Joana Vasconcelos mergulhou no acervo de Valentino e pôs as suas peças dialogar com os vestidos do estilista.
Joana Vasconcelos mergulhou no acervo de Valentino e pôs as suas peças dialogar com os vestidos do estilista.Foto: Paulo Spranger

Vestidos de Valentino e esculturas de Joana Vasconcelos: um diálogo entre criadores no MAAT

'Venus - Valentino Garavani pelo olhar de Joana Vasconcelos' abre hoje, 2 de outubro, no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia. Concebida para a Fundação Valentino Garavani e Giancarlo Giammetti, integra a programação que assinala o 10.º aniversário do MAAT. Foi inaugurada em Roma em janeiro deste ano, um dia antes do estilista morrer.
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A moda chegou aos museus e a exposição Venus - Valentino Garavani pelo olhar de Joana Vasconcelos no MAAT Gallery é mais um capítulo dessa tendência. A artista portuguesa põe em diálogo uma seleção das suas obras com cerca de 50 criações de alta-costura e prêt-à-porter de Valentino, selecionadas por ela do acervo do criador de moda italiano que morreu em janeiro deste ano.

“Selecionei um conjunto de vestidos que não são os vestidos clichés de que estamos habituados a pensar - o vermelho de Valentino. Quando me apercebi da diversidade e da qualidade dos vestidos do Valentino, resolvi pegar em peças completamente diferentes e, a partir delas, criar esta Valquíria, por exemplo”, explicou ontem Joana Vasconcelos na visita antecipada à exposição que abre hoje ao público.

Foto: Paulo Spranger

A obra Valkyrie Venus (2025), no início do percurso expositivo (nas Galerias 1 e 2), no “salão de baile”, como diz Joana Vasconcelos, ‘fala’ com os vestidos de Valentino de variadas formas. “Às vezes é inspiração, às vezes é repetir a técnica, é consoante os casos”, diz a artista. Há um vestido de noiva cinzento da coleção de alta costura primavera-verão de 1995 - que foi usado por Claudia Schiffer, super modelo da altura - em que ela repete em croché a técnica usada no modelo. “Aqui foi uma adaptação daquilo que ele fez, reinterpretada de outra maneira”, sublinha.

Joana Vasconcelos explica que cada vestido tem uma história, mas para fazer a Valquíria Vénus não foi por aí. “Eu não trabalhei tanto a história da moda, mas os aspetos escultóricos dos vestidos. Não fui pelas coleções nem pela notoriedade dos vestidos, mas sim por aquilo que eles me poderiam trazer para fazer esta peça de grande escala”. A Valquíria Vénus tem vários segmentos e cada um deles dialoga com um modelo. Houve casos em que a técnica de costura foi replicada na escultura. Para isso, revelou a artista, contou com o apoio da costureira-chefe do ateliê de Valentino.

Esta é uma oportunidade para ver criações raramente vistas de Valentino, peças que Joana Vasconcelos escolheu livremente do acervo do estilista. “Temos um vermelho Valentino, tem que ser, mas fui procurar outras dimensões da sua obra, também para mostrar a versatilidade, a diversidade, a criatividade, a genialidade do Valentino”.

Vestido de Valentino junto do' Coração Independente Vermelho #3' (2008).
Vestido de Valentino junto do' Coração Independente Vermelho #3' (2008).Foto: Paulo Spranger

Há vestidos que perderam a cor original ficando mais esbatidas pelo tempo, e como Joana Vasconcelos selecionou os modelos por fotografia, na Valquíria as cores surgem como eram originalmente. Isso aconteceu com o primeiro vestido escolhido pela artista, de 1992, com saia em tule e padrão abstrato. “Ele desbotou, é uma obra extraordinária mas que já tem uns anos".

“Foi ao olhar para estes vestidos e estudá-los, que me apercebi da complexidade e da dificuldade destes vestidos. Com a diferença que a área trabalhada é muito pequena, e a minha é muito grande”, sublinha.

Joana Vasconcelos revela que Valentino visitou o seu ateliê em Lisboa antes da pandemia. “E disse que eu estava organizada como ele, que eu era um ateliê de alta costura, coisa que eu nunca tinha pensado. Porque venho do mundo das artes e não da mundo da moda." Os estilistas trabalham o corpo e os artistas trabalham o espaço, diz a artista, para quem há uma grande diferença entre a moda e a arte: os artistas não têm programa.  

