A violência associada ao desporto, sobretudo ao futebol profissional, registou uma diminuição significativa em Portugal durante a primeira volta das competições da temporada, mas as autoridades alertam para a evolução de novas formas de comportamento violento entre adeptos, nomeadamente ligadas ao movimento conhecido como “casual”.De acordo com dados do Ponto Nacional de Informação Desportiva (PNID) da Polícia de Segurança Pública (PSP), até 4 de janeiro foram registados 1.951 incidentes nas competições profissionais de futebol, menos 1.145 do que no mesmo período da época anterior. O número representa uma redução de cerca de 37% face às 3.096 ocorrências contabilizadas anteriormente.O coordenador do PNID, comissário Gonçalo Pereira, considera que os números evidenciam uma melhoria relevante em várias tipologias de ocorrências. Entre as áreas com maior redução está a utilização de pirotecnia, que passou de 2.014 casos para 1.225. Também se verificaram menos episódios de violência direta entre adeptos: as ofensas à integridade física diminuíram de 50 para 42 registos, enquanto as injúrias e ameaças desceram de 64 para 44. As participações em rixa tiveram uma queda particularmente acentuada, passando de 15 incidentes para apenas um..Segundo o responsável, também os episódios associados a incentivos à violência, racismo ou xenofobia registaram um recuo, passando de 30 para 21 ocorrências. Apesar da diminuição global, Gonçalo Pereira sublinha que o fenómeno da violência no desporto não desapareceu, estando antes a sofrer transformações que exigem maior atenção das autoridades.Um dos fatores que preocupa a PSP é o crescimento do fenómeno “casual”, tendência já identificada em vários países europeus. Estes grupos organizados de adeptos caracterizam-se por não se apresentarem como claques tradicionais e por adotarem estratégias que dificultam a identificação policial. Frequentemente vestem de forma semelhante, muitas vezes de preto, e privilegiam confrontos físicos em detrimento do apoio organizado às equipas.Para o coordenador do PNID, trata-se de um movimento em crescimento que exige monitorização constante. “O foco destes grupos é a violência e não o apoio ao clube”, refere, alertando para a necessidade de reforçar mecanismos de prevenção e vigilância.Até 22 de fevereiro estavam registados em Portugal 437 adeptos interditos de frequentar recintos desportivos, número que resulta de decisões judiciais e da atuação da Autoridade para a Prevenção e Combate à Violência no Desporto (APCVD). As autoridades consideram esta medida uma ferramenta importante, embora não suficiente para combater o fenómeno.Com o Campeonato do Mundo de futebol de 2030 no horizonte, Portugal tem vindo a reforçar a cooperação internacional e a formação de agentes especializados conhecidos como “spotters”. Estes elementos da PSP trabalham sobretudo na recolha de informação e na mediação junto dos adeptos, procurando antecipar situações de risco.Apesar da redução estatística de incidentes, as autoridades alertam para uma nova realidade: a violência associada ao desporto está a tornar-se mais dispersa e menos previsível. Segundo dados recolhidos pela PSP, episódios de confronto entre adeptos começam a surgir também em modalidades e competições com menor presença policial, como futsal, hóquei em patins ou andebol.Um dos casos mais recentes ocorreu a 19 de fevereiro nas imediações do Pavilhão João Rocha, em Lisboa, antes de um encontro da Liga de Futsal. Mais de uma centena de adeptos envolveram-se em confrontos e utilizaram engenhos pirotécnicos, numa ocorrência que resultou em 124 detenções.No centro da estratégia de prevenção da PSP está a Unidade Metropolitana de Informações Desportivas (UMID), criada há duas décadas, na preparação para o Euro 2004. A unidade trabalha sobretudo na recolha e análise de informação sobre grupos organizados de adeptos e potenciais focos de conflito.Este fenómeno envolve, muitas vezes, jovens integrados socialmente, incluindo estudantes universitários e profissionais de classe média, que se organizam para confrontos previamente combinados..A PSP identifica também uma deslocação destes grupos para jogos de escalões inferiores ou competições distritais, onde o nível de vigilância é menor. Nestes contextos, adeptos ligados a grandes clubes podem aparecer em encontros sem ligação direta às suas equipas, procurando provocar confrontos.Na área de Lisboa, as autoridades estimam a existência de cerca de 300 elementos associados a grupos casual ligados ao Benfica e cerca de 200 ao Sporting, números que evidenciam a dimensão do fenómeno na capital.Outro desafio prende-se com o enquadramento legal das claques. A legislação portuguesa exige que os Grupos Organizados de Adeptos (GOA) estejam registados para beneficiarem de determinadas condições de apoio logístico nos estádios. No entanto, muitas organizações optam por não se registar, evitando assim mecanismos de fiscalização.Atualmente existem 26 GOA registados em Portugal, representando cerca de 8.500 adeptos. Entre os maiores grupos estão a Associação Super Dragões, ligada ao FC Porto, com cerca de 3.500 membros, a Mancha Negra Boys da Académica, com mais de 1.800 elementos, a Associação Panteras Negras do Boavista, com cerca de 900, o Coletivo Ultras 95 do FC Porto, com mais de 600, e os Brigada Ultras do Sporting, com cerca de 347 filiados.Paralelamente, as autoridades têm registado um aumento da perigosidade dos objetos apreendidos em operações de policiamento desportivo. Para além da pirotecnia tradicional, foram detetados objetos como martelos, navalhas e dispositivos de grande capacidade para lançamento de artefactos pirotécnicos.Apesar da redução global de incidentes registada nas competições profissionais de futebol, a PSP sublinha que o combate à violência no desporto exige uma abordagem integrada, baseada em prevenção, diálogo com os adeptos e uma resposta firme sempre que a ordem pública é colocada em causa..Violência no desporto recua, pirotecnia persiste e futebol concentra quase tudo.Violência no futebol. Penalizar os clubes tem sido a melhor solução