Os Blasted Mechanism, banda portuguesa que mistura rock, eletrónica e sonoridades étnicas, fez 30 anos no ano passado. Em julho vão lançar um álbum gravado ao vivo a 12 de abril de 2025 no concerto comemorativo dos 30 anos de carreira, no MEO Arena. Mas as grandes novidades estão reservadas para 2027, quando apresentarem o novo disco e uma imagem renovada. Será um novo ciclo com o objetivo de voltar a internacionalizar, após alguns anos mais focado no público português. Do que aí vem não revelam nada, apenas que o vermelho será a cor dominante.A banda atuou neste domingo, 21 de junho, no Palco Super Bock do Rock in Rio 2026, e conseguiu galvanizar a multidão que se juntou para os ver. O DN falou com Valdjiu, fundador do projeto, e Guitshu, um dos vocalistas. O grupi inclui ainda Fred Stone, Ary, Winga e Riic Wolf.Como é que foi tocar pela primeira vez aqui no Rock in Rio? Guitshu: Foi muito bom. Na realidade, com o calor que estava, é como se o fogo já estivesse em andamento e nós só atiçámos um bocadinho e a coisa rebentou. Valdjiu: Eu acho que ficou ainda mais calor com o público. Quando eu entrei, senti um mar de gente para a frente e para os lados. Sabes, a regra geral está só para a frente, mas estava para a esquerda e para a direita também. Achei incrível, ajudou-nos imenso a criar mais e mais energia para oferecer ao público.Já estiveram noutros festivais, como foi atuar no Rock in Rio?Guitshu: Talvez pela disposição do palco, o facto de ser quase um anfiteatro, ajuda também a ter outra perspectiva das pessoas. Acho que estavam predispostas a fazer a festa conosco. E isso sentiu-se logo desde o início. O que para nós é carvão para aquecer a máquina. Valdjiu: Havia público a chorar. Havia pessoal em excesso mesmo, com a lágrima a cair. Até fiquei preocupado, comecei a distribuir águas. Fizeram 30 anos no ano passado, nasceram com um projeto diferente, difícil de encaixar pela indústria musical. Mas mantiveram-se sempre fiéis à vossa alma...Guitshu: Parte da nossa alma tem a ver com o querermos deixar uma marca no mundo através daquilo que fazemos. Seja utilizando uma componente estética e visual forte, seja através da lírica e dos temas que nós abordamos. E, na realidade, estamos longe de chegar àquela visão que nós gostaríamos, idílica, do mundo. Passados 30 anos parece que estamos aqui numa descida e não há um travão, ninguém puxa o travão. Isso acaba por ser um motor que também que nos faz querer questionar o mundo e a realidade que estamos a viver. E torna-se matéria-prima para músicas e para canções. Valdjiu: Quando se cresce artisticamente nos anos 90, a ideia é ser original. Ninguém queria fazer cópias de nada. Se já há, porque é que vou fazer uma cópia? E o que nós acabámos por fazer foi querer ser mesmo autênticos e também espelhar um bocado o mundo. Então fomos buscar instrumentos étnicos, o didgeridoo, o djembé, desenhámos os nossos instrumentos, criámos também ligações com artistas plásticos, havia realmente uma cultura underground em Lisboa muito interessante. Tivemos apoio de muita gente e de muitos criativos. Acho que os Blasted são um bocadinho como as comunidades de micélio, dos cogumelos, essas redes inteligentes da natureza que estão no solo. Acho que sempre fomos um bocado isso, fomos uma rede, não é só o cérebro de um criativo, mas é o cérebro de vários e do público também. Nós quando damos um concerto destes, vamos para casa e vamos fazer música a pensar nisto. São uma banda com muita força ao vivo e com essa articulação com as artes visuais. É menor agora do que no início?Guitshu: Avizinham-se novidades nesse sentido.O que podem adiantar do que aí vem?Valdjiu: Um novo disco e nova imagem em 2027. Já temos nome, já temos tudo, mas não podemos revelar. Mas vou dizer uma coisa: quando começámos a criar o disco e a criar os fatos, bem, ficou uma aura no estúdio, uau! Quem criou os fatos?Guitshu: Fomos nós. Acabam por ganhar vida própria, estes seres poderiam existir. São mais futuristas, tecnológicos, tribais...?Valdjiu: É tudo o que tu disseste. Na nova imagem nós conseguimos chegar a um ponto incrível, e também temos pessoas incríveis a trabalhar connosco, a equipa do Frederico Ferreira, temos cromos muito bons na nossa caderneta, digamos assim. Mas foram vocês que desenharam os fatos?Valdjiu: Sim, fizemos os fatos, sempre quisemos ser autossustentáveis. E também temos uma ligação com a terra interessante, ambos temos terra, gostamos de cuidar da