"A partir de certa idade 'sofre-se' muitas homenagens...", diz Sérgio Godinho.
"A partir de certa idade 'sofre-se' muitas homenagens...", diz Sérgio Godinho. Reinaldo Rodrigues

Sérgio Godinho faz 80 anos. "Sinto-me reconhecido e cúmplice das pessoas"

Músico e escritor tem mais de 50 anos de carreira e diz ao DN que cantar as suas músicas ao vivo dá-lhe "grande energia e vontade de continuar". O próximo concerto é no dia 7 de setembro, no Porto.
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Sérgio Godinho celebra oito décadas de vida este domingo, dia 31 de agosto, um número redondo que fomenta homenagens e que o músico considera "simpático", sem deixar de comentar: "Não sei se foi a Agustina que disse, a partir de certa idade 'sofre-se' muitas homenagens...", diz ao DN. Com mais de 50 anos de carreira - lançou o primeiro álbum Romance de um Dia na Estrada em 1971 - o músico, compositor, poeta e escritor considera que mais importante do que as homenagens - e na última semana têm sido muitas, nomeadamente no âmbito da Feira do Livro do Porto - "o que interessa é que as pessoas sentem realmente uma cumplicidade e uma comunhão comigo e com o meu trabalho ao longo dos anos, que tem sido vário e, de certo modo, incessante".

A relação com o público português tem sido alimentada, sublinha, "de espetáculos, de todas as canções e todo o trabalho romanesco, com três romances e agora outro livro de contos, e o que vinha para trás. Sinto-me, como é evidente, reconhecido e cúmplice das pessoas".

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Em oito décadas de vida Sérgio Godinho continua a dar concertos, e o músico aponta para o espetáculo do próximo dia 7 de setembro, nos Jardins do Palácio de Cristal, no Porto, com uma convidada especial, a Manuel Azevedo: "Eu continuo e isso é também o que me dá energia, é cantar, é recriar as canções ao vivo, com os meus músicos, e isso dá-me uma grande energia e uma grande vontade de continuar", afirma ao DN.

O último álbum de originais do músico é de 2018 (Nação Valente), mas um novo disco pode estar a caminho, apesar de a sua veia criativa se ter desviado para a escrita de livros nos últimos anos, com a publicação do conjunto de contos Vidadupla (2014), o romance Coração Mais Que Perfeito (2017), o primeiro, a que se seguiu Estocolmo (2019), o livro de poemas ilustrado Palavras São Imagens São Palavras (2021) e Vida e Morte nas Cidades Geminadas (2024). Em junho deste ano Sérgio Godinho lançou um novo livro de contos, Como se não Houvesse Amanhã (Quetzal Editores).

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"Um novo disco talvez para o ano, porque estou a escrever outra matéria ficcional. Não sinto tanta premência em escrever novas canções, mas tenho tantas canções e gosto de as cantar ao vivo e vou mudando o repertório, isso é o mais importante. Acho que a canção é feita sobretudo para ser cantada num palco, com músicos e com toda essa noção do risco e do acontecimento único que é cada espetáculo", diz Sérgio Godinho ao DN.

Quanto ao espetáculo de domingo, o músico diz que "o alinhamento vai ser aquele que temos vindo a fazer, com uma ou outra referência ao Porto, que é inevitável. Porque, no fim de contas, as minhas canções, mesmo quando não falam do Porto também o referem. Há um certo espírito, embora eu viva há muitos anos em Lisboa, a minha raiz está no Porto".

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O músico e escritor nasceu e viveu no Porto até aos 20 anos, mas quando regressou a Portugal, depois do 25 de abril, fixou-se em Lisboa. Sente-se mais portuense do que lisboeta?

"Não, não posso dizer isso já", responde Sérgio Godinho, cujos horizontes são mais amplos. "Para já, sou cidadão do mundo, porque vivi fora, mas tenho mais anos de Lisboa do que do Porto. O que acontece é que quando volto ao Porto sinto uma identificação natural e plena com a cidade. Mas eu gosto muito de Lisboa, porque foi uma cidade que eu fui descobrindo, e tenho várias dessas experiências, descobri Paris, descobri o Rio de Janeiro, descobri Genève, descobri o Canadá, mais do que uma cidade."

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Quanto a Lisboa, que o vai homenagear no próximo dia 4 de setembro com a entrega da medalha de mérito cultural da cidade, revela que "a descoberta foi sendo feita aos poucos, os meus filhos nasceram cá, e netos, etc.. Mas essa descoberta que se foi fazendo da cidade é algo de que gosto, que me apaixona, e hoje em dia posso dizer que Lisboa é uma cidade familiar".

Sobre a distinção que a Câmara Municipal de Lisboa lhe entregará na próxima quinta-feira, considera que "é uma altura um pouco estranha porque estamos quase em campanha eleitoral autárquica, mas não acho que isso interfira, uma coisa é uma coisa outra coisa é outra coisa".

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Além da promessa de um novo disco em 2026, Sérgio Godinho continuará a escrever livros. "Não é um romance, é de caráter mais biográfico." Uma autobiografia?  "Não é uma autobiografia, nunca farei uma autobiografia", afirma.

Sobre aquilo que o está a inspirar nesta fase da vida, diz que "os temas são muito diversos, porque não sou mono temático, a minha paleta de canções mostra - falando das canções agora - que tanto abordo temas mais sociais como pessoais, como de criação de personagens, como de viagem, de interrogação, têm uma paleta muito diversa. E o mesmo acontece com a ficção narrativa." Para Sérgio Godinho, "cada caso é um caso, são histórias que são míni ficções, no fim de contas".

O músico, que diz que gosta de fazer anos - "gosto, sempre gostei, embora quando há datas redondas há mais tendência para juntar as pessoas" -, celebrará este 80º aniversário na Invicta, onde ontem, dia 30 de agosto, apresentou a sua última obra, Como se Não Houvesse Amanhã, e esteve presente no lançamento do livro de fotografias de Rita Carmo, "a pessoa que mais me fotografou", adianta. 

No passado sábado, dia 23 de agosto, o músico recebeu a Medalha de Honra da Cidade do Porto e a tília de homenagem da câmara do Porto.

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