"Aprender a não fazer nada foi o mais difícil do fim da carreira. Agora já consigo não fazer nada"

Ticha Penicheiro deixou a carreira no basquetebol há cinco anos e agora é agente desportiva.

O trabalho e as rotinas reduziram-se ao mínimo, o que foi o mais difícil do fim da etapa de jogadora. Vive nos Estados Unidos, esteve recentemente quatro dias em Portugal durante uma passagem pela Europa, também para renovar o passaporte. O tempo continua a ser pouco para matar saudades, tão pouco que os pais acompanham-na à entrevista. Encontro marcado onde a atleta passou muitas horas a jogar depois da escola, nas traseiras de sua casa

Praticamente nasceu a jogar basquetebol. Como é que começou?

Comecei a jogar em casa com o meu irmão, na sanefa do cortinado, com uma bola de ténis. Depois tive a sorte de ter o campo de basquetebol ao lado da minha casa e aprendi a jogar na rua. A nível de clubes, o primeiro em que joguei foi o Ginásio Figueirense.

Como é que se chamava esse campo?

Não tinha nome, chamávamos-lhe as traseiras. No Ginásio Figueirense havia equipa de basquetebol feminino, mas elas eram muito mais velhas do que eu, eram cadetes, então joguei com os rapazes, o meu pai era o treinador. Comecei muito nova, com 5 anos, e aos 7 fui jogar com os rapazes.

Está explicado, já vivia esse ambiente.

Sim, o meu pai jogava, o meu irmão jogava, respirava-se basquetebol em casa. Gosto de todos os desportos, coisas que vamos aprendendo, mas praticar um desporto federado e a sério só mesmo o basquetebol.

Contou à sua mãe que vinha da escola, passava pelo campo e ficava a jogar na rua...

Quer dizer, tentava fazer os trabalhos primeiro.

Levou reprimendas?

Sim, bastantes vezes [ri-se]. A minha mãe vinha chamar-me e, às vezes, passava vergonhas porque eu nem sabia que horas eram. Era já de noite, não se via o cesto e eu continuava, era a única rapariga no meio de rapazes. Dizem que quem corre por gosto não cansa, e era ali que eu gostava de estar.

Quando vai estudar para os Estados Unidos escolhe Comunicação e não Desporto. Quis abrir a porta para quando terminasse a carreira de jogadora?

Pensei que, quando me retirasse, poderia seguir a carreira de jornalismo, mas acabei por não o fazer. Agora não faço nem uma coisa nem outra, sou agente desportiva. Mas fui para os EUA e foi o curso que tirei, lá não existem escolas específicas como aqui, por exemplo, para ser treinadora desportiva e acabei por fazer Comunicação Social.

Como é que se vai da Figueira da Foz para a Califórnia, isto há 24 anos?

Sempre quis jogar basquetebol e fui para o país onde este desporto nasceu, onde há os melhores jogadores e os melhores treinadores. Eu e o meu irmão víamos sempre os jogos da NBA aos domingos à tarde, na RTP 2, e sempre quis jogar nos EUA. Na altura, conheci uma americana que jogou em Portugal, na Amadora, tinha eu 16 anos. Depois ela tornou-se treinadora adjunta de uma universidade norte-americana, ainda se lembrava de mim e deu o meu contacto à treinadora principal. Vieram a Portugal e ofereceram-me uma bolsa.

Na Old Dominion University?

Sim, no Norte da Virgínia. A bolsa de estudo era para o básquete mas tinha de ter aproveitamento escolar e boas notas, senão não jogava.

Estava a jogar na União Desportiva de Santarém, onde ganhou tudo o que havia para ganhar em Portugal.

Fui com 18/19 anos. Ainda fiz o primeiro ano da universidade aqui no ISLA [Instituto Superior de Línguas e Administração], deram-me equivalências a algumas disciplinas e consegui transferir alguns créditos para o sistema norte-americano para não perder o ano. E lá fui de armas e bagagens. Deixei tudo para trás, mas fui à conquista do meu sonho.

A forma como o conta até parece fácil.

