Yuval Noah Harari aprova versão censurada de "21 Lições para o Século XXI" na Rússia

Autor admite que autorizou alterações na obra para que as autoridades russas não impedissem a sua publicação.

Yuval Noah Harari, cientista israelita, autor de Sapiens e Homo Deus, admite aceitar uma versão censurada do seu livro 21 Lições para o Século XXI na Rússia. Segundo o The Guardian, o historiador autorizou a substituição de críticas a Vladimir Putin por outras feitas a Donald Trump, na edição russa do seu bestseller, alegando que as autoridades russas não lhe permitiam publicar o texto original naquele país.

Na semana passada, a Newsweek revelou que a tradução russa enfraqueceu as críticas do autor sobre a invasão e anexação russa da Crimeia em 2014. Na versão em inglês, diz o Guardian, Yuval diz que vivemos uma nova e assustadora era da 'pós-verdade', dando como exemplo a anexação da península.

"O governo russo e o presidente Putin pessoalmente negaram várias vezes que eram tropas russas e descreveram-nas como "unidades de autodefesa" espontâneas que adquiriram um uniforme semelhante ao russo em lojas locais", lê-se na versão original. "Quando fizeram declarações tão ridículas, Putin e seus associados sabiam perfeitamente que estavam a mentir, escreveu".

Contudo, na edição russa, o nome usado para falar sobre a 'pós-verdade' é o de Donald Trump. "De acordo com estimativas do jornal Washington Post, o presidente Trump fez mais de 6000 declarações públicas falsas depois de tomar posse", lê-se na edição russa.

Ao The Guardian, o autor disse que aprovou revisões de todos os livros que escreveu "para alcançar públicos diversos em todo o mundo".

"Se pudesse reescreveria os livros para cada país, mas obviamente não posso", afirmou, destacando que, ao longo dos anos, tem autorizado alterações de todos os seus livros. Adaptações, explicou, que têm em conta questões culturais, religiosas e políticas. No entanto, frisou, existe a preocupação de não alterar as ideias.

Segundo Yuval Noah Harari, o autor foi avisado que, na Rússia, a censura na permitiria a publicação das críticas à invasão da Ucrânia. Por isso, assume, enfrentou "um dilema": "Devo substituir esses poucos exemplos e publicar o livro na Rússia - ou não devo mudar nada e publicar nada?"

Como queria que o livro chegasse à Rússia, o cientista admite que aceitou publicar a obra sem a palavra "invasão". "Eu não apoio a censura russa - tenho de lidar com isso", disse ao jornal britânico.

Embora tenha autorizado algumas alterações, Noah Harari admitiu que soube posteriormente de outras mudanças não autorizadas. "Disseram-me que, quando falo da conquista russa da Crimeia, a 'conquista' foi alterada para 'reanexação', e que quando falo do meu marido foi alterado para 'parceiro'", contou. Se isso for verdade, sublinhou, opõe-se às alterações e fará o melhor para as corrigir.

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