Tim Roth e uma insolação apática

Extraordinária interpretação de Tim Roth como um herdeiro apático a sofrer insolações a alucinações num Acapulco entre o paraíso e o inferno. Crepúsculo é o novo de Michel Franco, cineasta mexicano adorado pelos maiores festivais.

Michel Franco é o cineasta mexicano em contracorrente aos conterrâneos famosos de Hollywood, de Guillermo Del Toro a Alejandro Iñarritu, passando por Alfonso Cuarón. O seu cinema vem do desespero humano, das figurações tíbias da alma humana e da violência do seu país. Ao contrário de Carlos Reygadas, filma com uma força narrativa que não se explica - é quase uma aparição - mesmo quando há uma camada abstrata no destino das personagens. Já tínhamos percebido tudo isso em Chronic, que levou à competição de Cannes em 2015 ou com o incompreendido As Filhas de Abril, de 2017. Mas era em Nova Ordem, competição de Veneza em 2020, que tudo isso explodia. Explosão que prossegue agora neste drama pela hora da morte, Crepúsculo, presença também em competição em Veneza. Um príncipe do art-house, que persegue a compreensão de um mal-estar interior. A violência agora é parcialmente interior mesmo quando Acapulco é filmada com um sentido de perigo constante, entre disparos dos cartéis e tentativas violentas de rapto.

Tim Roth é um milionário inglês, herdeiro de uma fortuna imensa relacionada com o negócio da criação suína. Depois de umas férias em família terminarem abruptamente com uma notícia trágica, vê-se sozinho em terra, por ter alegadamente perdido o passaporte.

Afinal, este homem de meia-idade, em vocação Bartleby de Melville, faz da apatia um modo de estar e relaciona-se com a tragédia de uma forma singular: bebe na praia até cair para o lado e instala-se num hotel de fama duvidosa. Ao mesmo tempo, parece esconder um segredo fatal - mais tarde percebemos que as coisas não são bem como as aparências mostram.

Sundown é precisamente uma história de cambalhotas narrativas - este homem está em perda e não é quem pensamos. Diante dele um mundo que é implacável: advogados de família, o peso do dinheiro e a violência que não se controla. Quanto menos se souber melhor se entra num objeto seco e duro, algures a pedir ao espetador que não faça juízos de valor.

Franco leva-nos para zonas muito duras da existência humana. Contrapõe frieza com elementos de ficção que circulam pelas lógicas difusas do destino, algures entre a apatia da mais resignada tristeza e o vazio da alma. Aos poucos, estamos no mesmo barco, a toada do ritmo indolente da câmara de Franco já nos seduziu. Ou, neste caso, feriu. Essa sensação de perda é o ponto de ordem de uma farsa pesada sobre as ironias do universo.

Se a errância deste homem rico, a procurar uma vida mais pacata, funciona do ponto de vista emocional, em parte, isso deve-se à extraordinária presença de Tim Roth. O britânico consegue ser minimal nessa exposição de dor. O ator de Pulp Fiction é aqui tão brilhante que até consegue transmitir-nos aquela sensação de insolação. O seu rosto magoado, vencido, é qualquer coisa que se cola à pele. Roth percebeu que o mistério da personagem passa pela serenidade de um gesto passivo. Só os grandes atores conseguem safar-se com isso...

E Charlotte Gainsbourg, mesmo num papel secundário, percebeu também a intensidade sufocante do tom que tinha de ter...

dnot@dn.pt

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