Veio a Lisboa apresentar dois filmes que realizou: Ham On Rye, e Christmas Eve in Miller’s Point. E também Eephus, no qual é produtor. Começando por Christmas Eve in Miller’s Point, uma reunião de quatro gerações da família Balsano no Natal. O Tyler é ítalo-americano, a sua família serviu de inspiração para esse filme?O meu coautor, Eric Berger, é judeu. Crescemos na mesma cidade. E diria que trouxemos as nossas experiências familiares de forma muito equilibrada. Muitas das personagens são tios, tias e primos dele. Os pais da personagem principal, basicamente, são os pais dele. É, portanto, uma fusão das duas famílias. E, mais especificamente, da nossa relação com estas pessoas que amamos muito, mas das quais, no final de contas, optamos por nos afastar nas nossas vidas, quando vamos viver num lugar diferente, na cidade de Los Angeles. Bem longe de onde crescemos, em Nova Iorque, mais concretamente, em Long Island. Portanto, é uma espécie de carta de amor e uma carta de saudade para essas pessoas. Com quem também temos relações algo complicadas. Tanto eu como o Eric fomos os únicos das nossas famílias a partir. É, por isso, uma reflexão sobre os sentimentos que as circunstâncias trazem. E também uma homenagem às famílias numerosas e complicadas, se assim posso dizer. E a esses relacionamentos difíceis.Porquê um filme de Natal? Quando vemos Christmas Eve in Miller’s Point lembra um pouco o ambiente de Sozinho em Casa…Não foi uma coisa que tenhamos decidido. E com certeza não estava a ver filmes de Natal e a pensar: “Quero tentar fazer isto.” Foi uma situação ocorrida um certo dia, há muitos anos. Na verdade, são duas ideias iniciais. A primeira é que estava a assistir à comemoração do 30.º aniversário de casamento dos meus pais. E estava a ver o vídeo do casamento com eles. Era a primeira vez que o viam desde então. Foi uma das experiências cinematográficas mais profundas da minha vida. Senti como se houvesse um choque entre o ritual, a alegria, o tempo e a ingenuidade perante a passagem do tempo. E isso ficou-me na cabeça, e pensei: quero fazer um filme sobre um casamento. Uns anos mais tarde, na véspera de Natal, estava com a minha família alargada, que celebra o Natal com muita seriedade. E senti um desejo enorme de registar algo que sabia que ia desaparecer. Estes dois mundos como que colidiram para criar este filme. Na verdade, vem muito mais do tempo e da memória do que de um filme de género. Embora, no final de contas, seja um filme de género. .A sua estreia nas longas-metragens foi com Ham on Rye. Descreveu o filme como sendo “muito importante para nós evocar os anos 60, 70, 80 e 90. Queríamos que todos eles fossem compilados nesta estética que era pura nostalgia”. Essa nostalgia é uma parte essencial do seu trabalho?Há uma palavra portuguesa - “saudade”. É isso. Sinto que, neste momento, a minha relação com a nostalgia é uma das coisas que ativa a minha gratidão por estar aqui. O mais difícil é alcançar esse mesmo apreço pelo momento presente. Muitos destes filmes, especialmente Christmas Eve in Miller’s Point, são um exercício ativo de gratidão. A nostalgia e as minhas memórias têm muito a ver com isso. Além disso, acho que há muito a dizer sobre a História americana através da nostalgia. As décadas que estou a revisitar são, de certa form,a idílicas, na maneira como as recordamos, sobretudo do ponto de vista cultural. Até a forma como as pessoas se retratavam na época parece idílica. Interessa-me desfrutar da embriaguez deste sentimentalismo, ao mesmo tempo que reconheço que o rumo que o comboio tomou, desde então, no declínio americano, é trágico e devastador. É uma forma de olhar para o passado para compreender o presente, e é por isso que estes filmes parecem ser tão agradáveis de uma forma nostálgica e divertida. Mas, na verdade, são bastante tristes. E não apenas tristes porque o passado já lá vai. Tristes, porque não nos conseguimos identificar com aqueles tempos do passado, em que ter uma casa própria era algo possível. Todas essas coisas. Esta sensação de desgraça iminente e de ausência de futuro que nos assolou. Acho que isso está intrínseco