Peça de bordado de Suzhou com peixes-dourados e ramos de pinheiro, símbolos de prosperidade e longevidade.
Peça de bordado de Suzhou com peixes-dourados e ramos de pinheiro, símbolos de prosperidade e longevidade.

Suxiu e Yunjin: As duas joias da seda de Jiangsu

Na província de Jiangsu, no leste da China, duas tradições artesanais milenares revelam formas distintas de transformar a seda em arte. Uma, originária de Suzhou, “pinta” flores, aves e paisagens com a agulha; a outra, de Nanquim, “tece” nuvens e pores do sol em teares de seda. São o bordado de Suzhou e o brocado de Nanquim. Embora partilhem a seda como matéria-prima, seguem caminhos artísticos diferentes, um assente no bordar, o outro no tecer.
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Bordado de Suzhou: a pintura em seda

O bordado de Suzhou (suxiu) conta com mais de 2.500 anos de história e é considerado o mais refinado dos quatro grandes bordados tradicionais da China, tendo sido inscrito na lista do Património Cultural Imaterial da China em 2006.

O que o distingue é a sua extraordinária precisão técnica. Um único fio de seda pode ser dividido em até 128 filamentos, tão finos que cada um mede apenas cerca de 5 micrómetros de diâmetro - menos de um décimo da espessura de um cabelo humano. É este trabalho minucioso que permite a estes bordados reproduzir detalhes de grande subtileza e alcançar um efeito de realismo dificilmente igualado por outros estilos de bordado.

Graças a esta precisão, o suxiu conquistou a reputação de “pintura em seda”. Entre as suas técnicas mais notáveis destaca-se a criação de imagens diferentes na frente e no verso de um tecido tão fino quanto a asa de uma cigarra, permitindo apreciar duas composições distintas numa única peça. Trata-se de uma proeza rara no artesanato a nível mundial.

Outro dos seus traços distintivos é a fusão entre a arte do bordado e a pintura tradicional chinesa. Os artesãos dominam com mestria a direção, a densidade e a sobreposição dos pontos para recriar efeitos de luz, textura e profundidade. Alguns pontos são tão finos e densos como fios de cabelo, reproduzindo texturas próximas das da pintura a óleo; outros são regulares e uniformes, conferindo às superfícies um aspeto liso e acetinado; outros ainda são aplicados em camadas sucessivas, permitindo sugerir as ondulações da água ou a suavidade da pelagem dos animais.

Hoje, milhares de artesãos continuam a preservar esta tradição em Suzhou. Algumas bordadeiras especializam-se em motivos de gatos, outras em paisagens, enquanto outras exploram a fusão entre o bordado e a moda contemporânea, dando origem a lenços e acessórios modernos. Em 2008, o bordado de Suzhou integrou os motivos decorativos dos uniformes usados nas cerimónias de entrega de medalhas dos Jogos Olímpicos de Pequim.

Brocado de Nanquim: seda tão resplandecente como as nuvens do entardecer

Peça de brocado de Nanquim com motivos de grous, cogumelos reishi e nuvens auspiciosas - símbolos de longevidade e do reino dos imortais. O fundo dourado era reservado à família imperial, sendo frequentemente utilizado em celebrações de aniversário da corte imperial da dinastia Qing.
Peça de brocado de Nanquim com motivos de grous, cogumelos reishi e nuvens auspiciosas - símbolos de longevidade e do reino dos imortais. O fundo dourado era reservado à família imperial, sendo frequentemente utilizado em celebrações de aniversário da corte imperial da dinastia Qing.

Enquanto o bordado de Suzhou se distingue pela precisão, o brocado de Nanquim (yunjin) é conhecido pela complexidade da tecelagem e pela riqueza dos materiais. O próprio nome já anuncia a sua natureza poética: yun (nuvem) refere-se às cores luminosas e em variação contínua, semelhantes ao céu do crepúsculo; jin (brocado) designa tecidos de seda coloridos e luxuosos. Em conjunto, yunjin pode ser entendido como um “brocado tão resplandecente como as nuvens do entardecer”.

Com mais de 1600 anos de história, da dinastia Yuan à dinastia Qing, este brocado foi durante séculos reservado à corte imperial, vestindo imperadores e imperatrizes em túnicas de dragão e fénix, vestes cerimoniais de extraordinária solenidade. Em 2009, o yunjin foi inscrito pela UNESCO na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade. A antiga China conheceu uma grande variedade de brocados, como o brocado de Shu (shujin), o de Song (songjin) e o de Nanquim, sendo este último reconhecido como o mais prestigiado de todos.

A sua singularidade começa nos materiais. Além da seda, utilizam-se fios de ouro e de prata e, em alguns casos, até fibras de pena de pavão. Estas produzem reflexos iridescentes em tons de verde e azul, que se transformam consoante a luz e não podem ser reproduzidos por pigmentos convencionais. É precisamente pela preciosidade dos seus materiais que o yunjin foi, desde a sua origem, um luxo exclusivo de imperadores, nobres e altos dignitários.

O processo de tecelagem é igualmente extraordinário. O tear tradicional pode atingir 5,6 metros de comprimento, 1,4 metros de largura e 4 metros de altura, exigindo a operação simultânea de dois artesãos: um na parte superior, responsável pelo padrão, e outro na inferior, encarregado de inserir os fios de seda e metal. A produção requer uma coordenação rigorosa e alternância constante de materiais - seda, ouro, prata ou penas de pavão - para criar padrões complexos e efeitos tridimensionais. Mesmo nas mãos de artesãos experientes, o ritmo de produção é extremamente lento: cerca de 5 a 6 centímetros por dia. Um único metro pode, assim, levar mais de meio mês a ser concluído.

Em tempos, o brocado de Nanquim chegou a ser tão valioso quanto ouro e hoje uma réplica de túnica de dragão em yunjin tecido à mão continua a ser extremamente dispendiosa. Embora algumas variedades mais comuns possam ser produzidas à máquina, as peças mais requintadas e complexas continuam a depender inteiramente do trabalho manual. Por outras palavras, cada brocado é único, já que pequenas variações no gesto do artesão lhe conferem uma identidade própria.

Duas artes, um mesmo fio cultural

Um fio de seda nas mãos de um artesão de Suzhou serve de pincel, nas mãos de um artesão de Nanquim, torna-se trama e urdidura. O bordado de Suzhou distingue-se pela sua delicadeza extrema e o brocado de Nanquim pela sua grande riqueza ornamental, revelando em conjunto a busca incessante da tradição artesanal chinesa pela precisão, pelo detalhe e pela paciência.

Hoje, estas artes antigas continuam vivas no quotidiano: o bordado integra a moda e a decoração de interiores, enquanto o brocado surge em peças de alta-costura e coleções artísticas. Em ambos os casos, é através de cada ponto e de cada fio que se preserva e transmite a beleza e o requinte da cultura chinesa.

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