A conversa com Fernando Pimenta aconteceu numa altura particularmente importante da temporada. Depois de voltar a conquistar medalhas internacionais e de demonstrar, mais uma vez, porque continua a ser uma das maiores figuras do desporto português, falou longamente sobre os Jogos Olímpicos, os sacrifícios da alta competição, o estado do desporto em Portugal, a família, os jovens atletas e os sonhos que ainda mantém vivos. Entre respostas profundas, momentos descontraídos e reflexões muito pessoais, ficou evidente não apenas o campeão, mas também o homem por detrás das medalhas. Depois destas medalhas, este é um arranque de apuramento para os Jogos Olímpicos e um arranque de época como já nos habituou, sempre com a fasquia muito alta. Daqui para a frente, como é que vai ser?Daqui para a frente vai ser necessário fazer uma boa gestão da forma física porque vamos ter de manter este nível competitivo até ao final de agosto. E isso é extremamente difícil. Atualmente somos praticamente obrigados a estar bem em todas as competições e tenho perfeita consciência da exigência que isso representa.O desafio passa por conseguir somar o maior número de pontos possível, até porque este ano contam várias competições importantes. Já tivemos a Taça do Mundo em Szeged, agora vem Brandenburg, depois o Campeonato da Europa, outra Taça do Mundo em Montreal e mais tarde o Mundial em Poznań.Além disso, nós europeus temos sempre uma dificuldade acrescida porque o nível competitivo aqui é muito alto em praticamente todas as categorias. Em outros continentes é, por vezes, mais fácil alcançar pontuações máximas, enquanto na Europa qualquer competição é extremamente exigente. Isso faz com que partamos logo numa situação mais difícil em termos competitivos.O Campeonato da Europa vai realizar-se em Portugal. Isso aumenta a pressão ou transforma-se numa motivação extra?Para mim transforma-se claramente em motivação e orgulho. Competir em Portugal é sempre algo especial. Quando conseguimos manter-nos durante tantos anos ao mais alto nível é porque houve muito trabalho e muita dedicação. Por isso, representar o país em casa não pode ser visto apenas como pressão. Tem de ser encarado como um privilégio.Claro que existe responsabilidade porque as pessoas já esperam grandes resultados, mas a minha tarefa é continuar a trabalhar como sempre trabalhei e dar tudo aquilo que tenho dado ao longo destes anos..Quem era aquele jovem que começou na canoagem quase por acaso e quem é hoje?Quando comecei era um miúdo muito brincalhão, muito extrovertido, que queria apenas praticar desporto e experimentar algo diferente daquilo que aparecia mais na televisão. Na altura quase tudo girava à volta do futebol e das modalidades coletivas.Depois apareceu naturalmente o lado competitivo. Sempre gostei muito de competir, talvez até em excesso quando era mais novo. Hoje continuo extremamente competitivo, mas muito mais controlado. Aprendi bastante ao longo destes anos. Aprendi a gerir melhor o esforço, o treino, a recuperação e sobretudo a parte mental.São praticamente vinte e cinco anos nesta vida e isso muda completamente a forma como olhamos para o desporto e para nós próprios.Ainda sente a mesma motivação depois de tantos anos de alta competição?A motivação continua muito forte, mas de uma forma diferente. Quando somos mais novos temos uma energia quase inconsciente e parece que conseguimos fazer tudo sem pensar muito no desgaste. Hoje já existe mais maturidade e mais consciência daquilo que o corpo sofreu ao longo dos anos.Há dias em que custa mais levantar para treinar. Há momentos em que o desgaste físico e mental pesa bastante. Mas ao mesmo tempo existe experiência e uma capacidade muito maior para perceber aquilo que realmente importa.Os Jogos Olímpicos continuam naturalmente a ser uma motivação enorme. O sonho olímpico continua muito vivo.Pensa muito naquilo que fará depois do fim da carreira?Já existem alguns projetos pessoais a ganhar forma. Ainda não é o momento certo para falar muito sobre isso, mas sim, há ideias e projetos a serem preparados para o futuro. Acho que depois de tantos anos dedicados quase exclusivamente ao desporto é normal começarmos também a pensar naquilo que queremos construir fora da competição.Hoje é uma referência para muitos atletas mais novos. Como vive esse papel?Tento transmitir-lhes aquilo que fui aprendendo ao longo da carreira. Muitas vezes os atletas olham apenas para o resultado e esquecem-se de valorizar o processo todo. O treino, os erros, as dificuldades, aquilo que aprendemos durante as competições… tudo isso faz parte da construção de um atleta.Nem sempre um resultado traduz totalmente aquilo que aconteceu numa prova. Às vezes um atleta não ganha uma medalha, mas faz uma das melhores prestações da carreira e aprende coisas fundamentais para o futuro.Também tento alertá-los para a importância de construírem vida fora do desporto. A carreira de atleta não dura para sempre. É importante pensar