Nascido em Nova Sintra (atual Catabola, em Angola), em 1972, chegou a Portugal com oito anos e destacou-se como atleta do decatlo ao serviço do Benfica. Foi aos Jogos Olímpicos Sidney 2000 e acabou a carreira em 2004, depois de lhe ser diagnosticado um tumor no fémur. Com 54 anos, treina Agate de Sousa, Nelson Évora e o paralímpico Lenine Cunha.Como é ser treinador de uma campeã do mundo no salto em comprimento, a Agate de Sousa?Sem falsa modéstia, é normal. Há algum tempo que sinto que a Agate, em qualquer competição e a qualquer momento, pode ganhar uma medalha de ouro. Não foi surpresa. O único amargo de boca até hoje foi a lesão sofrida [num joelho] uma semana e meia antes de embarcarmos para os Jogos Olímpicos Paris 2024. Sentia já aí que a Agate podia ‘sacar’ uma medalha e, vou confessar isto pela primeira vez, quinze dias antes, ele fez aqui no Centro de Alto Rendimento, no Jamor, duas vezes 7,10 metros e uma vez 7,05 metros, portanto, estávamos mesmo convencidos que podíamos trazer uma medalha de Paris..Vai ser especial ir a Los Angeles 2028 também por isso... Vai porque temos contas a ajustar. Vamos procurar chegar a Los Angeles no auge da carreira da Agate. Ela está há dois anos a treinar a menos de 50%. Não é bom, mas tem aspetos muito positivos. Ou seja, está super folgada. Não tem excesso de treino. Está perfeitinha para chegar lá no auge da carreira. Finalmente há um diagnóstico concreto para o problema e acredito que será resolvido e teremos dois anos para chegarmos a Los Angeles no máximo das nossas capacidades.Ver um atleta chegar ao topo do Mundo é a realização plena para um treinador? Só me irei sentir completo quando devolver a Agate à vida normal. Desejo que ela possa competir ao mais alto nível até aos 35 anos. Vamos imaginar que é medalhada olímpica, isso, por si só, é motivo de orgulho, obviamente, mas em termos de satisfação pessoal e de resumo do meu trabalho pode não significar muita coisa se ela abandonar logo a seguir com um problema gravíssimo motivado por excesso de carga. Eu quero que a Agate ganhe o maior número de medalhas possível, mas que chegue ao final da carreira saudável e capaz de fazer a mudança para a vida normal sem problemas de saúde. A Agate de Sousa conquistou o ouro mundial com um salto de 6,92 metros e tem um recorde pessoal de 7,03 metros ao ar livre. Já atingiu todo o potencial? A Agate tem talento, disciplina e trabalho e tem tudo a dobrar. Às vezes esse é o problema. Algumas pessoas dizem que tive sorte em encontrar uma atleta super talentosa, mas gostava de esclarecer essas pessoas que, quanto maior é o talento, menos temos que treinar. E é isso que eu tenho tentado fazer com a Agate. Obviamente que eu tive sorte em apanhar uma atleta com o talento dela, mas ela também teve sorte em encontrar um treinador cujo princípio do trabalho é estimar e respeitar o atleta. Acho que tivemos os dois sorte.Também treinou o Gerson Baldé, campeão do Mundo em Torún, com 8,46 metros (recorde de Portugal), que agora é treinado por José Barros, e descobriu-lhe um talento que, provavelmente, nem ele sabia que tinha... Ele era do salto em altura. Veio treinar comigo e ao fim de três meses já estava desesperado, sem saber o que fazer para resolver um problema técnico que ele tinha. Um dia juntei-o com a Agate num treino do comprimento. Ao fim do primeiro treino comecei a pensar se não estaria ali um bom saltador em comprimento. Fiquei na dúvida porque o Gerson tem mais de 1,90 metros e se não fosse rápido não tinha qualquer hipótese. Arranjamos uma prova de 100 metros e o Gerson fez 10,85 segundos. A partir desse momento percebi que era um saltador em comprimento. Foi aos campeonatos de Portugal, fez 7,90 metros e, depois, combinámos que só faria salto em altura nos nacionais de clubes, se fosse necessário. Para as pessoas que consideram que tive sorte com a Agate: dupliquem a sorte porque o Gerson também é um talento. E depois aparece Nelson Évora, um campeão olímpico já em final de carreira... Ele quer despedir-se numa grande competição e perguntou-me se acreditava nisso e eu disse-lhe ‘sim, bora, vamos trabalhar’. Logo depois lesionou-se e foi