terra, gostamos de perceber a questão da autossutentabilidade, a permacultura, a agricultura vegetativa, a agrofloresta. O que tu dás à terra, ela dá-te de volta. Isso é uma lição, nas relações humanas, nas relações amorosas, aquilo que nós damos, nós temos de volta. E a terra ensina-nos isso de uma forma muito desprendida e rápida. Não fazem uma separação entre a vossa vida e a da banda?Valdjiu: De alguma forma, não. Guitshu: A música acaba por ser o mesmo, quanto mais damos, mais tiramos também de volta, e há alturas onde perdemos algum encantamento e, na realidade, isso também se materializa depois na música e acho que tudo na vida é isso. Temos que nos apaixonar.Como é que é a vossa presença internacional nesta altura?Valdjiu: Nós tivemos um período gigante internacionalmente. Estivemos assinados na Primary Talent, que é a mesma agência da Madonna, imagina, e dos Wailers. E fizemos Glastonbury, Fusion, Rock for People. Tocámos com os nomes todos, Prodigy, etc... E nos últimos anos decidimos assentar um bocado em terras portuguesas. O público português é bom e é incrível. E há tantos concertos em Portugal... Neste momento, o que nós estamos a planear é mesmo para internacionalizar. Quisemos estar em casa no quintal, sabes? Porque também estivemos a fazer outras coisas. E neste momento está tudo pronto para voltarmos a ter outra onda internacional. Acho que vai ser super interessante. Temos imensas histórias completamente loucas no estrangeiro.Falam sempre em inglês com o público, como aconteceu neste concerto no Rock in Rio?Não sempre. Para o Riic [outro dos vocalistas] é mais fácil comunicar em inglês, porque ele cresceu em Singapura. Então, a língua social dele sempre foi o inglês, e ele expressa-se melhor dessa forma. É o único motivo.Que perceção têm que quem é o vosso público, das pessoas que gostam dos Blasted Mechanism?Guitshu: Eu acho que é tão vasto e tão diferente... É um público mesmo eclético. Uma coisa que nos acontece muito é grupos de amigos que não gostam propriamente do mesmo estilo de música vão ver Blasted Mechanism. Estou a lembrar-me de um grupo na Suíça, quando atuámos em Basel, que chegaram ao pé de nós e um era metálico e um reggae, completamente diferentes. E diziam que não ouviam a música uns dos outros...Valdjiu: Eu acho que nós conseguimos isso acidentalmente, porque nada é muito pensado. As pessoas olham e acham que devemos pensar imenso, mas nós não pensamos muito, na realidade. Nós acabamos por construir e criar no presente e vamos modelando. Fazemos uma modelação com o que há, com o que vem, com o que aparece e, de repente, vão emergindo coisas incríveis na banda, e nós reconhecemo-las. E essas coisas são a fusão de muita música do mundo com eletrónica, com power. E depois, quando vamos para cima do palco, queremos é partir tudo. Essa é a nossa intenção. Quando a coisa está fraca, parece que falta qualquer coisa.Guitshu: Temos essa energia do fogo que parece um vulcão. E mesmo quando, no início, não são o nosso público, enquanto não se começarem a mexer, não paramos. Como é que nascem as músicas, é um processo coletivo?Valdjiu: Fazemos improvisação, fazemos recolha de material num ambiente mais intimista, com menos instrumentos, vamos à procura de ideias, escrevemos umas letras, temos conversas à volta de tópicos...Guitshu: Surgem de discussões e depois escreve-se e vai-se limando. Vamos vendo com o que é que estamos confortáveis, com o que não estamos confortáveis, e molda-se para que faça sentido a toda a gente. Há muito improviso e há coisas que surgem em jam. Uma das últimas músicas que irá estar no próximo álbum saiu de jam. Em que fase está o novo disco?Valdjiu: Está feito. Tem nome, está batizado, tem imagem. Neste momento é um filho que carregamos e que estamos a gravar. As maquetes estão feitas e agora estamos a gravar tudo cuidadosamente, e é aqui que vem o input do resto dos músicos. Nós criamos com um núcleo mais pequeno e depois abrimos para a bateria, para as percursões. O nosso percursionista, o Winga, estuda muito a percursão africana. E quando nós lhe passamos as músicas, fica impressionante.Estão prontos para mais 30 anos? Valdjiu: Acho que não vou durar tanto tempo. Guitshu: Enquanto os Rolling Stones andarem aí...Valdjiu: Gostava de morrer preferencialmente em palco. .NAPA no Rock in Rio: "Os números de 'Deslocado' continuam a surpreender-nos diariamente".Rock in Rio: Nena dá um vislumbre do novo disco que lança em outubro