"As últimas três horas foram sobreviver." A frase de António Palavra resume melhor do que qualquer classificação o que viveram os dois canoístas portugueses na Yukon River Quest, uma das mais duras provas de ultramaratona em canoagem do mundo. Depois de percorrerem 715 quilómetros no rio Yukon, no Canadá, a dupla conquistou o primeiro lugar na categoria K2 e terminou na terceira posição da classificação geral, entre 64 embarcações, reforçando o estatuto de referência portuguesa nas provas de resistência extrema. O resultado surge dois anos depois de terem sido os primeiros portugueses a concluir a Yukon 1000 e um ano após vencerem a Loire 725, em França. Ainda assim, nem António Palavra nem Luís Vieira olham para esta prova como uma história de sucesso fácil. Pelo contrário."O grande desafio era remar tantas horas seguidas. Nunca o tínhamos feito. O máximo tinham sido 19 horas. Até aí sentíamo-nos à vontade. A partir daí era um desafio", explicou António Palavra, referindo-se às duas longas etapas da competição. A primeira levou-os a remar cerca de 21 horas consecutivas até Carmacks, onde a organização impunha uma paragem obrigatória de dez horas. Depois seguiram-se mais cerca de 25 horas consecutivas até à meta, em Dawson City. Apesar da preparação rigorosa, houve momentos em que o objetivo deixou de ser ganhar tempo aos adversários. "A segunda etapa já foi outra história." António admite que a fadiga se tornou extrema. "Pedi ao Luís para controlar o barco. Eu ia só remar. As últimas horas foram bastante difíceis", recordou. A preparação para este desafio foi construída a partir das experiências acumuladas nas provas anteriores. "Preparámo-nos com base no que tínhamos aprendido na Yukon 1000 e na Loire. Percebemos os erros que tínhamos cometido e tentámos corrigi-los", explicou o atleta, que vive atualmente na Noruega, onde trabalha como professor. .Luís Vieira, optometrista de profissão, faz uma leitura igualmente exigente do desempenho da dupla. Apesar do pódio, considera que continuam longe da perfeição. "Temos uma boa qualidade, que é o espírito crítico. Continuamos a falhar em algumas áreas. Cada vez menos, mas continuamos a falhar."Na sua opinião, a maior margem de progressão está na alimentação durante esforços extremos. "O nosso maior problema neste momento é a gestão nutricional. Temos melhorado muito, mas precisamos de um 'booster', de uma aprendizagem mais profissional, se queremos ir um bocadinho mais além."A Yukon River Quest acabou mesmo por se revelar a prova mais dura que realizaram até hoje. "Foi realmente a prova mais agressiva que fizemos", afirmou Luís, explicando que a privação de sono acabou por ser um dos maiores inimigos. "Percebemos que passar de 19 para 25 horas é todo um outro universo. Passei um bocadinho mal durante a noite. Com a privação de sono começamos a entrar em novos mundos. Começamos na fase dos delírios."Nos momentos finais, o corpo praticamente deixou de responder. "Começámos a cometer erros de navegação, deixámos de conseguir interpretar o GPS e, às tantas, já nem estávamos em competição. Estávamos em modo de sobrevivência."Os dois canoístas conhecem-se desde a década de 1990, quando remavam juntos nas águas bravas do rio Paiva. Mais tarde voltaram a aproximar-se em Aveiro, onde partilhavam treinos madrugadores antes de iniciarem a atividade profissional. Foi Luís quem lançou o desafio de entrarem nas provas de ultradistância, uma aventura que acabou por transformar-se num projeto internacional apoiado pelo programa Heróis Betano. Apesar da dureza da Yukon River Quest, abandonar este tipo de desafios parece estar fora de hipótese. "Quando acabámos a prova dissemos que nunca mais. Mas duas horas depois já estávamos a pensar onde podíamos ter feito melhor." A prioridade agora passa por compreender melhor a componente nutricional para conseguirem manter o ritmo durante toda a prova. "Queremos perceber como é possível o organismo continuar a consumir tantas calorias por hora. Só assim vamos conseguir manter o ritmo até ao fim."Depois de vencerem a categoria K2 e alcançarem o terceiro lugar absoluto numa das mais exigentes ultramaratonas de canoagem do planeta, António Palavra e Luís Vieira não escondem que o próximo desafio já começou. Não será no rio, mas sim à mesa e no laboratório, onde esperam encontrar as respostas que lhes permitam transformar a resistência física em ainda melhores resultados internacionais.