A arbitragem portuguesa está de volta aos Mundiais de futebol, 12 anos depois da última presença. João Pinheiro sucede a Pedro Proença, o agora presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) que esteve no Mundial 2014, que tinha sido o último a integrar a lista final da FIFA. Isto apesar de, em 2018, Artur Soares Dias e Tiago Martins terem estado no Mundial da Rússia na condição de videoárbitros (VAR). Agora, pela 13.ª vez em 22 Mundiais, a FIFA volta a apostar na arbitragem portuguesa para o maior evento de futebol. O nome do juiz da Associação de Futebol de Braga está entre os 52 eleitos da FIFA para o próximo Campeonato do Mundo, que se realiza nos EUA, México e Canadá de 11 de junho a 19 de julho, e que conta igualmente com a presença da seleção nacional. “A nomeação para o Mundial 2026 significa bastante para mim e para a minha equipa [os árbitros assistentes que o irão acompanhar: Luciano Maia e Bruno Jesus ]. Sem dúvida que é um momento muito importante na nossa carreira. É algo que ambicionámos há algum tempo e que preparámos com muita antecedência para chegar a este dia e termos este sucesso”, disse João Pinheiro, em declarações enviadas ao DN.Falando não só por ele, mas também pelos árbitros assistentes que o irão acompanhar, o juiz da AF Braga, disse que não podiam estar “mais contentes em representar Portugal” na maior competição de futebol: “É sem dúvida um grande objetivo que tínhamos e esperámos fazê-lo da melhor maneira possível.”O árbitro de 38 anos lembrou que esta chamada “é resultado do trabalho de muita gente” e não apenas dos três eleitos. “É também dos videoárbitros que nos acompanharam ao longo deste ano, é de um conselheiro de arbitragem que esteve sempre presente connosco, é de um presidente da Federação Portuguesa de Futebol que nos apoiou”, disse João Pinheiro, reconhecendo a importância do trabalho conjunto com um objetivo claro: fazer regressar a arbitragem portuguesa ao Mundial de futebol.“Isto é um marco muito importante para nós, mas também para a arbitragem portuguesa. É o reconhecimento do trabalho que tem sido desenvolvido ao longo destes anos. E só com muito trabalho se conseguem esses objetivos, por isso ficámos muito contentes”, disse.João Pinheiro foi também elogiado pelo presidente da FPF, também ele antigo árbitro: “Sei, por experiência própria, o que representa para João Pinheiro, Luciano Maia e Bruno Jesus a presença num palco tão importante. Desejo-lhes, por isso, a maior das felicidades para o Mundial. Sei que representarão dignamente a arbitragem e o futebol português. No Mundial dos Estados Unidos, Canadá e México, também na arbitragem ‘Vai dar Portugal!’”, reagiu Pedro Proença, dizendo que a nomeação da FIFA reconhece “o talento e a dedicação dos árbitros portugueses e do excelente trabalho realizado pelo setor”. Formado em direito apitou a Supertaça Europeia em 2025João Pinheiro, nascido há 38 anos em Vila Nova de Famalicão, é o único português na elite da UEFA, tendo integrado o estágio final de preparação para árbitros europeus, que decorreu há duas semanas, em Itália, entrando assim no restrito lote de árbitros que a UEFA podia designar. Além disso, já tinha estado no seminário de preparação da FIFA, em março de 2025, no Dubai, integrado num grupo restrito de 16 juízes de 14 países. Formado em Direito, é advogado e árbitro de primeira categoria desde 2015, internacional desde 2016 e promovido à categoria de Elite da FIFA já em 2025. O árbitro da Associação de Futebol de Braga tem-se consolidado a nível internacional, sendo presença regular nas competições da UEFA e da FIFA. Falhou o último Mundial de clubes, mas esteve no Mundial de sub-20 e foi VAR na final da Liga dos Campeões de 2024/25, em que o PSG goleou o Inter Milão (5-0), tendo ainda apitado a última Supertaça Europeia, entre o PSG e o Tottenham, no dia 13 de agosto de 2025, que também terminou com os parisienses a levantar o troféu. Na altura da nomeação para a Supertaça falou ao DN sobre o papel do árbitro no espetáculo desportivo e confessou que “é uma função de grande responsabilidade”. “Exige conhecimento técnico, preparação física e mental. É gerir conflitos com autoridade e equilíbrio, manter a imparcialidade sob pressão e lidar com uma grande exposição pública. Ser comunicativo tornou-se essencial para conduzir um jogo. Mais do que aplicar as leis do jogo, o árbitro deve contribuir ativamente para a valorização do espetáculo desportivo”, disse.Com sete jogos dirigidos na Liga dos Campeões esta época e apenas 12 na I Liga, João Pinheiro esteve no playoff de acesso ao Mundial 2026, entre a Ucrânia e a Suécia. Entre portas, José Mourinho foi um dos que mais criticou o juiz da AF Braga, mas Artur Soares Dias saiu em sua defesa. "Que represente uma inspiração para termos mais árbitros portugueses nos maiores palcos do mundo”Mundial 2026 será o maior de sempre, com 48 equipas e 104 jogos num torneio que terá 52 dos juízes, com a UEFA (Europa) e a CONMEBOL (América do Sul) a terem a maior quota (11 árbitros cada), sendo que o Brasil é o único país com três árbitros chamados.Por ser um dos países que tem mais vagas para árbitros internacionais a nível mundial (55), os responsáveis da arbitragem portuguesa foram surpreendidos com a ausência de portugueses do grupo dos 117 juízes, de 41 países, escolhidos pela FIFA para o Mundial de Clubes, jogado em 2025. Uma situação agora revertida com a nomeação de João Pinheiro, “uma boa notícia” para todo o futebol português, segundo a Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF), a Liga Portugal e a Federação Portuguesa de Futebol (FPF). “Mais do que um prémio, é o justo reconhecimento do trabalho desenvolvido ao longo dos últimos anos por uma equipa de elite, que muito prestígio tem trazido para o futebol português. (...) Que esta nomeação represente uma inspiração para termos, num futuro próximo, mais árbitros portugueses nos maiores palcos do mundo”, desejou Luciano Gonçalves, presidente do Conselho de Arbitragem da FPF, que em fevereiro anunciou um plano nacional para o setor, que pretende triplicar o número de árbitros em 20 anos.A ideia pretende envolver todas as 22 associações de futebol, criando estruturas profissionais e um plano em parceria com a Direção-Geral de Educação, o Desporto Escolar, para captar o interesse dos jovens na arbitragem. Para reter os árbitros na profissão “não é apenas de dinheiro”, segundo Luciano Gonçalves, lembrando que são as questões de segurança (ou a falta de) que mais juízes retiram ao quadro nacional.Já Reinaldo Teixeira, que antes de presidir à Liga Portugal foi observador dos árbitros nos campeonatos nacionais, destacou o “profissionalismo” de João Pinheiro: “Esta presença no Mundial 2026 reforça o prestígio internacional da arbitragem portuguesa e demonstra que o talento nacional continua a afirmar-se nos maiores palcos do futebol."isaura.almeida@dn.pt.Portugal volta a ter árbitro no Mundial. António Garrido falhou final de 1982 por culpa da seleção brasileira