na família, nos estudos, nos projetos pessoais e naquilo que existirá depois da competição..Vai incentivar os seus filhos a praticarem canoagem?Não, sinceramente não. E por vários motivos. Primeiro porque sei exatamente aquilo que esta vida exige. Sei o quão desgastante é viver tantos anos dedicados exclusivamente ao alto rendimento. Não é só a parte física, é sobretudo a parte mental, a resiliência necessária para lidar com as dificuldades, com as derrotas, com os momentos de frustração e até com a vontade de desistir que às vezes aparece.Há alturas em que olhamos para o lado e percebemos que outras modalidades têm condições completamente diferentes, muito mais reconhecimento e outro tipo de apoio. E mesmo assim nós temos de continuar a lutar diariamente pelos resultados.Claro que quero que os meus filhos pratiquem desporto, isso é importante, mas talvez modalidades que lhes permitam ter uma vida mais equilibrada, mais abertura para uma vida social normal e menos desgaste mental.Ainda no outro dia estava a ouvir uma entrevista do Michael Phelps e identifiquei-me muito com aquilo que ele dizia. Ele próprio admitia que não gostaria que os filhos seguissem exatamente o mesmo caminho competitivo porque sabe o quão duro é viver durante tantos anos apenas para o desporto. E eu percebo perfeitamente isso porque vivi essa realidade durante toda a minha vida adulta.A família tornou-se essencial para conseguir manter o equilíbrio?Sem dúvida. A família representa hoje uma base emocional muito importante. A alta competição pode ser extremamente solitária. Existem muitos momentos de desgaste, pressão constante, ausências e sacrifícios invisíveis.O apoio da minha mulher é absolutamente fundamental. Muito provavelmente sem esse apoio já teria terminado a carreira há algum tempo. Quando uma pessoa vive tantos anos neste nível de exigência, ter estabilidade familiar faz toda a diferença.Hoje é reconhecido praticamente em qualquer lugar onde vai. Como lida com essa notoriedade?Lido muito bem com isso. Vejo-o como reconhecimento do trabalho feito ao longo destes anos. Ainda recentemente estava com um colega de treino e várias pessoas aproximaram-se para pedir fotografias e falar um pouco. Ele perguntou-me se aquilo não se tornava cansativo, mas para mim não. Sinto-me genuinamente bem com esse carinho das pessoas.Mesmo quando estou com a família, existe compreensão de que isso faz parte do meu papel enquanto atleta e figura pública. Se consigo inspirar pessoas, então também tenho a responsabilidade de corresponder da melhor forma possível.E acontece muitas vezes receber mensagens nas redes sociais de pessoas que me viram na rua, mas que tiveram vergonha de pedir uma fotografia. Normalmente respondo sempre da mesma forma: perderam uma oportunidade porque nunca precisam de ter vergonha de se aproximar.Esse reconhecimento também aumenta a responsabilidade enquanto figura pública?Claro. Quando uma pessoa atinge determinado estatuto, qualquer atitude ganha impacto público. E quando queremos ser exemplo para os mais novos temos de tentar agir da forma mais correta possível.As pessoas observam-nos muito mais do que imaginamos e isso obriga-nos a ter cuidado com aquilo que fazemos e com os valores que transmitimos..Ao longo dos últimos anos também se tornou muito interventivo relativamente aos problemas do desporto português. Acha que está tudo bem na canoagem e no desporto em Portugal ou ainda falta fazer mais pelos atletas, treinadores e estruturas de apoio?Vou ser o mais sincero possível. Acho que há alguns anos era muito mais difícil do que é hoje. Neste momento existem pessoas em cargos importantes que vêm realmente do desporto e isso faz diferença. O atual secretário de Estado do Desporto é alguém que conhece o meio desportivo, que percebe a realidade dos atletas e isso é importante.Lembro-me perfeitamente do percurso dele desde a Universidade do Minho, passando depois pelo futebol, e acho que isso lhe deu uma visão muito concreta daquilo que o desporto precisa. Claro que também existem limitações orçamentais e nem tudo depende apenas da vontade das pessoas.Depois também temos no Comité Olímpico uma pessoa com uma visão muito forte e com grande experiência de liderança, como o Fernando Gomes. Acho que o Comité Olímpico ganhou uma dinâmica diferente. Nota-se muito mais presença, muito mais capacidade de comunicação, mais proximidade às pessoas e aos próprios atletas.Isso é importante porque dá mais visibilidade ao desporto e acaba também por atrair patrocinadores. Ainda há pouco tempo vimos surgir novos parceiros e isso é essencial para o crescimento das modalidades e para ajudar os atletas.Mas apesar dessa evolução, continuo a achar que existem mudanças importantes por fazer. Um dos temas mais importantes para mim é a questão da lei do mecenato. Ainda recentemente foi revista para a cultura e eu gostava muito que existisse também uma revisão séria para o desporto.Neste momento, a lei funciona sobretudo