Joana Vasconcelos fez mais duas peças para esta exposição concebida originalmente para a Fundação Valentino Garavani e Giancarlo Giammetti, e que foi apresentada pela primeira vez no espaço cultural da Fundação em Roma (PM23) entre janeiro e julho deste ano. A exposição foi adaptada para o espaço do MAAT, que é maior, alargando-se. A Valquíria Vénus cresceu e exibem-se mais vestidos do estilista.

Joana Vasconcelos junto da obra 'Sacro Cuore' (2025).
Joana Vasconcelos junto da obra 'Sacro Cuore' (2025). Foto: Paulo Spranger

Venus (2025) e Sacro Cuore (2025) são as outras duas obras da artista feitas para esta mostra e encerram a exposição. Pelo meio é possível ver peças emblemáticas da artista, sempre em diálogo com os vestidos de Valentino, como Flores do Meu Desejo (1996-2010), a obra mais antiga, ou Strangers in the Night (2000), ambas pertencentes à coleção da Fundação EDP.

As peças distribuem-se por várias salas e, numa delas, surge então um vestido vermelho, a imagem de marca de Valentino, da coleção outono/inverno de 1992/93 de alta-costura, também ele apresentado em desfile por Claudia Schiffer. Faz companhia ao Coração Independente Vermelho #3 (2008), o icónico coração de Viana da artista feito com talheres de plástico, neste caso vermelhos.

Noutra sala mostra-se Marilyn (2011), dois sapatos de salto alto feitos com panelas de aço inoxidável, em diálogo com três vestidos do estilista italiano em tom prateado, cores não muito habituais em Valentino, sublinha Joana Vasconcelos.

'Marilyn' (2011), dois sapatos de salto alto feitos com panelas de aço inoxidável.
'Marilyn' (2011), dois sapatos de salto alto feitos com panelas de aço inoxidável.Foto: Paulo Spranger

Exposto está também Jardim do Éden (2007-2026), o labirinto com flores de plástico que aqui convivem com vários vestidos em preto brilhante do criador italiano.

Num contraste entre o luxo e o doméstico, exibem-se três peças da série A Todo o Vapor (2012, 2013, 2014), esculturas feitas com ferros de engomar que parecem flores de lótus e que deitam vapor. Coabitam com vestidos que não podem ser engomados.

Diz Joana Vasconcelos que nesta exposição estão as suas peças "M", ou seja, de tamanho médio. Daí que não se veja a peça A Noiva, apesar de ser comum os desfiles de moda terminarem com esse vestido. "A Noiva é a minha pièce de résistance, mas tem sete metros de altura, é muito grande. E aqui vocês estão a ver aquilo que eu chamo o meu corpo médio de trabalho. Porque eu tenho peças pequenas, que raramente mostro, tenho peças médias, que são estas, e depois tenho as monumentais. É uma outra escala que aqui não aguentava." Essas são as peças "L" e "XL", diz com humor.

'A Todo o Vapor' (2012, 2013, 2014), esculturas feitas com ferros de engomar.
'A Todo o Vapor' (2012, 2013, 2014), esculturas feitas com ferros de engomar.Foto: Paulo Spranger

Ao longo do percurso de Venus - Valentino Garavani pelo olhar de Joana Vasconcelos a artista procurou recriar o ambiente dos salões de baile. "Há toda uma tradição que eu tentei recriar aqui em contraste com a minha obra. Porque a minha obra é muito do presente, é muito do quotidiano pobre. Não é do quotidiano do luxo. Tentei criar um paralelismo entre as dimensões do quotidiano banal, a que não prestamos atenção nenhuma, e o palácio e os vestidos de gala, uma outra dimensão que está a desaparecer. Com o fim dessas tradições também acabam por desaparecer os criadores que faziam esses vestidos", considera a artista, para quem Valentino foi "o ultimo dos grandes criadores".

O que mais aprecia no trabalho de Valentino, diz Joana Vasconcelos, "é a minúcia, o lado do craft, da perfeição, e a magia que é possível fazer com o vestido, a transformação. As mulheres que usam Valentino sentem-se transformadas em deusas. E é essa transformação que me parece a parte mais importante, é aquela de que eu gosto mais. E ele fazia isso através da moda e eu espero fazer isso através das exposições. As pessoas quando veem uma exposição pensam no mundo de outra maneira. Há essa descontextualização do quotidiano para uma dimensão mais mágica, mais bela".

Valentino acompanhou a organização desta exposição inaugurada em Roma no dia 18 de janeiro de 2026. “Ele estava muito doente, estava fraco fisicamente, mas com a cabeça boa. Foi vendo tudo e dizendo que estava tudo ótimo”, diz Joana Vasconcelos. O estilista italiano viria a morrer no dia seguinte.

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