Rita Luz, jovem algarvia veio para Lisboa para seguir o sonho de uma carreira profissional no fado, canta no Clube Lisboa Amigos do Fado.
Rita Luz, jovem algarvia veio para Lisboa para seguir o sonho de uma carreira profissional no fado, canta no Clube Lisboa Amigos do Fado. Foto: Reinaldo Rodrigues

Silêncio que se vai #escutar o fado

Em todas as reportagens do projeto #LisboaEscuta, perguntámos qual é a canção que melhor descreve Lisboa. A resposta mais comum, vinda de cantores, músicos e compositores, foi: o fado. Fomos, por isso, à procura de uma das formas mais originais de o escutar. Na voz de fadistas amadores, intérpretes curiosos, pessoas de várias origens sociais, idades e profissões. A última reportagem decorre no Clube Lisboa Amigos do Fado, em Chelas.
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Há um grupo de pessoas a conversar nas traseiras de um prédio, igual a tantos outros em Chelas. Lá dentro, a decoração é distinta: somos transportados para outra Lisboa. As paredes estão decoradas com fotografias de fadistas, xailes tradicionais e galhardetes de pequenos clubes de bairro. Numa das placas, vê-se o nome de Cidália Moreira; noutra, o de Fernando Maurício; por baixo, há desenhos de elétricos e referências a outros tempos e a outras partes da cidade antiga. Estamos no Clube Lisboa Amigos do Fado, que nos últimos anos tem vindo a ser reconhecido como local de “nascimento” de várias referências do fado tradicional, bem como de novas formas de interpretar este estilo, como Sara Correia e Marco Oliveira.

Ao contrário das tradicionais casas de fado, os artistas são os clientes sentados nas mesas. Reserva-se uma mesa, pede-se um petisco e uma bebida e as pessoas vão inscrevendo-se para cantar um fado. Há muitos candidatos e, por vezes, é difícil conseguir mesa, pelo que o papel de mestre de cerimónias, desempenhado pelo senhor Augusto, é muito importante. Num ambiente com uma luz muito baixa e intimista, ele circula entre as mesas, anota os fados e o nome de quem vai cantar o quê. Com delicadeza, faz a apresentação à sala do intérprete e da canção, num tom que mistura formalidade e boa disposição. Os cantores vão desfilando ao longo da tarde e são respeitosamente escutados em silêncio pela audiência conhecedora, que até ajuda em caso de nervosismo ou esquecimento. A música está a cargo de Sebastião Pereira, na guitarra portuguesa, e de Pedro Soares, na viola, que estão atentos aos pedidos de quem canta. Para estes músicos profissionais, este é um exercício que requer destreza e um conhecimento profundo sobre o fado. O objetivo é serem capazes de fornecer a melodia de cada fado pedido com grande rapidez e, assim, dar melodia a estes fadistas de uma canção só.

Para Maria  Gi Rodrigues,  “o fado é cultura”.
Para Maria Gi Rodrigues, “o fado é cultura”.Foto: Reinaldo Rodrigues

Tudo isto decorre de forma muito fluida, enquanto circulam pela sala os petiscos confecionados por Nelson Lemos, um cantor reconhecido no circuito do fado e chef de cozinha. Entre os diversos músicos que costumam aparecer para animar as tardes de domingo, Pedro Soares é um dos mais constantes. Atualmente, é ele quem dinamiza a escola de fado, ou, como gosta de lhe chamar, essa “espécie de tertúlia, muito informal, em que o mais importante é que as coisas corram da melhor forma possível e que haja o maior respeito pelo fado e pela sua linguagem”. Todas as segundas-feiras, jovens e menos jovens vêm a este espaço para ter aulas de fado e, sobretudo, para discutir formas de cantar e de dicção, e “aprender uns com os outros”, prossegue Pedro. A ideia nasceu de Armando Tavares, uma figura importante na dinamização do fado na cidade de Lisboa, fundador deste clube e do projeto da escola. A ideia era que a escola servisse de porta de entrada para jovens interessados neste estilo de música. Apesar de ter falecido em 2022, o seu nome perdura nas salas do clube e no discurso de quem por aqui passa.

Maria Inês,  de 14 anos, afirma que o fado é uma aprendizagem constante.
Maria Inês, de 14 anos, afirma que o fado é uma aprendizagem constante. Foto: Reinaldo Rodrigues

Os cantores sucedem-se na sala batizada com o nome do fundador, onde duas jovens com vozes distintas se vão sucedendo no palco. Uma delas é Rita Luz, de 23 anos, que possui uma voz equilibrada e melodiosa. Natural do Algarve, começou a destacar-se no circuito de profissionais que atuam em diversas casas de fado da cidade. Iniciou-se no canto lírico ainda jovem, no Algarve, mas sempre sonhou com uma vida dedicada ao fado. “O fado entrou na minha vida”, muito por influência de autores como Jorge Fernando. Para ela, o fado é sentimento: “cantando com sentimento, transmitimos ao público aquilo que estamos a sentir”. Ao seu lado está Maria Inês, com apenas 14 anos, filha de uma cantora profissional de fado e dona de uma voz poderosa. Vive em Chelas, é aluna da escola e refere que cada vez conhece mais crianças e adolescentes a cantar fado, que querem aprender com os mais velhos. Por isso, esta passagem de conhecimentos que se pratica na escola é especialmente importante.

Carlos Fonseca preside ao Clube Lisboa Amigos do Fado.
Carlos Fonseca preside ao Clube Lisboa Amigos do Fado.Foto: Reinaldo Rodrigues

Para muitos vir até aqui é uma espécie de ritual, como Florbela Oliveira que mora ali bem perto mas que não canta. Vem porque “gosta de ouvir cantar o fado” e aqui sente-se em família ou como Maria Gi Rodrigues, que se sentou sozinha numa mesa e vem da Venda Seca, “fado é cultura” atira. Casada muitos anos com uma pessoa que não apreciava fado foi a viuvez e o desejo de cantar que a trouxe até esta família do fado, que segundo ela é amor, solidão e cultura.

“Quando se entra aqui, respira-se fado e cheira a fado”, quem o diz é Carlos Fonseca atual presidente do clube e garante que o trabalho em prol do fado continua após o desaparecimento do fundador da coletividade. Nesta sala todos os domingos acorrem pessoas um pouco de toda a parte com desejo de escutar um bom fado até “os estrangeiros que não percebem a nossa língua, mas só ao ouvirem o trinado da guitarra, o silêncio e o sentimento que o fadista transmite” até parece que entendem o sentimento, “o Fado é uma história” conclui.

Sebastião Pereira, na guitarra portuguesa, e de Pedro Soares, na viola, acompanham os vários fadistas da tarde com a guitarra  e muita improvisação.
Sebastião Pereira, na guitarra portuguesa, e de Pedro Soares, na viola, acompanham os vários fadistas da tarde com a guitarra e muita improvisação. Foto: Reinaldo Rodrigues

Para Carlos o sentimento em relação ao fado é muito forte, ele que era fadista, mas devido a um problema de saúde nas cordas vocais já não consegue cantar. Perdeu a voz e a capacidade de cantar, mas não a capacidade de escutar - “tanto é feliz a cantar como aquele que ouve. O fado sem silêncio não é fado”.

As reportagens #LisboaEscuta foram produzidas no âmbito do programa “Lisboa, Cultura e Média” da Egeac

Rita Luz, jovem algarvia veio para Lisboa para seguir o sonho de uma carreira profissional no fado, canta no Clube Lisboa Amigos do Fado.
Reportagem #LisboaEscuta: Rap Chelas
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