Samuel Úria já tocou no Rock in Rio, em 2012, mas este domingo, 21 de junho, o concerto foi outra experiência, começando pelo palco. "Foi diferente, o espaço é outro e, de facto, condiciona mais do que eu estava à espera. Hoje havia uma divisão, havia muito mais gente de um lado. Do outro lado havia a zona das comidas e uma zona de passagem, e isso condicionou-me, para onde é que eu vou olhar? São as coisas que nos passam pela cabeça, mas que não estão provavelmente a interferir na prestação", confidencia ao DN depois da atuação no Palco BacanaPlay Digital, às 21h15, no segundo dia do primeiro fim de semana do festival.Este concerto também foi um pouco diferente dos que costuma fazer pelo país fora, porque foram tocadas músicas mais antigas. "Eu não estava à espera de vir cá tocar. Sou totalmente sincero, não sinto que sou o artista mais óbvio quando se pensa num Rock in Rio, mesmo com a diversidade que há de uns dias para os outros, não estava a contar a tocar", diz Samuel Úria."E então, quando ficou marcado este concerto, eu tinha acabado de ter outro espetáculo noutra zona do país, em que durante o soundcheck a banda estava a lembrar-se de músicas, então e esta, então e aquela, e começámos a tocar algumas canções antigas que não tocávamos há muito tempo".E foi assim que um "concerto inesperado trouxe também canções mais ou menos inesperadas, porque estavam esquecidas. E foi isso que aconteceu hoje, foi a preparação particular deste Rock in Rio", conta o artista.Samuel Úria lançou o último disco, 2000 A.D., no final de 2024, e para já não está a trabalhar em novos temas. "Não tenho ainda nada definido, estou a pensar em agendar a altura em que eu vou assentar para escrever canções novas. Mas não está ainda nada preparado, não há rascunhos sequer, mas tenho esse objetivo já em vista". Ainda costuma pensar, assume o artista, em discos completos e não em canções soltas. "Eu tenho esse lado conservador de pensar ainda em discos, as minhas canções vêm a reboque de discos e não ao contrário. Ou seja, não estou a pensar 'agora vou fazer um single para sair, para mostrar que estou vivo'. Quando faço canções, estou já a pensar em fazer um grupo delas". Samuel Úria explica o seu processo. "A canção que eu faço vai sugerir-me a próxima. E, nesse sentido, também tenho a ideia de que se estiver sempre a produzir, eu vou estar cansado e sem vontade para fazer esse núcleo de canções. É a lógica do pousio, é deixar o terreno repousar para ter a certeza absoluta que quando eu escolho um tempo que é consagrado para a escrita de canções, eu vou estar com muita vontade, vou estar com saudades de escrever canções". "Pode ser uma justificação para a minha preguiça? Eu acho que não, porque até agora tem resultado. Claro que há coisas que eu estou a captar e que vão aparecer nessa altura, mas não há um lado metódico, não há um registo demasiado intencional", acrescenta.E o que tem Samuel Úria estado a captar? "Não estou a prever nenhum acontecimento individual que privilegie uma temática mais alegre para contrastar com os últimos discos. Já estou a antecipar, quando chegar a altura de escrever o disco, que o mundo não vai estar bom e que eu vou estar a navegar ao sabor das ondas do mundo e acabar por escrever canções que repercutirão aquilo que é a minha ambiência.""A língua portuguesa é tão maior do que este país", diz Samuel Úria a determinada altura no palco, ao introduzir uma música com um poema de Alexandre O'Niell, levando-nos a falar sobre a importância da língua para o artista. "Embora eu escreva um português europeu, alguns brasileiros dizem que é um português colonialista, por ser o português que colonizou depois os outros. Eu sou muito influenciado pelos outros 'portugueses', não tento depois apropriar-me deles, mas algumas das soluções, da plasticidade e da elasticidade do português que é usado noutros lados, ou às vezes até um português que continua a manter vivas algumas das coisas que em Portugal são arcaísmos, influencia-me muito. Para já, a não ter complexos quando estou a escrever, e a escrita do português é sempre uma escrita de muita liberdade. Por muito que o português europeu seja mais fechado do que os outros, há uma liberdade".Perguntamos-lhe se gosta mais de escrever as canções ou de as interpretar em palco. "Eu tenho mais necessidade de escrever as canções, partem mais de uma necessidade, mas o prazer está no palco, absolutamente. Até porque nas canções há um alívio, e o alívio pode ser um prazer, mas muitas vezes as canções partem de um lugar de sofrimento. As canções às vezes são ditadoras e partem de muitas angústias, de coisas que eu tenho que abordar e que eu não quero. As canções obrigam-me a isso. Então não associaria tanto a prazer. O palco, sim, o palco é prazer absoluto."O artista admite começar a dedicar-se à escrita de canções para um novo álbum no final deste ano. Até lá, continuará com a sua agenda de concertos, que também vai passar pelo Festival Paredes de Coura, a convite de Sérgio Godinho. "Que é uma coisa que muito me alegra, porque o Sérgio é alguém que eu admiro, antes de ser meu amigo era alguém que eu punha num pedestal na música portuguesa.".Linkin Park no Rock in Rio: um regresso entre a nostalgia e a renovação com Emily Armstrong.Blasted Mechanism no Rock in Rio: "Está tudo pronto para voltarmos a ter outra onda internacional"