Vida selvagem no grande ecrã

Coprodução espanhola e portuguesa, de cariz televisivo, Montado, O Bosque do Lince Ibérico é um olhar documental sobre a paisagem e biodiversidade de um tesouro natural ameaçado pelas alterações climáticas.

A estreia nos cinemas de um documentário claramente feito para ser visto na sala de estar causa alguma estranheza. Mas talvez se justifique por isto: Montado, O Bosque do Lince Ibérico vem na sequência da candidatura do montado a património da humanidade da UNESCO e é "o documentário com maior orçamento até à data em Portugal, tendo contado com cerca de 4 milhões de euros para a sua realização", lê-se no comunicado da distribuidora do filme. De facto, estamos perante um objeto televisivo imaculado, com toda a linguagem de um produto National Geographic, repleto de imagens da vida selvagem em câmara lenta, vistas aéreas, música mais ou menos intrusiva e narração voz-off (pela atriz Joana Seixas), por vezes a roçar o anúncio publicitário... Acontece que esta coprodução espanhola e portuguesa (Ukbar Filmes) não se inibe de exibir, no próprio texto, o seu caráter de sensibilização, tornando-se ainda mais deslocada enquanto formato cinematográfico.

O montado surge aqui, pela lente do naturalista e realizador espanhol Joaquín Gutiérrez Acha, como um lugar idílico moldado pelo ciclo da Natureza. Dos mamíferos às aves, dos insetos aos répteis, das flores às árvores, a fauna e a flora deste bosque ancestral da Península Ibérica são mostradas em detalhe no seu processo de sobrevivência. Com o devido destaque para o lince ibérico do título, uma espécie que esteve à beira da extinção.

Como qualquer episódio profissional ao estilo BBC Vida Selvagem, aprende-se muita coisa com um documentário que explora a fascinante luta "secreta" que define a conservação da biodiversidade - há um momento de ação particularmente impressionante, com um grupo de abutres a impedir uma raposa de ficar com o seu alimento (o cadáver de uma ovelha) -, e o modo como a intervenção humana, no aproveitamento dos recursos, se harmoniza com essa experiência selvagem. A beleza violenta mas encantadora de tudo isto é o que valida o interesse da narrativa visual do filme.

A propósito de Montado, O Bosque do Lince Ibérico, recordamos A Grande Aventura (1953), obra-prima do sueco Arne Sucksdorff (1917-2001), por acaso disponível na Netflix. Um pouco à semelhança do documentário que nos ocupa, trata-se da história de um ano numa floresta nórdica, na fronteira com o humano, cuja passagem das estações desenha o semblante da biodiversidade. Sucksdorff observa a Natureza com a mesma atitude documental, mas não deixa de encaixar nela um pequeno motivo dramático à volta de dois miúdos e uma lontra - aqui a ficção só reforça a vida das imagens documentais e, por isso, o espetador regista sobretudo a aventura do mundo natural. O filme de Joaquín Gutiérrez Acha não tem esse desejo de enveredar pela componente dramática; limita-se a juntar pontos de intriga (predador/presa) de um quadro maior, que serve o objetivo claro de dar a conhecer a dinâmica selvagem do montado.

Tendo participação da RTP, é provável que Montado, O Bosque do Lince Ibérico acabe por chegar ao tipo de ecrã que é mais justo para a sua proposta. Aí, fará todo o sentido - e merece ser visto.

dnot@dn.pt

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