O filme Torre Bela (1977), realizado pelo cineasta alemão Thomas Harlan (1929-2010) ficou como uma referência incontornável dos tempos conturbados vividos depois do 25 de Abril e, muito em particular, da Reforma Agrária. O seu valor histórico e simbólico volta a ser tema de um ciclo na Cinemateca, a partir desta segunda-feira, dia 20 de abril, e até sexta-feira, com um título deveras sugestivo: “A enxada é de toda a gente”.O título provém de uma cena emblemática do filme, durante a ocupação da propriedade Torre Bela, do Duque de Lafões, por camponeses da região da Azambuja. A cena acompanha um diálogo vibrante em que um camponês protesta pelo facto de a sua enxada, por ele adquirida, ser agora considerada como um objeto da cooperativa, de acordo com uma lógica política que tem dificuldade em aceitar: “(...) não é meu, nem teu, nem deste, é de todo o mundo.” Como se escreve na apresentação do ciclo, “os três minutos da ‘cena da enxada’ em 'Torre Bela' tornaram-se numa condensação quase burlesca do que foram os anos do Processo Revolucionário Em Curso, com o seu misto de utopia e pragmatismo.”O filme regressa agora naquela que será a sua “versão final”, resultante de um processo de “fixação e restauro” consumado a partir de notas deixadas pelo próprio Harlan. Tal processo aconteceu graças à colaboração da Cinemateca Portuguesa e da Cinemateca de Munique, dando origem a uma nova cópia digital, com 112 minutos de duração. A sua difusão passará também por uma edição em DVD, acompanhada por vários extras realizados por Manuel Mozos.Torre Bela será exibido hoje (18h00), sendo possível ver ou rever a versão mais longa (138 minutos), em cópia de 16mm, que Harlan preparou em 1978 para difusão nos EUA (dia 22, 21h30). O contraponto é importante para se perceber que este é um filme que, ao longo das décadas, teve mais de uma dezena de versões. Essa “pluralidade” contamina de forma ambígua a própria identidade narrativa do filme que, em boa verdade, nasceu de uma ambiguidade intrínseca, já que Harlan, embora não liderando os camponeses revoltados, de facto fez valer o poder dos meios do cinema como “motor” da ocupação da propriedade — e, nessa medida, da sua encenação. Tudo isso está no cerne do documentário 'Linha Vermelha' (2012), de José Filipe Costa, resultante de uma investigação sobre a rodagem de 'Torre Bela', que será apresentado numa sessão (dia 23, 19h00) que integra também os materiais de uma entrevista com Harlan, feita por Sérgio Tréfaut, em 1998, para o seu filme Outro País.O ciclo completa-se com várias sessões que ajudam a enquadrar, não apenas o filme Torre Bela, mas também o contexto em que nasceu e as histórias dos seus protagonistas. Assim, por exemplo, será exibido 'Wundkanal' (1984), também de Thomas Harlan (dia 21, 19h00), um dos exemplos do seu trabalho no sentido de expor e analisar os crimes do nazismo — recorde-se que o seu pai, Veit Harlan (1899-1964) foi um colaborador de Adolf Hitler, tendo realizado o filme de propaganda nazi O Judeu Süss (1940). A ocupação de Torre Bela será também recordada através de registos documentais de 1975 (dia 24, 19h30), resultantes de trabalhos da RTP, da cooperativa Cinequanon (sob a direção de Luís Galvão Teles) e do realizador amador Vítor Silva.O ciclo propõe ainda três conversas, a primeira sobre Thomas Harlan, com o seu filho, Chester Harlan, e Stefan Drössler, director do arquivo de Munique (dia 21); Roberto Perpignani, montador de Torre Bela, estará presente para falar, justamente, da montagem do filme, na companhia de José Manuel Costa, anterior director da Cinemateca (dia 22); por fim, a produção de Torre Bela será analisada por José Filipe Costa e Manuel Mozos (dia 24) — todas estas sessões começarão às 17h30. Estamos, afinal, perante memórias cruzadas e contrastadas em que a ocupação de Torre Bela nos encaminha para o interior de um labirinto de filmes e memórias onde ecoam as convulsões políticas do século XX..Morreu Nathalie Baye, actriz tão talentosa quanto discreta