Exclusivo Uma mulher inteira no pesadelo de Srebrenica

Concorrente ao Óscar deste ano de melhor filme internacional, Quo Vadis, Aida? marca o regresso aos ecrãs portugueses da bósnia Jasmila Zbanic num filme tão chocante e necessário para nos contrapor a memória do genocídio de Srebrenica em julho de 1995.

Poderá ser prudente ser direto e avisar: este é o mais doloroso e impressionante filme de guerra dos últimos anos. Dos raros objetos que pode deixar à saída da sala um espectador dilacerado e alterado, isto sem precisar da tão recorrente forma do trauma porn, mesmo tratando-se de um trauma a partir das memórias não cicatrizadas do conflito dos Balcãs. Jasmila Zbanic filma o massacre de Srebrenica com uma secura e um rigor que é também a melhor forma de o elevar a um horror humano que nem sempre o cinema sabe tratar. Quo Vadis, Aida? dispensa teorias de manipulação e outras técnicas de julgamento da História, prefere ser factual na maneira como nos convida a lidar com a forma como 8372 bósnios muçulmanos foram massacrados em 1995 durante esse verão.

Filmado com uma tensão palpável, esse mesmo massacre dispensa factualismos ideológicos e mensagens revisionistas. O ponto de partida é Aida, uma professora da região que está a trabalhar para a ONU como tradutora para as tropas holandesas dos capacetes azuis. Depois de três anos e meio de cerco, Srebrenica parece estar na sua fase mais crítica quando a população da cidade é subitamente evacuada para a área de segurança da ONU. Uma área supostamente neutra e onde Aida trabalha. A dada altura, torna-se claro que é incomportável o acolhimento de todos nessa pequena área, mesmo quando Aida consegue que o marido e os seus dois filhos tenham direito a entrada. Aos poucos, algo no ar parece denunciar a impotência dos capacetes azuis perante o avanço das tropas sérvias cujo objetivo é fazer uma limpeza étnica numa terra que julgam sua por direito. A certa altura, o comandante sérvio Mladic e as suas tropas aproximam-se perigosamente das linhas de defesa da ONU, onde estão cerca de 20 mil refugiados. A sua ideia é escolher homens para supostamente os transportar para outra área. Aida percebe que a tragédia está eminente e vai lutando com todas as suas forças para que os holandeses consigam resistir. A dada altura, as negociações parecem servir os sérvios e a situação escala para uma rutura eminente. Aida, a mãe, a mulher, a patriota percebe que a partir do momento que os filhos e o marido sejam transferidos poderá ser a última vez que os vê.

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