Emanuel Silva: “O atleta não pode ser visto apenas como atleta, mas como um projeto de alto rendimento”
Paulo Spranger

Emanuel Silva: “O atleta não pode ser visto apenas como atleta, mas como um projeto de alto rendimento”

Medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Londres 2012, o antigo canoísta trocou a competição pela presidência da Comissão de Atletas Olímpicos e faz balanço positivo.
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Durante muitos anos, Emanuel Silva associou a carreira desportiva a uma frase que repetia nas redes sociais: “Novos desafios para novas conquistas”. Quando abandonou o alto rendimento, deixou também de a utilizar. Agora, encontrou razões para recuperá-la. “A partir do momento em que assumi funções na Comissão de Atletas Olímpicos, enquanto presidente, sem dúvida que volta novamente a fazer sentido: novos desafios para novas conquistas”, afirma ao DN o antigo canoísta, que encara a nova etapa com entusiasmo. “Está a ser um excelente desafio. Estou a gostar. Fui muito bem recebido por todos os atletas.”

Emanuel Silva foi eleito presidente da Comissão de Atletas Olímpicos (CAO) para o mandato 2025-2029, depois de terminar uma longa carreira no alto rendimento. A comissão, integrada no Comité Olímpico de Portugal (COP), representa os direitos e interesses dos atletas e é composta por nove olímpicos eleitos pelos seus pares.

Pouco mais de um ano depois de assumir a liderança, o medalhado olímpico faz um balanço positivo e destaca como uma das principais conquistas o acordo destinado a preparar os desportistas para aquilo que acontece quando termina a competição. “Uma conquista muito grande foi o protocolo com o IEFP. Foi um passo gigante para o futuro dos atletas”, salienta Emanuel Silva. O protocolo entre o COP e o Instituto do Emprego e Formação Profissional foi formalizado em março deste ano, envolvendo igualmente a CAO e a Associação dos Atletas Olímpicos de Portugal. O objetivo passa por apoiar a qualificação e requalificação profissional, valorizar as competências adquiridas durante a carreira desportiva e facilitar a integração dos atletas no mercado de trabalho.
Mas há outras matérias em cima da mesa. “Estamos em conversações com a Segurança Social. Há novidades que podem vir a sair em breve, que poderão ser uma mais-valia para todos”, revela, sem antecipar ainda o conteúdo das negociações. “Estamos todos a trabalhar no mesmo sentido e melhores condições estão a surgir para os atletas.”

O antigo canoísta considera que o desporto de alto rendimento mudou significativamente desde os primeiros anos da sua carreira. Há mais investimento, maior exposição pública e, consequentemente, novas responsabilidades. “Antigamente não havia tantos patrocinadores, não havia clubes a investir, não havia tanta gente, não havia o mediatismo que há hoje em dia. Isso é mais responsabilidade”, observa. E deixa uma ideia que considera essencial para compreender o desporto moderno: “Às vezes vemos o atleta de alto rendimento não como um atleta de alto rendimento, mas como um projeto de alto rendimento.” Apesar das novas exigências, Emanuel Silva mostra confiança na geração que está agora a competir. “Acho que esta nova geração está capacitada para assumir essa responsabilidade. E prova disso são os resultados que têm vindo a acontecer.

Paulo Spranger

A experiência acumulada ao longo de uma carreira que o levou a cinco edições dos Jogos Olímpicos — Atenas 2004, Pequim 2008, Londres 2012, Rio 2016 e Tóquio 2020 — é também uma ferramenta que pretende colocar ao serviço dos mais novos. “O ex-atleta Emanuel Silva, um membro da Comissão de Atletas, ou mesmo outros atletas olímpicos já retirados, estão disponíveis para serem mentores, para dar todos os conselhos, para intervirem de uma forma positiva”, garante. A intenção é transmitir não apenas conhecimento técnico, mas aquilo que dificilmente aparece nas estatísticas: “as sensações, as emoções, as dificuldades que tiveram e como as ultrapassaram”.

A mudança de papel não apagou a ligação ao desporto, mas alterou a relação de Emanuel Silva com a canoagem. E, quando questionado sobre se sente saudades das pagaiadas, responde sem hesitações. “Não posso ser cínico nem hipócrita: não tenho saudades”, admite. A explicação está na sensação de ter encerrado a carreira realizado. “Ficam boas recordações, boas memórias. O não ter saudades é porque conquistei quase tudo. Só não fui campeão olímpico, que era aquilo que eu desejava e para que trabalhei.

A medalha que ficou mais perto desse objetivo chegou em Londres 2012, quando conquistou a prata em K2 1000 metros ao lado de Fernando Pimenta. Foi o ponto mais alto de uma carreira olímpica que se prolongou por cinco edições dos Jogos. “Não existe aquela vontade de voltar a remar porque não deixei nada por fazer. Competi feliz, contente, realizei-me enquanto atleta de alto rendimento”, garante. E vai ainda mais longe: “De fundo do coração, não tenho vontade de voltar a pegar numa pagaia e sentar-me num caiaque para remar.” Isso não significa afastamento da modalidade. “Acompanho a modalidade, seja a nível nacional, seja a nível internacional. Sou um amante da modalidade, obviamente”, explica. A presidência da CAO, porém, alargou-lhe o horizonte: “Com a Comissão de Atletas Olímpicos, fiquei mais amante das outras modalidades.”

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