São mais de 120 espetáculos previstos para o período compreendido entre setembro deste ano e junho do próximo. É assim que a Gulbenkian Música celebra a paz e outros sentimentos, pela primeira vez com a assinatura do seu recém empossado diretor, Fredrik Andersson, que traz a sensibilidade como músico – trombonista casado com uma pianista, admite – e a visão de um programador de espetáculos que vinca a importância das mulheres, da música portuguesa, dos cânones da música do período romântico, em especial na Alemanha, do período barroco e da música de matriz tradicional. Numa conversa na fundação homónima deste ciclo, Fredrik Andersson citou Duke Ellington: “Há apenas dois tipos de músicas: música boa e música má.”Logo no dia 5 de setembro, no arranque desta temporada, a variedade prometida por Fredrik Andersson – um sueco nascido em 1968, em Hässleholm, que foi diretor, por exemplo, de programas da Royal Stockholm Philharmonic Orchestra e da Konserthuset de Estocolmo – revela-se com um concerto eclético, de entrada livre, oferecido pelo Coro e Orquestra Gulbenkian dirigidos pela maestra Alena Hron. Começa com a Cuban Overture, de George Gershwin, passa pela obra Le Villi: Prelúdio e “Evviva!”, de Giacomo Puccini, implica uma abordagem à La Traviata: “Noi siamo zingarelle… Di Madride noi siam mattadori”, de Giuseppe Verdi, e termina com a Carmen: “Les voici! Voici la quadrille”, de Georges Bizet. Pelo meio há outras incursões, como Carl Maria von Weber, Manuel de Falla ou Antonín Dvorák e a compositora do final do século XIX Augusta Holmès.Numa passagem rápida pelo programa, é possível encontrar neste ciclo pelo menos 20 compositoras, como Betsy Jolas, Rebecca Clarke, Andreia Pinto Correia ou Gabriela Ortiz. Questionado sobre esta tomada de posição, Fredrik Andersson pede para “contar um segredo” e revela que começou a dar destaque a compositoras em ciclos congéneres há dez anos na Suécia. “Para mim, é só natural”, admite, vincando a variedade do programa, que também pretende mostrar ao público que “há muito mais do que Brahms e Beethoven”.“São fantásticos, compositores incomparáveis, sem dúvidas sobre isso, mas existem outros nomes e há compositoras no mundo que durante séculos não foram tocadas porque eram mulheres”, desabafa, enquanto afirma sem hesitação que “20 compositoras no programa não é muito”, para além de ser “um pequeno passo para uma mudança em todos os nossos pensamentos”.Fredrik Andersson traz também mulheres intérpretes, como acontece com o duo coreano composto por Ha Suyean e Hwang Hyeyoung, duas músicas que encontraram formas contemporâneas de abordar a linguagem dos instrumentos gayageum e geomungo. De acordo com a sinopse divulgada pela Gulbenkian, as duas jovens reclamam “a tradição como matéria viva e renovável, através de uma música tão audaz quanto bela, tão encantadora quanto desafiante”.A programação da Gulbenkian Música vai incluir, no ciclo Músicas do Mundo, o espetáculo Rovira 100: A Celebration of the Unknown, que trará o tango – entre Eduardo Rovira, Astor Piazzolla, Omar Luppi, Alberto Caracciolo, Juan Carlos Cobián e Omar Valente – ao Grande Auditório, interpretado por Sonico, considerado um dos dez mais importantes grupos de tango contemporâneo pela Rolling Stone.Com um diálogo entre a música portuguesa e uma reinterpretação da tradição, esta programação integra os Danças Ocultas, de Águeda, que recorrem desde 1989 a quatro concertinas para orbitarem o universo da música de câmara, com composições originais, e o chamado nuevo tango.Para além de garantir a direção da Orquestra Gulbenkian a Hannu Lintu – que terá o contrato assegurado até 2030 – em cerca de 20 concertos, este ciclo contará com a batuta de Lorenzo Viotti, Paweł Kapuła, Luca Guglielmi ou Joshua Weilerstein, aos quais se juntam as maestras Agata Zajac, Charlotte Corderoy, Corinna Niemeyer, Izabelė Jankauskaitė, Joana Carneiro, ou Tabita Berglund, entre outras.De forma inesperada, a programação da Gulbenkian vai incluir ainda um momento especial de Natal, no dia 21 de dezembro, a cargo da pianista Alexandra Dariescu e da bailarina Désirée Ballantyne, que trazem uma interpretação de Tchaikovsky intitulada The Nutcracker and I, um “exuberante” – promete a Gulbenkian – espetáculo de animação digital.Sobre a atualidade, Fredrik Andersson, evitando “ser político”, diz que não faz “um programa para uma temporada para comentar” os “tempos turbulentos”, porém, adianta, “algumas peças refletem isso”, enquanto deixa uma palavra severa para os “homens que procuram o poder em todo o mundo e que tentam destruir a beleza da humanidade”..Inês Thomas Almeida: “Há música muito boa que não está a ser tocada por preconceito ou desconhecimento”.Jordi Savall: “Fazer música é uma mensagem de solidariedade, de igualdade”