Ouvi Dali Chebil e Nada Mahmoud, antes desta conversa, interpretarem o malouf, estilo musical tunisino, no auditório da Fundação Oriente, em Lisboa. Foi um momento mágico, pois em palco estiveram também uma fadista e um guitarrista, e a dada altura Barco Negro ganhou uma interpretação nova, misturando as tradições musicais da Tunísia e de Portugal. Os dois tunisinos disseram que o fado tem sido uma descoberta, percebendo agora como este está ligado à identidade portuguesa, assim como, sublinhou Nada Mahmoud, “o malouf está ligado à identidade tunisina”.“O malouf está presente na minha vida desde criança, porque cantar sempre foi o meu passatempo favorito. Então, canto todos os estilos tunisinos, de que o malouf é um dos pilares mais importantes. As melodias rítmicas do malouf estão presentes noutros estilos musicais tunisinos”, afirmou Dali Chebil. Nada Mahmoud, que, tal como o colega, tem uma sólida formação musical, e está a completar o doutoramento em musicologia, realçou que sendo a música tradicional tunisina, muito popular no século passado, o malouf procura agora conquistar as novas gerações, “mas sem deixar de manter aquilo que o faz único”. Notam que há quem use o malouf no jazz e até na música eletrónica.A alaudista destacou como, devido à “posição geográfica” da Tunísia, esta tradição musical “vai buscar inspiração às origens andaluzas, africanas, mas também aos otomanos, porque os turcos também por ali passaram, e até à música europeia”, pois a colonização francesa durou do final do século XIX até a Tunísia conquistar a independência em 1956. . A geografia, com a sua localização central, entre Mediterrâneo Oriental e Ocidental, no Norte de África mas próxima da Europa do Sul, marca a história da Tunísia, e também a sua tradição musical. . “O malouf não é apenas um estilo musical passageiro, mas sim um registo histórico vivo que resume séculos de intercâmbio cultural entre as margens do Mediterrâneo e que se manteve um dos pilares proeminentes da identidade cultural tunisina”, escreveu no DN, no dia do concerto, o tunisino Abdeljelil Larbi. O responsável do Centro de Estudos Árabes da Universidade de Coimbra explicava as raízes andalusas do malouf, via as gentes que, após a queda de Granada em 1492, se instalaram no Norte de África e “trouxeram consigo as suas artes, a sua poesia e a sua saudade da Península Ibérica”. A palavra malouf “deriva de al-ma’luf (habitual, familiar), expressão que designa arte criada pelos sentimentos e transmitida de geração em geração”, referiu. .Na Tunísia, Tunes, Kairouan, Bizerte e Sfax acolheram o malouf, mas é a cidade de Testour o seu “bastião principal”, como disse o académico e realçaram Dali Chebil e Nada Mahmoud. Ele em palco tocou bendir, tamborim, e ela o oud, que em português, juntando o artigo “al”, como em tantas palavras de origem árabe, se diz alaúde. A acompanhá-los esteve Hassim Ben Miloud, no nay, flauta. O concerto promovido pela embaixada da Tunísia contou neste diálogo cultural com a fadista Ana Paula Gonçalves e o guitarrista Custódio Castelo. Enquadrado no Festival Sete Sóis Sete Luas, e com apoio da embaixada de Portugal na Tunísia, o concerto realizou-se igualmente no sábado em Tunes. .O ‘malouf’ Tunisino: o legado de ‘Al-andaluz’ presente na alma da Tunísia