Não fui a primeira e não serei a última a jogar basquetebol nos EUA. Houve uma portuguesa, a Vera Jardim, que foi a primeira, esteve na Universidade da Geórgia. Agora, não é fácil e naquela altura não havia as facilidades de comunicação que há hoje, mas eu estava determinada, sabia o que queria e tinha o apoio da minha família, sem isso era impossível. Não foi fácil para os meus pais, ver sair uma filha para um país desconhecido, com uma língua desconhecida, uma cultura diferente, com um oceano enorme a separar-nos, e eu era a mais nova. Os meus pais trabalhavam, as viagens eram dispendiosas e só me visitavam uma vez por ano.

Jogou aí quatro anos.

Joguei o período de tempo necessário para tirar o curso.

O suficiente para terem retirado o seu número das camisolas.

É uma maneira de honrar o que conquistei pela universidade e a carreira que aí fiz, já ninguém pode usar o meu número. É uma coisa americana, na Europa não se vê muito.

Tem mais anos de Estados Unidos do que de Portugal e tem dupla nacionalidade. Sente-se mais americana do que portuguesa?

O coração é português, mas os hábitos, as rotinas, o modo de viver é muito mais americano de que português.

E a gastronomia?

Adoro a comida portuguesa, ainda hoje comi sardinhas. Quando venho, tento comer as coisas que não consigo encontrar lá, bacalhau à Brás ou à Gomes de Sá, mas não direi que sou portuguesa na comida, nem americana. Sou mais europeia, a comida que adoro é a italiana, gosto mais de massas e essas coisas.

Em que é que se sente americana?

Os americanos são um bocadinho mais relaxados. Ainda há pouco, quando a minha mãe me chamou para almoçar, respondi: "Vamos almoçar, não vamos apanhar o comboio, se não almoçarmos à 13.00 e almoçarmos à 13.15 não acontece nada. Os americanos são mais relaxados e foi algo que tive de aprender, principalmente quando me retirei. Estava habituada às minhas rotinas, em que tinha várias coisas para fazer ao longo do dia, e uma pessoa quase se sente culpada por não ter de as fazer. Aprender a não fazer nada foi difícil. Agora já consigo não fazer nada.

Alguma vez se arrependeu de ter emigrado?

Não. Havia dias mais difíceis do que os outros, em que me questionava se era mesmo aquilo que queria, as saudades, tudo isso. Mas, ao fim do dia, sabia que tinha de ser assim para chegar onde queria, tirar o curso e voltar como melhor jogadora, melhor pessoa. Quando não corriam tão bem, pensava nos dias em que as coisas corriam melhor.

Está entre as 20 melhores jogadoras de basquetebol nos EUA. Quando recebeu o prémio, no ano passado, disse para as crianças: "Sonhem e sonhem alto." Alguma vez sonhou tão alto?

Era difícil sonhar com uma coisa que não existia, nessa altura não existia a liga norte-americana feminina de basquetebol. O meu objetivo era acabar o curso, crescer como jogadora e como mulher e voltar para a Europa. Em 1997, estava ainda na universidade, apareceu a WNBA [Women"s National Basketball Association] e claro que pensei que talvez pudesse jogar na liga, mas nunca que ia ser uma das melhores.

Como é que se chega ao topo?

Muito trabalho, muito esforço, muita dedicação. E, claro, num desporto coletivo há sempre que elogiar as colegas de equipa e os treinadores com quem trabalhei.

Muitas horas de estudo e de prática?

Na universidade, somos estudantes e somos jogadores. Quando se é profissional, o dia começa às nove da manhã e acaba às quatro da tarde, treino de ginásio, tratamentos, sei lá, o dia parece que não acaba. Há dias em que há treino de manhã e jogo à tarde, fazem-se muitos sacrifícios para se conseguir chegar onde chegamos.

Do que é que teve de prescindir?

É difícil dizer. Para uma pessoa ser a melhor, ou ser uma das melhores naquilo que faz, seja o que for, tem de haver muita dedicação e estar focada, muitas coisas ficam para trás. Mas se eu tivesse uma máquina do tempo para andar para trás, não haveria muita coisa que mudasse, faria exatamente o mesmo. Arrependimentos não tenho nenhuns.

Há camaradagem num meio assim tão competitivo?

Há muita camaradagem, mas quando é para competir nos treinos é para competir, quando é para competir nos jogos é para competir contra as adversárias.

Do que é que tinha mais medo que lhe acontecesse, uma lesão?