nestas histórias nostálgicas de uma forma muito emotiva.Quando olha para a América hoje, prefere olhar para o passado?Não, não prefiro olhar para o passado. Na verdade, interpretamos a nossa própria experiência através dos media que consumimos, através de artefactos culturais. Se sou um estudante do Ensino Secundário - e isto aconteceu comigo - olho para o John Hughes e para aquela época e digo: “Ah, é isto que estou a fazer agora.” E é mais ou menos assim que identificamos a nossa experiência e lhe damos sentido. Mas agora, quando o fazemos, é uma dissonância cognitiva total. Por isso, não é que prefira olhar para trás. É que a velocidade das mudanças é tal que estes artefactos já nem sequer fazem sentido. São completamente dissonantes com a nossa experiência moderna. Quando tentamos compreender a nossa época, não conseguimos. É isso que me intriga. Não que eu desejasse que vivêssemos nessa época.Veio a Lisboa para o festival Outsiders, no qual deu uma masterclass chamada “Beg Borrow Steal” (Pedir, Tomar de Empréstimo, Roubar). É preciso um pouco de cada para fazer um filme?Esta é uma frase muito comum, especialmente no cinema independente nos EUA. É muito interessante fazer um filme. Basicamente, estamos a forçar a realidade a moldar-se. Tudo o que é normal, temos de dizer: “Não, não faças isto, faz antes aquilo.” E isso é muito difícil. O mundo não quer parar por nenhum motivo. E as pessoas não querem mudar a sua rotina, é o que tenho notado. Por isso, é preciso forçar um filme a existir quando não se tem dinheiro para o fazer. E dizer que não há dinheiro é engraçado, porque já fiz filmes com três mil dólares, já fiz filmes com 30 mil dólares, já fiz filmes com orçamentos de três milhões de dólares. Mas nunca há dinheiro. Em qualquer destas três situações, dizemos sempre: “Não temos dinheiro.” E tenho a certeza de que, se aumentarmos para cinco, seis ou dez milhões, continuaremos a dizer que não temos dinheiro. Portanto, há sempre a questão de como vamos fazer isso. Vai exigir que flexibilizemos as regras e façamos coisas que parecem impossíveis de fazer. É um dos fundadores da Omnes Films. Por que decidiu fundar o seu próprio coletivo de cinema? Sentiu que precisava de mais controlo?Eu diria que a colaboração entre nós é muito natural. Somos todos amigos há muito tempo e temos interesse nos mesmos filmes. E quando Ham on Rye estava a ser concebido, não era um filme do Tyler. Não era o meu filme. Era o nosso filme. Por isso posso dizer que trouxe aqui três filmes. E eles também. Esta é a forma natural como todos gostamos de trabalhar em conjunto. E o facto de termos escolhido o nome Omnes Films é estratégico. É para nos expormos de uma forma que as pessoas se possam identificar e partilhar essa capacidade de reconhecer o nosso trabalho, porque há claramente uma linha de sensibilidades em comum entre nós. No final de contas, é um grupo de amigos a fazer filmes juntos. Não é mais complicado do que isso. Na verdade, ainda não nos formalizámos como entidade e penso que nunca o faremos. É simplesmente uma coisa maravilhosa.Já esteve em Locarno, Berlim, Cannes - é importante para o cinema independente ser reconhecido nesses grandes festivais?É importante se quiser continuar a fazer filmes. É importante se quiser fazer filmes maiores e convidar atores. Quando se quer trazer um certo valor de produção para um filme, é preciso travar uma verdadeira guerra de imagem. Temos de convencer as pessoas de que o que estamos a fazer é legítimo. Podemos alcançar muito sucesso e querer contratar um ator famoso para um filme e alguém pergunta: “Quem é este?” Ter um coletivo, participar num festival prestigiado e ser premiado, faz tudo parte do jogo. É isso que atrai as pessoas para estes filmes maiores. Facilita a produção de filmes maiores, mas não é essencial para a vida de um cineasta. Pelo menos não a nível amador.Começou a sua carreira a fazer projetos televisivos para crianças, incluindo a websérie Suburban Legends. Confirma que a Nickelodeon dos anos 90 foi a sua maior influência?Sim, cresci a adorar aquela época da televisão infantil. É realmente inspirador. E