jogadores de maior potencial.” A convicção é clara: “Se conseguirmos dar estes passos coletivamente, a nossa qualidade melhora exponencialmente.”Depois de décadas ligadas ao basquetebol, a motivação pessoal mantém-se simples. “O mais importante é sempre o trabalho que estamos a fazer na altura e dar o nosso melhor para o fazer bem feito.” O percurso foi sendo construído naturalmente. “Eu tive o mesmo prazer desde que comecei a treinar formação até hoje.”No imediato, porém, a reflexão dá lugar à competição. A equipa quer confirmar em campo aquilo que tem vindo a construir. “Se estivermos ao nosso melhor nível, temos todas as possibilidades.” E a filosofia mantém-se inalterada: “Primeiro hoje. Depois logo se vê.”.Seleção de basquetebol apurada para o Eurobasket