Wuxi: o som do erhuWuxi é conhecida como a “terra natal do erhu”, um dos instrumentos mais emblemáticos da música chinesa. Entre as dez grandes peças clássicas do erhu, oito terão sido criadas nesta cidade. Em outubro de 2025, Wuxi foi distinguida pela UNESCO como “Cidade Criativa da Música”, reconhecimento intimamente ligado a este instrumento de duas cordas.O erhu pode ser visto como um equivalente chinês do violino. Apesar da sua estrutura simples, com apenas duas cordas, possui uma expressividade extraordinária: o seu timbre, próximo da voz humana, é particularmente apto a transmitir melancolia profunda e intensidade emocional.Uma das suas obras mais célebres é Erquan Yingyue (A Lua Refletida nas Águas de Duas Nascentes), composta por Abing (Hua Yanjun, 1893-1950), músico cego de Wuxi cuja vida foi marcada por dificuldades e que ganhou a vida, durante os seus últimos anos, tocando nas ruas.Esta composição soa como um desabafo perante o destino: a melodia oscila entre a melancolia, a resistência e a delicadeza, como a voz de um ancião que, após uma vida de sofrimento, relata na escuridão as suas desventuras sem jamais se resignar. Por entre os momentos de dor, surgem ocasionalmente passagens de suave serenidade, como se o compositor evocasse a pureza simbólica da lua e da água para expressar um profundo anseio por luz e esperança.Esta densidade emocional faz lembrar o fado, visto que ambos são marcados por uma sensibilidade melancólica ligada ao destino e por uma saudade intensa, verdadeiras expressões musicais da “fatalidade do coração”.Yangzhou: a arte do guqinNa China Antiga, as quatro artes - qin (um instrumento de cordas), qi (um jogo de estratégia), shu (a caligrafia chinesa) e hua (a pintura chinesa) - eram consideradas pilares da formação dos letrados. Qin refere-se especificamente ao guqin, um instrumento de sete cordas com mais de três mil anos de história que se distingue pela sua sonoridade serena e introspetiva, valorizando a espontaneidade e uma postura aberta mais do que virtuosismo técnico. Yangzhou é o berço da escola Guangling, uma das mais importantes tradições do instrumento, cujo estilo combina a força do norte com a delicadeza do sul da China.Ainda hoje, a cidade preserva a tradição artesanal de produção do guqin, mantendo-se como um dos principais centros desta herança cultural. Em 2003, a arte do guqin foi inscrita pela UNESCO na Lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade.Uma das peças mais célebres do repertório do guqin é Gaoshan Liushui (Montanhas Altas e Águas em Movimento), associada a uma história de amizade amplamente conhecida. Conta-se que o músico Boya tocava à beira de um rio quando Zhong Ziqi, ao ouvi-lo, exclamou: “Magnífico! Consigo ver montanhas imponentes!” Quando a melodia evocou as águas em movimento, comentou: “Extraordinário! Parece-me ouvir o ímpeto de um grande rio!”Boya, profundamente emocionado, percebeu ter encontrado alguém capaz de compreender verdadeiramente a sua música. Tornaram-se então zhiyin (literalmente “alguém que conhece ou percebe o som”), e prometeram reencontrar-se. No entanto, no ano seguinte, Zhong Ziqi já tinha falecido. Devastado pela perda, Boya nunca mais voltou a tocar.Desde então, a palavra “zhiyin” passou a designar uma afinidade espiritual profunda, enquanto que o guqin se tornou símbolo de amizade e entendimento. A expressão “montanhas altas e águas em movimento” é hoje usada tanto para evocar a raridade de um verdadeiro confidente como para elogiar uma obra de grande elevação artística..Suzhou: o encanto do kunquSuzhou é famosa pelos seus jardins clássicos e também por ser o berço do kunqu, uma das formas mais antigas de ópera chinesa. Frequentemente designada como a “mãe de todas as óperas”, o kunqu influenciou profundamente o desenvolvimento de muitas tradições teatrais regionais.Combinando canto, fala, dança e artes marciais, o kunqu permite ao público captar com facilidade as emoções das personagens. Em 2001, foi inscrito pela UNESCO na primeira lista de Obras-Primas do Património Oral e Imaterial da Humanidade, sendo possível, ainda hoje, entrar em teatros tradicionais e vivenciar esta arte milenar em Suzhou.Entre as suas obras mais emblemáticas destaca-se O Pavilhão das Peónias, de Tang Xianzu (1550-1616), uma história de amor marcada por elementos fantásticos. A jovem Du Liniang apaixona-se pelo estudante Liu Mengmei num sonho. Após despertar, consumida pela saudade, adoece e acaba por morrer, deixando um retrato seu escondido no jardim. Três anos depois, Liu, a caminho dos exames imperiais, hospeda-se nesse mesmo local, encontra o retrato e apaixona-se pela figura nele representada. Tocada por esse sentimento, a alma de Du Liniang regressa e revela-lhe como trazê-la de volta à vida, resultando na vitória do amor sobre a morte.Desde a sua estreia que a peça conquistou o público, continuando a ser representada até hoje. Curiosamente, esta obra surgiu na mesma época que Romeu e Julieta, de Shakespeare (1564-1616). A história de amor tem atravessado as gerações sem perder o seu poder emocional, sugerindo que o amor capaz de transcender a vida e a morte é um tema digno de celebração eterna. .INICIATIVA DO MACAO DAILY NEWS