agora que sou mais velho e desenvolvi um amor pelo cinema como forma de arte, percebo que um dos meus programas favoritos da época, As Aventuras de Pete e Pete, tinha a mesma equipa dos filmes de Hal Hartley. Há esta sobreposição entre os mundos do cinema independente e da televisão infantil, que é curiosa. Há tanta criatividade, positividade, pureza e alegria nestes programas. E tanta liberdade de expressão. Foi aí que começou o meu percurso no cinema. Eu queria fazer programas que fossem refúgios seguros para as crianças, para as doutrinar com boas ideias. Foi um sonho que não durou muito tempo, porque me apaixonei pelo cinema. Mas foi uma altura linda da minha vida. Foi nessa altura que decidiu: “É isto que eu quero fazer, é esta a vida que eu quero…”? Ou havia antecedentes artísticos na sua família?Foi o que estudei na faculdade - guião para televisão. Na família, tenho um primo que é músico e o pai dele é escritor. É engraçado, o meu tio é escritor e escreveu um romance em segredo durante dez anos, enquanto trabalhava num banco. E isso tornou-se a inspiração para uma das personagens de Christmas Eve in Miller’s Point - um homem que escrevia um romance em segredo e cuja obra é descoberta pela família. Portanto, há sementes de talento artístico na família, e isso, para mim, é muito comovente.É realizador, mas também produtor. O que mais gosta e o que menos gosta na realização e na produção?Bem, eu não gosto de produzir. E cada vez que o faço, penso: “Nunca mais faço isto, odeio isto.” Mas depois chega aquele momento em que um amigo me apresenta o projeto do seu filme e eu digo: “Uau, adorei, temos de fazer isto. Como vamos fazer isto?” Agora, quando produzo um filme, é muito mais num nível de consultoria. Estou menos envolvido diretamente na produção. Mas adoro ver os filmes dos meus amigos ganharem vida. Acho que têm ideias maravilhosas e fazer parte do seu trabalho é algo bonito. A minha parte favorita de realizar é quando se tem uma visão, uma ideia, e é algo que vale a pena seguir. Para mim, isso é tão raro como encontrar alguém por quem nos apaixonamos. Assim, quando estes astros se alinham, é algo maravilhoso de se dar vida. Porque tudo começa a servir este fluxo criativo e isso serve um propósito. Tudo o que vejo e faço está ligado ao trabalho, e tudo ganha vida e se torna fértil. É lindo.Um realizador que o inspire?Manoel de Oliveira, João César Monteiro. Adoro cinema português.Algum filme em particular?Sim, os meus filmes preferidos destes dois realizadores são O Último Mergulho, de César Monteiro, e Um Filme Falado, de Oliveira. Este filme impressiona-me muito. Também adoro o Pedro Costa e o Paulo Rocha..Cresceu em Long Island, Nova Iorque, mas vive em Los Angeles, Califórnia. Os locais onde vive refletem-se nos seus filmes? Ham on Rye, por exemplo, foi pensado para não ser reconhecível o local onde decorre…O mais engraçado em Ham on Rye, para os americanos, é que metade das pessoas que o veem dizem que se passa em qualquer lugar dos Estados Unidos. A outra metade diz que é o filme mais californiano que já viram, que é o filme mais Los Angeles de sempre. Na verdade, tentámos ao máximo esconder Los Angeles. O ideal seria ter filmado aquele filme em Smithtown, onde cresci. Porque há algo de muito emotivo nos subúrbios de lá. Mas não me incomoda que seja um filme californiano. Os outros filmes, e estou a preparar três agora, passam-se em Long Island. Portanto, tem sido um terreno muito fértil para mim, mesmo agora, explorar o que a vida suburbana significa para a psique americana.Tem então três filmes em andamento, pode dizer-nos mais alguma coisa sobre esses projetos?Bem, eu já tenho vindo a falar sobre isso, não é nenhuma surpresa. Mas tenho um filme que vou produzir este ano, e será formalmente anunciado nas próximas semanas. É um filme chamado Rise of the Beta Cucks, uma comédia americana passada no liceu. É uma espécie de brincadeira com este género, mas semelhante aos meus outros filmes. Os fãs deste género podem ficar com medo no final..“Não há nada melhor que a experiência cinematográfica. Mas pode acontecer em qualquer lado. Até num iPad”