As lesões fazem parte do ofício, tive alguma sorte. Tive algumas lesões e fui operada várias vezes, mas nada que me deixasse fora do campo durante muitos meses. As lesões eram de facto do que tinha mais medo, mas também da competição, das saudades, de estar longe da Figueira, da família, dos amigos. Senti falta dessas coisas todas.

Até porque não havia tempo para férias, para matar essas saudades, jogava durante todo o ano.

Jogava durante o verão no WNBA e no inverno na Europa.

Porquê?

Para ganhar dinheiro. Eu sabia que não era um trabalho para a vida toda, o que também depende de como nos cuidamos, da sorte que temos com lesões. Mas chega-se aos 35/36 anos e acaba. Temos de tirar o melhor proveito enquanto jogamos, e eu fiz o melhor que pude. Emocionalmente e fisicamente é desgastante jogar o ano inteiro. Tinha uma semana livre no Natal, uma semana em maio ou em setembro, com viagens pelo meio, jogava na Califórnia e tinha a família em Portugal

E com mais de um jogo por semana.

Sim, três a quatro jogos por semana, com muitas viagens. É bastante desgastante e não é fácil, mas os frutos que se colhem são gratificantes.

Também ganhou várias competições.

Sim, mas não me pergunte quantos títulos ganhei porque sinceramente não sei. Foram muitos campeonatos por toda a Europa, Polónia, França, Itália, Letónia, Rússia. O meu pai é capaz de saber, eu não sei.

Haverá alguns de que se lembra.

Sim, o campeonato da WBNA, pelo Sacramento, e o campeonato Europeu que ganhei pelo Spartak de Moscovo. Fomos campeões da Europa e dos Estados Unidos, que é a liga mais competitiva do mundo. Quando os rapazes ganham na NBA dizem que são campeões do mundo. Esses dois títulos, definitivamente, são para recordar.

Também recebeu um anel.

Sim, mais uma coisa muito americana; quando as equipas ganham um título criam um anel para oferecer às jogadoras na época seguinte.

Falta ter o nome no corredor da fama do basquetebol.

Pode-se entrar após cinco anos de se ter retirado, mas é uma coisa que não depende de mim. O que fiz para ajudar o basquetebol e ser a melhor jogadora está feito, agora quem vota e como vota, se entro não entro, não depende de mim. Se entrar, espetacular, se não entrar não se passa nada.

Sente que o merece?

Sim, na WNBA fui uma das pioneiras e tive uma carreira espetacular, mas há muita gente que também o merece. Nunca fui jogadora olímpica, nunca joguei em campeonatos europeus a representar a seleção de Portugal, não sei, depende dos critérios que consideram importantes.

Jogou na Old Dominion, Sacramento Monarchs, Los Angeles e terminou a carreira no Chicago Sky. Qual foi a equipa que mais a marcou?

Sacramento, sem dúvida. Saí porque a equipa acabou, os donos estavam com problemas financeiros, não sei. Acabou de um momento para o outro, foi um choque, tive de procurar outra solução. Fiz dois anos em Los Angeles e o meu último ano foi no Chicago.

Fizeram-lhe uma grande festa de despedida. O que é que se sente num momento desses?

Sente-se um bocadinho de tudo. Alegria, porque o Chicago foi onde passei menos tempo da minha carreira e eles quiseram honrar-me e mandar-me para a reforma da melhor maneira. Fizeram uma festa bonita, com vídeos, muita gente. Também há emoções negativas, tristes, porque chega ao fim um capítulo que começou quando eu tinha 5/6 anos. Sabia que a partir daquele dia não ia jogar mais, treinar mais, ser competitiva como me habituei a ser. Mas estava consciente da decisão que tomara, estava em paz e com serenidade. Saí na altura certa.

Mantém os recordes de assistência a pontos e roubos de bola num jogo?

Sim, em roubos de bola no mesmo jogo sou a primeira, e no total estou em segundo lugar.

Quais eram os seus trunfos?

Paixão, dedicação e divertir-me enquanto jogava. Tinha boas condições físicas e jogava com rapidez .

Onde foi buscar esses 1,82 m de altura?

O meu pai é alto, a minha mãe é acima da média, o meu irmão tem dois metros.

Leia a segunda parte da entrevista:

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