para associações sem fins lucrativos. Ou seja, se existir uma empresa ou um patrocinador que queira apoiar diretamente um atleta, essa vantagem praticamente desaparece. E isso não faz muito sentido.Ainda há pouco tempo estava a falar com um patrocinador e ele dizia-me que, ao apoiar financeiramente um atleta, uma parte significativa desse valor acabava logo absorvida em impostos. Ou seja, alguém que já está a fazer um esforço para apoiar o desporto continua a ser penalizado fiscalmente por isso.Na minha opinião, esse dinheiro podia perfeitamente ficar disponível para ajudar mais os atletas, apoiar famílias, melhorar condições de preparação ou reforçar equipas técnicas.Também acredito muito que parte dos impostos gerados diretamente pelo desporto devia regressar automaticamente ao próprio desporto. Por exemplo, uma pequena percentagem do IVA relacionado com artigos desportivos, eventos ou atividades ligadas ao setor podia ser canalizada diretamente para apoiar modalidades, atletas, treinadores, apoio médico, psicólogos e estruturas de desenvolvimento.Acho sinceramente que isso permitiria criar um sistema muito mais sustentável. O desporto praticamente ajudava a financiar-se a si próprio e deixávamos de depender tanto apenas da resistência individual dos atletas e das modalidades para sobreviver.Muitas vezes os resultados aparecem porque os atletas conseguem resistir às dificuldades, e não porque existam verdadeiramente todas as condições necessárias para trabalhar ao mais alto nível.A relação com o treinador Hélio Lucas já dura há muitos anos e atravessou praticamente todos os momentos da carreira. Qual é o segredo dessa ligação tão longa?Acho que só é possível porque existe uma relação muito forte, tanto a nível profissional como pessoal. Vivemos juntos momentos de enorme sucesso, mas também fases muito difíceis, momentos de frustração e períodos em que as coisas não correram como queríamos. E mesmo assim continuámos sempre juntos, a trabalhar e a lutar pelos mesmos objetivos.Durante muitos anos éramos praticamente só nós os dois. Enquanto noutras seleções existem equipas multidisciplinares enormes, vários atletas de apoio e estruturas muito completas, muitas vezes éramos apenas eu e o meu treinador. Ele era treinador, apoio técnico, motivador, cronómetro, praticamente tudo. E isso acaba por criar uma ligação muito forte.Existe uma compreensão muito grande entre nós porque ao fim de tantos anos já nos conhecemos muito bem. Há dias em que estou melhor, outros em que o desgaste pesa mais, e ele percebe isso perfeitamente. Hoje já não tenho aquela energia dos vinte anos, em que parecia acordar todos os dias pronto para destruir tudo no treino. O corpo sente o desgaste acumulado e isso obriga também o treinador a adaptar muita coisa.Mas acima de tudo existe uma enorme resiliência dos dois lados. Houve períodos muito duros em que treinávamos praticamente sozinhos, em condições difíceis, sem grandes apoios. Houve dias de tempestade em que as pessoas estavam em casa porque era o aconselhável, e nós estávamos no rio a treinar porque não havia alternativa.No alto rendimento ninguém quer saber se estava frio, vento ou chuva. No final, aquilo que interessa são os resultados. E nós sempre tivemos essa consciência.Por isso esta relação dura há tantos anos. Porque existe confiança, lealdade, compreensão e uma capacidade muito grande de resistir juntos às dificuldades. E sinceramente acho muito difícil existir uma carreira longa ao mais alto nível sem uma relação forte entre atleta e treinador.Ao longo desta conversa falou várias vezes da dureza invisível da alta competição. Acha que o público ainda não tem verdadeira noção dessa realidade?Muitas vezes as pessoas veem apenas as medalhas e os pódios, mas não imaginam tudo aquilo que existe por trás. Há treinos feitos em condições muito difíceis, dias de tempestade, frio intenso, desgaste acumulado durante anos.Enquanto muitas pessoas estão em casa protegidas da chuva, nós estamos no rio porque o calendário competitivo não espera por ninguém. No final ninguém pergunta se estava frio ou se existiam dificuldades. O objetivo continua a ser ganhar.E depois há pequenos detalhes que podem mudar tudo. Uma noite mal dormida, uma alteração meteorológica ou um fator externo podem decidir uma competição inteira. Isso aconteceu comigo em momentos muito importantes da carreira. Depois de tudo aquilo que já conquistou, qual é hoje o maior sonho?Desportivamente continua a ser o título olímpico. Enquanto existir possibilidade de lutar por esse objetivo, vou continuar a fazê-lo.A nível pessoal, um dos maiores sonhos já foi concretizado: construir uma família. Agora quero continuar a construir o futuro, dar uma boa educação aos meus filhos, transmitir-lhes valores importantes e deixar uma marca positiva no mundo. .Canoístas José Ramalho e Fernando Pimenta tetracampeões do Mundo de K2 maratonas.Fernando Pimenta conquista mais um título de campeão do mundo de canoagem