operado. Depois foi pai e eu até julguei que este ano já não fosse aparecer, mas voltou e com uma vontade enorme. Está aqui todos os dias. Mas quando lhe diz que acredita é uma resposta egoísta, porque queria ter essa experiência de treinar aquele que considera ser o melhor atleta português?Não, não, não, não. Quando disse que acreditava, foi genuíno. A primeira coisa que fiz foi um teste de velocidade e percebi que, obviamente, já não é tão rápido, mas ainda é rápido, ainda consegue gerar velocidade e saltar. Claro que nunca mais vai ser o Nelson que foi, mas acredito que pode despedir-se da forma como deseja. Treinar o Nelson não me dá uma satisfação superior por ser um campeão ímpar, mas sim por ser amigo dele. Temos uma história. A amizade que temos é mais importante do que o título olímpico.E para quando o regresso dele à competição? Ele não salta há cinco anos e precisamos gerir bem o regresso. Diria que se houver uma competição em Lisboa o Nelson vai aparecer em breve. Como foi a construção do Mário Aníbal treinador? Antes deixe-me dizer que treino também o paralímpico Lenine Cunha. É uma componente diferente e tenho de me recriar ao nível do treino, mas é importante, sinto-me um treinador inclusivo e ele é um atleta extraordinário. Sobre ser treinador, recordo-me de no final da carreira começar a ter interesse pelo treino, gostava de saber porque fazia intervalos de três minutos, questionava o meu treinador como é que ele calculava as percentagens de força, etc. Treinava, mas já gostava de conversar com ele sobre as nuances do treino. Entretanto terminei a minha carreira devido a um tumor no colo do fémur e não terminei como gostaria, em Atenas 2004. Como foi receber esse diagnóstico em pleno ciclo olímpico?Foi terrível. Depois de diagnosticado, o médico, muito frontal, disse-me assim: ‘Os tumores são todos malignos, até que me provem o contrário’. Então mandou-me fazer seis exames. Cada vez que ia buscar o envelope com os resultados, pensava: ‘A minha vida está aqui dentro’. Fui buscar o primeiro e tudo bem, mas quando ia buscar a sintografia óssea, não fui capaz, foi o meu treinador. Vi-o ao fundo do corredor a rir e fiquei aliviado... Era um stress terrível a cada consulta e exame. Acabou por voltar aos treinos? Voltei... fiz um decatlo e nem acabei. Fui aos campeonatos Ibero-Americanos, em Huelva, e não consegui acabar. Tinha feito um enxerto ósseo de 7 centímetros, perdido mobilidade, força... foi nesse momento que percebi, pronto, acabou. Tinha 32 anos e o campeão em Sidney 2000 tinha 36 anos. Não era assim que queria ter acabado.Quando termina a carreira, não tem formação académica e não sabe o que vai fazer à vida, apenas sabe que quer ser treinador? Gastei toda a minha energia numa luta com o IPDJ [accionou o seguro de invalidez para a prática de desporto de alta competição, no valor de 50 mil euros ]. Tínhamos reuniões e reuniões e como sou teimoso dizia: ‘Vou conseguir’. Quando dei por mim, íamos em quase quatro anos nesta luta e disse já chega. Decidi fazer greve de fome. Já tinha ido à Decatlon comprar a tenda para acampar junto à secretaria de Estado do Desporto. O meu treinador, que sabia disso, contou a não sei quem e, entretanto, [o jornal] A Bola entrou em contato comigo, dei uma entrevista, em que disse ‘sim, vou fazer greve de fome’ e expliquei porquê. Entretanto, apareceu o convite para entrar na Federação. E já lá estou desde 2008. Fui para a formação. Foi um choque muito grande, as memórias do treino que eu tinha era do alto rendimento e criou-se um vazio, tive de estudar, ver livros, documentários sobre o treino de formação. Fui aos Açores e à Alemanha tirar cursos. Aos poucos fui encaixando a minha experiência e vivência na pista e fui misturando com o que aprendia. Depois tirei a especialidade de saltos e revelou-se uma boa aposta..Foi uma entrada atribulada na área do treino então...