Raça, entrega, corpo e alma são palavras sinónimas à expressão 'Coração no bico da chuteira', tão popularizada no futebol brasileiro, mas distante do que os adeptos identificavam na seleção canarinha nos últimos anos. No entanto, os relatos que chegam de quem acompanha de perto a trajetória do Brasil neste Mundial 2026 - e também o que vemos na mobilização ao redor do país em dias de jogo da seleção e até mesmo em Lisboa, onde milhares de brasileiros reúnem-se a cada passo no torneio - mostram uma simbiose rara de ver entre adeptos e seleção nos tempos recentes. No próximo domingo, 5 de julho, esta mística volta a ser colocada à prova na partida entre Brasil e Noruega, às 21h00, válida pelos oitavos de final do torneio. A seleção comandada por Carlo Ancelotti chega ao confronto confiante depois da suada vitória contra o Japão por 2 - 1, que, embora "no sufoco", trouxe ao torcedor brasileiro mais esperança do que preocupação. Do outro lado, no entanto, estará uma das equipas sensação do campeonato - embora, em questões de encaixe de jogo, seja possível que a Costa do Marfim representasse até mais dificuldades ao estilo brasileiro.A seleção marfinense, dona de uma equipa mais técnica do que a norueguesa, teve inúmeras oportunidades para bater os nórdicos, mas esbarrou na falta de assertividade na hora de definir as finalizações - algo que já tinha acontecido na derrota contra a Alemanha pelo mesmo placar na fase de grupos (2 - 1). A equipa de Ståle Solbakken, que conta com uma das maiores gerações de sua história, tem armas perigosíssimas do meio-campo para frente - já lá chegamos -, mas também sofre do ponto de vista defensivo, com atletas de boa estatura, porém lentos e que tiveram dificuldades em conter os avanços dos extremos marfinenses e cruzamentos por baixo.A chamada "segunda bola", termo conhecido no futebol para caracterizar aquele momento em que a redonda encontra-se no ar depois de um ressalto, também foi, em sua maioria, dominada pelos africanos na partida dos 16 avos de final. Mais uma vez, faltou acertar o passe final ou arriscar finalizações para marcar mais vezes frente aos Vikings.Explorar os flancosA arma do Brasil, portanto, passará muito por aproveitar os lados do campo, especialmente o esquerdo, com Vini Jr., um dos craques do torneio até aqui - e que por um triz não fez um dos golos mais bonitos da história dos Mundiais na partida frente ao Japão (2 - 1) - e as subidas de Douglas Santos. Do lado direito, a aposta será Rayan, que deu outro tom ao ataque brasileiro desde que se tornou titular de Carlo Ancelotti, sendo um perigo na construção de jogadas e nas roubadas de bola no último terço. Inclusive, foi assim que surgiu o golo da vitória frente aos nipónicos.Já no meio-campo e na tal batalha pela "segunda bola" estão algumas das principais dúvidas do Brasil. Lucas Paquetá, que havia se tornado peça importante da seleção, saiu lesionado no intervalo do jogo contra o Japão e está praticamente fora do Mundial. Já Casemiro, que também sentiu dores e foi substituído na fase anterior, deve voltar a tempo da próxima partida - caso não esteja, Fabinho é o substituto natural. Para a vaga de Paquetá, por outro lado, a alteração é mais complexa.Na partida contra o Japão, por urgência de resultado, Endrick foi o escolhido para substituir o médio do Flamengo, com Matheus Cunha a recuar alguns metros para a posição de "10". Posteriormente, Gabriel Martinelli, extremo por natureza, foi utilizado por ali no lugar de Cunha e foi dos pés do jogador do Arsenal que saiu o golo da vitória já nos descontos. Frente à Noruega, que tem um meio-campo capaz de percorrer muitos metros no relvado - formado por Berge, Berg e Odegaard -, a aposta pode passar por povoar mais o setor.Neste cenário, Danilo Santos, do Botafogo, e Ederson Santos, da Atalanta, são os nomes mais prováveis. Neymar, que há alguns anos atua como médio criativo mas ainda está longe das melhores condições, não parece nutrir a confiança de Ancelotti para atuar numa partida de tamanha competitividade. Até agora, o camisola 10 do Brasil só teve minutos no final de uma partida já definida contra a Escócia (3 - 0), no último jogo da fase de grupos.Por fim, é impossível falar da Noruega sem falar de sua principal estrela. Com cinco golos em três partidas neste seu primeiro Mundial, Erling Braut Haaland é um dos grandes nomes do torneio e um dos avançados mais perigosos do mundo no momento. O Brasil já sabe que todo o cuidado será pouco para conter o artilheiro, que alia uma rara combinação de altura (1,95 m), velocidade, técnica e faro de golo.Após sucumbir para outras duas gerações de seleções que nunca foram campeãs do mundo nos últimos Mundiais - a Bélgica de 2018 e a Croácia de 2022 -, a seleção brasileira quer enfim fazer a camisola pesar na fase eliminatória após as recentes quedas frente à seleções menos tradicionais nos últimos torneios. Para tal, é preciso agitar a maré em que navegam estes Vikings noruegueses, que seguem em busca de fazer história e remar até o mais longe possível..Brasil vai da desconfiança ao otimismo, cresce no Mundial e chega à fase a eliminar com o sonho vivo.“Vamos voltar a ser o grande sonho brasileiro”, diz vice-presidente da CBF