A homenagem aos “heróis portugueses do Brasil”, figuras históricas que vão de militares que construíram as fronteiras do país até ao imperador D. Pedro I, começa esta segunda-feira com uma sessão na Sociedade de Geografia de Lisboa. Em conversa com os participantes desta “Expedição 2026, visita às origens portuguesas”, pergunto ao brasileiro Raul Araújo Penna qual é para ele o maior desses heróis e a resposta, bem humorada, ajuda a explicar como tudo começou: “meu maior herói é o António Pedro Bacelar Carrelhas. Que é um português que ama o Brasil, e teve essas ideias todas de valorizar os portugueses. Ele nos deu essa consistência de saber que têm que ser valorizados os portugueses lá de trás, que fizeram esse Brasil imenso. António Pedro foi para o Amazonas, remou lá, depois ele bolou essas expedições de valorizar esses heróis portugueses, que fizeram essa maravilha que é o Brasil”.Enquadremos: António Carrelhas é a alma do projeto “Heróis portugueses do Brasil”, que já teve quatro expedições, a primeira das quais aconteceu em 2014, quando fez a descida do rio Amazonas, em homenagem a Pedro Teixeira, que no século XVII foi o explorador da Amazónia. Empresário português que viveu muitos anos no Brasil, António Carrelhas, que veste camisa alusiva a essa primeira expedição que até originou um livro, mantém aos 89 anos o espírito aventureiro e vai liderar o grupo que nos próximos dias irá percorrer Portugal, visitando as terras onde nasceram os quatro heróis agora relembrados. Em 2023 contou no DN a sua história. O título da entrevista foi: “Descer os 3500 km do Amazonas foi a grande aventura da minha vida”.Feita a justiça ao organizador, Raul Araújo Penna prossegue, destacando exatamente o conquistador da Amazónia como o maior desses heróis: “para mim é Pedro Teixeira, por ele ter subido o rio Amazonas, com 1200 índios, subindo aquilo tudo, e tomando posse em nome do governo português quando era rei D. Filipe, rei de Portugal e de Espanha.”Esta “Expedição 2026”, a quinta do projeto de António Carrelhas, terminará, aliás, em Cantanhede, na sexta-feira, a terra de Pedro Teixeira, que em 1639, um ano apenas antes da Restauração da Independência de Portugal, reivindicou a Amazónia para a Coroa de Portugal, e referiu-se ao rei como Filipe III (era também IV de Espanha). Em 1822, o Brasil independente incluía todo esse território.Vittorio Lanari, outro expedicionário, junta-se à conversa. À mesma pergunta sobre o herói português do Brasil que quer destacar responde: “É difícil dizer, por causa da importância desses quatro nomes para a história do Brasil. Não existiria o Brasil se não fosse os quatro. Mas a expedição de Pedro Teixeira tem relevância pelo aspeto geográfico, vamos dizer assim, do desafio que foi subir o rio Amazonas e depois tomar posse. Foi uma viagem épica, uma expedição épica. Quanto a Martins Soares Moreno, se não fosse ele o Nordeste poderia ter ficado de domínio francês ou holandês. José da Silva Paes expandiu o sul do Brasil, o que depois possibilitou a troca da região das Missões por Colónia de Sacramento com os espanhóis. Então ampliou muito o território. E D. Pedro trouxe a consolidação institucional disso tudo como país. É difícil dizer aquele que é o mais importante.”Uma bela síntese, note-se, a que Carlos César Lima, empresário que tem investimentos em Portugal, dá um interessante acrescento, em termos de heróis do Brasil: “eu incluiria um quinto herói . É o pai de D. Pedro, D. João VI. Para mim ele é o maior. Eu tinha um conceito de D. João VI, assim, como aquele bonachão, comedor de frango. Mas depois que eu li a biografia dele fiquei impressionado com a capacidade que ele teve de fazer o Brasil. Quer dizer, se você pensar bem, foi D. João VI que fez o Brasil. Eu até sugiro ao nosso líder Carrelhas de colocar D. João VI nesse grupo aí”.D. João VI, que morreu há exatamente 200 anos, foi o rei que evitou ser capturado pelos exércitos napoleónicos cruzando o oceano Atlântico. Entre 1808 e 1821, data do regresso do monarca a Lisboa, o Rio de Janeiro foi a capital do Império Português. E nesses 13 anos de presença da Corte, consolidou-se um aparelho de Estado no Brasil, que foi muito importante no momento em que D. Pedro I (depois IV de Portugal) declarou a independência.Como não podia deixar de ser, fiz a mesma pergunta a António Carrelhas, que depois da expedição amazónica organizou outra em 2019 a relembrar Martim Soares Moreno, uma mais em 2023 de homenagem a D. Pedro I e finalmente outra em 2024 dedicada a José da Silva Paes. “Respondo Pedro Teixeira não como herói, mas como a expedição em si. Não há dúvida que a expedição é a de Pedro Teixeira. Porque essa é que é a verdadeira expedição. O resto são passeios”, diz António Carrelhas, entre risos, sob o olhar atento dos outros companheiros de aventura, incluindo Tiago Morais, que é o fotógrafo oficial desta “Expedição 2026”, que contará também com Armando Abreu e Fernando Dias, entretanto chegados a Lisboa.Além de Lisboa, terra de José da Silva Paes, português que ajudou a alargar as fronteiras do sul do Brasil, o percurso engloba Queluz, em cujo palácio nasceu D. Pedro, Santiago do Cacém, cidade natal de Martim Soares Moreno, o fundador do Ceará, e Cantanhede, o berço de Pedro Teixeira. Estão previstas cerimónias a envolver as câmaras municipais, e atividades com alunos das escolas públicas e com a comunidade local para dar a conhecer estas figuras da história luso-brasileira..António Carrelhas: "Descer os 3500 km do Amazonas foi a grande aventura da minha vida"