É verdade. Em Portugal, criámos a ideia de que o treinador de atletismo é um professor de educação física e eu não fiz universidade. Não fiz educação física, mas sinto-me muito bem preparado para ser treinador. Eu não considero que tenha o doutoramento no treino por ter ido aos Jogos Olímpicos. A minha mais-valia, ao nível do treino, tem a ver com o percurso de 12 anos até chegar aos Jogos Olímpicos – ir aos Jogos é apenas um momento. Não fui bem aceite e não é por nada que só temos três treinadores no ativo que foram olímpicos. Isto é suficiente para as pessoas refletirem..Como foi lidar com essa rejeição? No início, irritava-me e confrontava as pessoas. Aliás, a primeira situação que tive foi, precisamente, aqui no CAR, em que me foi dito: ‘És treinador de atletismo, mas tiraste o curso onde?’ Tive contar até dez... Agora, tenho 54 anos e ainda não entrei naquela fase de ignorar isso completamente, ainda mexe um bocado comigo. Mas criou-se uma ideia errada, de que sou agressivo quando eu sou é reativo. Não me provoquem, deixem-me trabalhar.Teve alguma atitude de que se arrependa? Essa fase marcou o treinador que é hoje? De maneira alguma. Estes últimos três anos têm sido fantásticos. Os que achavam que eu não era suficientemente inteligente para ser treinador de atletismo, por não ser professor de educação física, é que estão marcados hoje, porque não há muitos casos no mundo de um treinador com um atleta masculino acima de 8 metros e um feminino acima de sete metros vindos da formação. O treinador de atletismo já é um elemento reconhecido? Não. Vou dar um exemplo. A Agate foi condecorada pelo Presidente da República [a 23 e março, por António José Seguro], a Agate estava em local de destaque e o treinador da Agate, eu, estava no meio da comitiva a bater palmas. Eu e os outros treinadores do medalhados devíamos estar ao lado dos atletas. Senti muito aquele momento. Se ouvir esta entrevista, o Presidente da República fica a saber que, se voltar a condecorar a Agate, eu vou ter que estar ao lado dela porque ela não conseguiu sozinha..Mais uma vez, o Mário Aníbal a desafiar o pré-estabelecido...Porque está mal. Vou dar outro exemplo. Depois de receber o ouro no pódio, a Agate trouxe-me a medalha que a World Athletics dá aos treinadores agora. Parecia uma coisa do género, ‘toma, dá lá esta ao teu treinador’. Somos completamente ignorados, por isso prometo que vou instar uma luta para que os treinadores sejam reconhecidos. A nível legislativo, o treinador já é reconhecido e premiado, sendo que o atleta recebe o dobro do prémio que é pago ao treinador.Ninguém me vai conseguir explicar isso. Eu só treino metade do tempo? Ou só levo parte do meu cérebro para o treino? O Nelson Évora, com o talento extraordinário que tem, se o treinador não fizesse um bom trabalho ele chegava onde? Se calhar nem ia aos Jogos. Falta trabalhar muito nessa parte do conhecimento e nem falo pela questão do dinheiro.O que gostaria de ouvir um atleta dizer sobre o treinador Mário Aníbal, se alguma vez tiver a oportunidade de o fazer seja num pódio ou numa condecoração do Presidente da República?Basta serem verdadeiros. Tenho os meus atletas tão próximos quanto a relação de um pai com um filho. Se sei que têm um problema, disponho-me logo a ajudar. Gostava que, numa situação dessas, defendessem a presença do treinador. Talvez por eu ter recebido esse apoio do meu treinador, hoje faço o que ele fez comigo – o José Dias foi uma grande ajuda no meu crescimento. Raramente janto com eles, não bebemos café, não vamos para a noite, mas no treino e na vida nunca lhes falho. Às vezes desafiam-me a saltar e no dia a seguir fico a pensar porquê é que me dói isto e aquilo (risos). Foi porque saltei. Fico sempre dois, três dias sem conseguir mexer. E ainda se lembra de ter começado, com 15 anos, numa prova que tinha o nome do Diário Notícias...A minha história começa precisamente no DN Jovem, foi o projeto mais fantástico que criamos em Portugal. Já criamos outro, o mega sprinter, mas o DN Jovem (hoje Olímpico Jovem) era a loucura. Tenho que dar os parabéns ao Diário de Notícias, muitos atletas nasceram para o atletismo nessa competição, era uma prova mítica, era quase os nossos Jogos Olímpicos. Ficávamos na Colónia Balnear O Século, depois só havia uma pista de atletismo, que era a do Estádio Nacional, mas vinham as associações todas, centenas e centenas de atletas. Era maravilhoso. .isaura.almeida@dn.pt