E acabar com os cartões vermelhos e permitir armas em campo, não?

Se no mundo vale tudo, se no principal país hospedeiro vale tudo, se já não se suspendem estados por matar ao desbarato ou ameaçar invadir aliados, por que não deixam os moços andar à pancada entre as quatro linhas?
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Nada demonstra tão cabalmente a anomia coletiva contemporânea e a reverência medrosa que a maior parte do mundo sente pelos Estados Unidos e Donald Trump que o facto de, após tudo o que o país, dirigido por esta administração, fez e faz — inclusive no que respeita à própria competição que se comprometeu a acolher, como quando recusa permitir à equipa do Irão que se baseie em território norte-americano, recambiando-a para o México —, não ter havido uma única seleção a retirar-se do Mundial de futebol que se inicia a 11 de junho. 

Pelo contrário, até: nunca houve tantas equipas em jogo, já que a Federação Internacional de Futebol (FIFA) decidiu que as selecionadas passavam a ser 48, mais 16 que as 32 que competiram de 1998 a 2022. Tinha de ser “o maior Mundial de sempre, como ninguém nunca tinha visto”, certo?  

Aliás, mesmo se até o anterior (e tão pouco recomendável como o atual) presidente da Federação Internacional de Futebol (FIFA), Joseph Blatter, subscreveu publicamente, a 26 de janeiro, a ideia de um boicote, nunca chegou a ocorrer um verdadeiro movimento internacional “de bases” nesse sentido.

Dá dó ver, atendendo àquilo que são as audiências de um mundial de futebol (175 milhões terá sido a média de espectadores globais dos jogos no Qatar), o número de pessoas que aderiram a manifestos a apelar a esse boicote. Talvez os Países Baixos, com uma petição de mais de 170 mil assinaturas entregue em março no parlamento nacional, tenham alcançado a adesão mais significativa. Já em Portugal, uma iniciativa no mesmo sentido, lançada a 29 de janeiro, granjeou o avassalador recorde de 18 assinaturas. Fado, Futebol e Fátima: nunca falha.

E se chegou a haver (pelo menos foi assim noticiado) responsáveis desportivos europeus a debater o assunto, alguns inclusive a assumir que se deveria “considerar seriamente a possibilidade de uma retirada em massa do campeonato” — caso do vice-presidente da Federação Alemã de Futebol, Oke Gottlich, argumentando que os boicotes aos Jogos Olímpicos na década de oitenta (quando os EUA apelaram à não comparência nos Jogos de 1980 em Moscovo devido à invasão do Afeganistão pela URSS, e a URSS e estados satélites faltaram, em resposta, aos Jogos de 1984 em Los Angeles) tiveram como justificação uma ameaça potencial menos grave que a representada pelas posições de Trump — a coisa ficou em morníssimas e pútridas águas de um peixe qualquer. 

Gottlich, cujo apelido significa “divino” em alemão, bem pôde insurgir-se contra a inexistência de “tabus e limites”: “Como organizações e como sociedade, esquecemo-nos de como estabelecer tabus e limites e como definir valores. Os tabus são uma parte essencial da nossa postura. Um tabu é quebrado quando alguém ameaça? Um tabu é quebrado quando alguém ataca? Quando pessoas morrem?”

Perguntou ainda: “Agora somos completamente apolíticos?”

De facto, a ideia de que uma coisa é futebol, ou desporto em geral, e outra é política — tão na moda agora este tipo de conversa — não tem, evidentemente, ponta por onde se lhe pegue. Basta notar que a Rússia está impedida de participar no Mundial desde 2022, devido à segunda invasão da Ucrânia (na primeira, em 2014, tiveram direito a borla). Ou, noutra perspectiva, que há seleções apuradas para a competição que não poderão ter nos estádios cidadãos dos seus países a apoiá-las, por estes estarem, por motivos diversos (parte dos quais somente racistas; no caso do Irão, porque os EUA resolveram entrar em guerra com o país), na lista negra das autoridades norte-americanas. 

Claro que devemos lembrar que Trump se surpreendeu quando soube que a Rússia não podia participar — achou uma estupidez, claro, qual é o mal de Putin estar vai para cinco anos a massacrar ucranianos porque quer reaver aquilo que considera ser parte da Rússia, legítima possessão do seu império? — e que o atual presidente da FIFA, Gianni Infantino (cujo apelido em italiano significa “criança pequena”), o mesmo que inventou um prémio da paz para consolar o presidente norte-americano por não ter sido galardoado com o Nobel, fez coro.  

“Temos de reintegrar a Rússia definitivamente, porque este banimento não serviu para nada. Só criou mais frustração e ódio”, disse Infantino em fevereiro à Sky News.

De facto é uma injustiça. Se Israel pode invadir países, se pode bombardear incansavelmente civis, se pode ter ministros a cantar loas à morte e ao extermínio, se pode dar carta branca aos seus soldados e cidadãos para perseguir, torturar e matar palestinianos em Gaza e na Cisjordânia, sem que se discuta a suspensão das seleções desportivas israelitas; se o presidente dos EUA pode ameaçar anexar o Canadá e invadir a Gronelândia, se pode ordenar o rapto do chefe de Estado venezuelano e gabar-se de ter tomado posse do país e respetivo petróleo, se pode mandar explodir barcos com pessoas lá dentro alegando que são traficantes de droga, se pode ter uma polícia anti-imigração mascarada nas ruas a deter ao desbarato e a matar cidadãos desarmados porque lhe apetece (dirigida por um energúmeno que depois de dispensado participa — oh, surpresa — em conferências de supremacistas brancos) mais um ministro da Guerra que se porta como um psicopata em overdose de testosterona, e mesmo assim manter a organização de um mundial de futebol, por que não há-de a pobre da Rússia poder participar?  

Que estúlticia woke sem sentido, quando pensamos nisso, banir um país de competições desportivas — sobretudo quando servem, como afiança a FIFA, para “unir o mundo” — só porque desrespeita o Direito Internacional, comete crimes de guerra e ainda se gaba disso.  

Por favor: que ideia foi essa de impedir as duas Alemanhas e o Japão de participar no Mundial de 1950, o primeiro pós a Segunda Grande Guerra, com a justificação de terem sido os países agressores? Aliás, por que é que foi cancelada a competição durante a guerra? Podia ter servido para unir os povos, não? Era pô-los a jogar futebol ali nas proximidades de Treblinka e Auschwitz e tudo se havia de compor.

E por que raio ocorreu banir a África do Sul a partir dos anos 1960 até 1992, só porque se tratava de um regime que não permitia equipas "misturadas" e no qual os negros eram menos pessoas que os brancos? Por acaso no Portugal colonial não vigorava uma coisa parecida, em que os “indígenas” estavam legalmente sob tutela, obrigados inclusive a trabalho forçado? Que é que tem?

E a Jugoslávia, havia lá motivo para a suspender em 1992 na decorrência das sanções da ONU? Haveria só de acontecer ali um genocídio, não valia a pena exagerar.

Pelo que sim, não percam tempo, chamem os russos de volta. E podem também acabar com aquelas regras parvas que impõem a expulsão por violência entre as quatro linhas. Não há qualquer razão para que no relvado, como fora, não ganhem os mais brutos.

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