Quando gravou o 'The Köln Concert', Keith Jarrett ainda não completara 30 anos.
Quando gravou o 'The Köln Concert', Keith Jarrett ainda não completara 30 anos.Foto: Nuno Fox / Global Imagens

‘The Köln Concert’. 50 anos depois, o concerto que quase não o foi ainda mostra que o jazz pode ser para todos

Do piano errado à "má comida italiana", o álbum de jazz a solo mais vendido de sempre teve vários contratempos que quase o impediram de ver a luz do dia. 'The Köln Concert' faz este domingo 50 anos.
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Colónia, 24 de janeiro de 1975, 23h30. Keith Jarrett sobe ao palco e toca as primeiras notas no piano. A sequência, baseada no som que ouvira minutos antes de iniciar a atuação na Ópera da cidade alemã para 1400 espectadores, seria a primeira de um concerto que entraria para a história. Lançado a 30 de novembro de 1975, The Köln Concert tornar-se-ia no álbum de jazz a solo mais vendido da história: até este ano, já foram adquiridas mais de 4,5 milhões de cópias em todo o mundo. A gravação acabou por cimentar a ECM, criada em 1969, como uma das mais importantes no ramo das editoras independentes.

Mas o concerto – e, por arrasto, o álbum – quase não aconteceram. Tudo porque Keith Jarrett, que já tinha tocado com nomes importantes do jazz, como Miles Davis e Art Blakey, esteve prestes a não atuar. A história é fácil de contar: para realizar o espetáculo, Jarrett pediu à promotora, Vera Brandes (na altura, a mais jovem de toda a Alemanha, com apenas com 18 anos), que arranjasse um piano específico. No entanto, um erro levou a que os funcionários da ópera colocassem em palco um outro instrumento, mais pequeno e ligeiramente desafinado, destinado apenas a ensaios nos bastidores. Para tentar remediar a situação, Brandes chamou dois afinadores que atenuaram o caos - ainda hoje permanecem anónimos.

Como disse a promotora ao Expresso, em agosto deste ano: era um “piano horrível”. Em 2015, Jarrett falaria sobre o assunto numa entrevista à rádio americana NPR, dizendo que "não só o piano era o errado, como a marca também não era aquela". "Tinha um som terrível", admitiu.

Ainda assim, o músico – que não tinha completado 30 anos – acabou por aceder, uma vez que transportar um novo instrumento no frio do inverno alemão podia causar danos irreparáveis no piano que fora pedido. O compromisso com a música foi tanto que, mal se sentou para iniciar a atuação, Keith Jarrett deu início a 66 minutos absolutamente transcendentais, editados em duas partes (I e II, tendo esta última três subdivisões: a, b e c) .

Cada uma delas é centrada num conjunto repetitivo de notas, o que levou Jarrett, por exemplo, a improvisar durante quase 12 minutos da primeira parte tendo como base apenas dois acordes. Pelo meio, não raras vezes ouvem-se vocalizações e reações do músico ao que está a ser tocado. Tornar-se-iam, aliás, uma imagem de marca de Jarrett ao tocar jazz. Nas peças clássicas (de compositores como Bach, Händel ou Shostakovich) que interpretou, estes sons não se ouvem.

Na já referida entrevista à NPR, o próprio explicou que não é algo que faça de forma consciente, sendo resultado, isso sim, de sentir "uma potencial limitação": "Faço-o normalmente entre frases, quando penso como cheguei a este ponto onde me sinto já preenchido".

O impacto deste Köln Concert foi tanto que, durante anos, vários musicólogos e académicos pediram que Keith Jarrett divulgasse uma transcrição das duas partes. Durante anos, o músico recusou fazê-lo, mas em 1990 autorizou a divulgação de uma transcrição.

Além do piano, dores de costas e "a má comida italiana" foram obstáculos em Colónia

Mas, além do piano errado, houve mais percalços que fizeram com que o álbum ganhasse um estatuto lendário. Quando Keith Jarrett chegou a Colónia vindo de Zurique, na Suíça, o pianista americano estava quase vencido pelo cansaço devido a uma dor de costas que o afetava há vários dias.

A juntar a isso, o músico teve a oportunidade de viajar de avião entre a Suíça e a Alemanha, mas recusou, preferindo fazer o trajeto (hoje em dia, de aproximadamente 570 quilómetros) de carro com Manfred Eicher, o dono da ECM.

Quando chegaram a Colónia, foram levados ao "restaurante italiano mais quente de sempre" (nas palavras de Jarrett) e a comida, disse, era "má". "Foi servida mesmo em cima da hora em que devia ter começado a tocar", recordou ainda.

Apesar de todas as contrariedades, o concerto que quase não o foi acabou mesmo por acontecer e mostrou que o jazz - e a música improvisada - podem ser acessíveis ao grande público. Ao mesmo tempo, Keith Jarrett afirmou-se como um dos grandes pianistas do jazz e entrou para a ribalta. Atualmente com 80 anos, retirou-se da música em 2018 após sofrer dois Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) que o deixaram parcialmente paralisado e incapaz de tocar com a mão esquerda.

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