Os oitavos de final do Mundial 2026 arrancam este sábado (18h00), 30 de junho, em Houston com um jogo especial para o guarda-redes Yassine Bounou, que vai defender a baliza de Marrocos, mas que bem podia estar do outro lado, a defender as cores do Canadá. É que Bono (diminutivo que adotou na sua carreira) nasceu a 5 de abril de 1991 na cidade canadiana de Toronto, onde o seu pai trabalhava como engenheiro. No entanto, em 1994 teve um convite para trabalhar para o Estado marroquino em Casablanca. O regresso à pátria foi, por isso, o passo seguinte.O pequeno Yassine começou a dar os primeiros pontapés na bola nas ruas de Casablanca, tendo aos oito anos começado a representar o Wydad Athletic Club ( WAC), um dos mais populares clubes do país. Nessa altura dava mais nas vistas por ir para os treinos de táxi, devido ao facto de ser filho de uma família de classe alta, para quem o futebol seria apenas um passatempo, uma vez que pretendiam que o filho se dedicasse aos estudos.A ideia de que o futebol poderia ser o futuro de Yassine Bounou começou a fazer sentido para os pais do guarda-redes quando aos 17 anos esteve na iminência de ser contratado pelos franceses do Nice, algo que não se concretizou devido a problemas burocráticos. Por essa altura começou a treinar com a equipa principal do WAC, pela qual se estreou como titular aos 19 anos num jogo da Liga dos Campeões Africana perante um estádio repleto, com cerca de 70 mil espectadores. Mas apesar da derrota frente ao Esperance de Tunis, Bounou passou a ser o dono da baliza até que em 2012 foi contratado pelo Atlético de Madrid.Foi precisamente nessa altura que o passado lhe bateu à porta. O treinador espanhol Benito Floro era o selecionador do Canadá e sabia que na equipa B dos colchoneros estava a destacar-se um guarda-redes nascido em Toronto. Floro teve várias conversas com Bounou para o convencer a defender a baliza canadiana, mesmo depois de ter feito parte dos convocados de Marrocos nos Jogos Olímpicos de Londres 2012, onde não passou do banco de suplentes.Apesar da insistência, o jovem Yassine acabou por escolher representar o país onde cresceu e de onde são as suas raízes, até porque tinha o grande sonho de jogar os Leões do Atlas. “Já conhecia o Benito Floro e ele convidou-me para representar o Canadá, onde ele era selecionador. Na altura, eu já estava na seleção de Marrocos, mas ainda ainda não tinha feito um jogo oficial. E a verdade é que podia ter decidido pelo Canadá, mas não aconteceu porque cresci em Marrocos e tinha o sonho de jogar por esta seleção”, disse Bounou numa entrevista antes do Mundial 2022.Foi a 4 de setembro de 2016 que o sonho canadiano de Benito Floro terminou, pois nesse dia Bounou estreou-se num jogo oficial por Marrocos, num triunfo por 2-0 diante São Tomé e Príncipe. Por essa altura a vida de emigrante em Espanha era difícil, afinal no Atlético não passou da equipa secundária, pelo meio foi emprestado ao Saragoça, na segunda liga. Em 2016 mudou-se em definitivo para o Girona, onde esteve três épocas antes de se mudar para o Sevilha, onde atingiu o auge.O Mundial 2022, no Qatar, deu-lhe o máximo reconhecimento internacional com exibições extraordinárias e o primeiro duelo com a nação onde nasceu, na 3.ª jornada do grupo F, em Doha, no qual Marrocos sofreu o único golo da competição até às meias-finais, onde acabou por ser derrotado pela França. Esse golo até foi uma infelicidade do defesa marroquino Nayef Aguerd, mas que ainda assim não impediu a seleção africana de vencer por 2-1 e conquistar o primeiro lugar do grupo, enquanto o Canadá abandonava o torneio sem qualquer ponto conquistado.Agora, mais de três anos e meio depois – o Mundial do Qatar foi realizado no inverno – Yassine Bounou tem novo reencontro com as origens, mas por certo bem mais feliz, afinal as duas seleções estão nos oitavos de final, o que para os canadianos é uma estreia. Ainda assim, Bounou alimenta o sonho de melhorar o feito alcançado no Qatar, onde Marrocos conseguiu um inédito quarto lugar.