Depois de uma carreira construída entre formação, alto rendimento e experiências internacionais em três continentes, Leonel Pontes vive atualmente uma fase diferente no futebol chinês, mas mantém intacta a ambição de regressar ao treino no terreno. Em entrevista ao Diário de Notícias, o técnico português aborda o trabalho que desenvolve na China, revisita o percurso em clubes como Sporting, FC Porto, Benfica e Marítimo, e projeta ainda o futuro da Seleção Nacional no Campeonato do Mundo.Atualmente diretor técnico do Shanghai Shenhua, Pontes assume que esta experiência representa simultaneamente um desafio profissional e pessoal exigente. “Estou cá como diretor técnico a ajudar na organização, dar formação aos treinadores, promover jogadores para os escalões seguintes e criar dinâmicas que potenciem os jogadores e façam a ligação com a equipa principal”, explica, destacando a dimensão estrutural do projeto que coordena.Num contexto com mais de duas centenas de atletas e várias equipas técnicas, o treinador sublinha que a função ultrapassa o trabalho tradicional de campo. “São sete equipas, mais de 40 profissionais nas equipas técnicas e mais de 200 jogadores. É uma experiência muito intensa, não só do ponto de vista profissional, mas também humano, porque vivemos numa cultura muito diferente da nossa”, refere, acrescentando que a adaptação foi progressiva: “A língua é uma barreira, a comida é diferente, os hábitos também, mas tem sido um grande desafio e tem valido a pena.”Apesar das responsabilidades atuais, Pontes não esconde a vontade de regressar ao treino direto. “Foram 25 anos no campo e naturalmente tenho muitas saudades. Vou voltar mais experiente, mais preparado. Não tenho dúvidas de que em breve voltarei para aquilo que é a minha praia.”.Acompanhar o futebol português continua a fazer parte do quotidiano do treinador, que analisa com atenção a competitividade do campeonato. Sobre o FC Porto, Leonel Pontes é claro na leitura da temporada. “Se o Porto for campeão nacional será um justo campeão, porque foi a equipa mais regular, a equipa que ganhou mais pontos e que adotou um modelo de jogo muito idêntico ao Porto do passado: competitivo, agressivo e pressionante”, afirma.O técnico considera que o mérito da época passa pela capacidade coletiva construída ao longo da temporada. “O treinador conseguiu implementar esse nível de competitividade mesmo com jogadores que muitos deles não tinham história no clube, mas integraram-se muito bem dentro da estrutura coletiva.”Com uma ligação histórica ao Sporting, clube onde trabalhou durante mais de 15 anos e participou na formação de vários internacionais portugueses, Leonel Pontes analisa a temporada leonina com equilíbrio. “O Sporting fez um campeonato ligeiramente abaixo das expectativas, porque se espera sempre que possa lutar pelo título até ao fim”, afirma, apontando as dificuldades físicas como fator decisivo. “Ao longo da época teve muitos percalços e muitas lesões, o que obrigou os mesmos jogadores a estarem em constante competição.” Ainda assim, destaca o rendimento de vários atletas. “O Trincão fez uma época muito interessante, o Morita acabou por jogar mais do que se esperava e fez uma boa temporada, e houve jovens que tiveram oportunidade de aparecer.” Para Pontes, a exigência europeia também teve impacto no rendimento final. “Estamos a falar de jogos com o Benfica e com o Arsenal, com um nível de intensidade emocional muito elevado. Isso deixa marca do ponto de vista físico e emocional.”Sobre o Benfica, o treinador identifica uma equipa eficaz, mas ainda em construção do ponto de vista exibicional. “Foi uma equipa com um novo treinador, muito virada para o resultado, o que realça um pouco o perfil do seu treinador”, observa, sublinhando, no entanto, que o rendimento coletivo poderia ter sido mais consistente. “Aqui e ali o rendimento não foi condizente com a dimensão do Benfica. Jogar no Benfica requer um perfil diferente, porque a pressão sobre o jogador é muito grande.” Ainda assim, reconhece a eficácia competitiva encarnada. “É uma equipa que praticamente não perdeu pontos durante este período, o que demonstra capacidade competitiva.”.Leonel Pontes olha com satisfação para o regresso do Marítimo ao principal escalão do futebol português, clube que orientou em 2014. “Estou muito feliz pela subida. O Marítimo está no local onde tem de estar”, afirma, deixando elogios à estrutura e aos adeptos. “O clube cresceu em infraestruturas, mas precisava de acompanhar essa evolução ao nível do alto rendimento e da organização profissional. Esse é o passo que tem de continuar a dar.”O treinador acredita que o futuro passa pela consolidação. “Numa primeira fase deve procurar um campeonato tranquilo e, mais à frente, voltar a lutar por lugares europeus.”Pontes integrou a equipa técnica da Seleção Nacional em fases finais internacionais como o Euro 2012 e o Mundial 2014, experiência que influencia a sua análise ao próximo Campeonato do Mundo. “O estado físico dos jogadores pode condicionar muito o rendimento das seleções, tal como as viagens, as diferenças horárias e a adaptação ao clima”, explica.Ainda assim, identifica fatores positivos na equipa portuguesa. “Temos jogadores habituados a ganhar, que competem nos melhores clubes da Europa, e uma mistura muito interessante entre juventude e maturidade.”Apesar disso, rejeita colocar Portugal no lote principal de favoritos. “Não somos favoritos. França, Espanha, Argentina e Brasil partem à frente. Depois há seleções como Portugal, Inglaterra ou Alemanha que podem chegar longe.”E deixa uma mensagem clara quanto à ambição nacional. “Portugal deve lutar pelo título. Estes jogadores merecem e o país merece, pela cultura futebolística que tem.”