Num drama histórico, o que está primeiro: a clareza dos acontecimentos ou a demanda das emoções? É entre estas duas forças que se move o novo filme de Michael Winterbottom, por um lado, comprometido com a complexidade do seu assunto, por outro, à procura de um gancho humano que suavize a entrada num ambiente, digamos, de insegurança permanente. Para resolver a primeira questão, A Terra Prometida (não confundir com o outro A Terra Prometida que se estreia esta semana, protagonizado por Mads Mikkelsen) arranca com uma sequência de imagens de arquivo e narração em off a contextualizar a época e o lugar que vão ser retratados. Já a dimensão humana fica a cargo dos protagonistas, desde logo, Shoshana, a narradora da história, que não nos deixa instalar no cenário de Telavive sem esclarecer à partida o clima político que a envolve. Posto assim, é evidente que Winterbottom priorizou a clareza dos acontecimentos. A Terra Prometida, ou Shoshana, no título original, veio sendo desenvolvido ao longo de 15 anos, e sente-se que o realizador quis garantir a máxima compreensão de um capítulo histórico muito pouco abordado pelo cinema: o Mandato Britânico da Palestina pós-Primeira Guerra Mundial, e em particular a violência que marcou o quotidiano de Telavive no final dos Anos 30, com as tensões ao rubro entre os árabes e os colonos sionistas, mais a ação “pacificadora” da polícia britânica sobre eles. Acedemos então a este capítulo através de Shoshana Borochov (1912-2004), filha de um sionista socialista russo, que sonhara com uma Israel fundada sobre a convivência amena entre árabes e judeus - sonho partilhado pela própria -, e do romance dela com Thomas Wilkin, um polícia britânico de uma equipa antiterrorista, que tinha como missão apanhar o líder do grupo paramilitar sionista Irgun, Avraham Stern, responsável por múltiplos bombardeamentos contra árabes e contra a potência ocupante. Pois bem, por ser judia sionista e integrante de outra força de resistência comparativamente mais moderada, o Haganah, a nossa narradora tende a nunca poder desfrutar de um amor sereno com Wilkin, que não é uma figura neutra, e os ataques que se veem nas ruas acabam por refletir-se na relação magoada do casal. Procurando captar sobretudo a atmosfera daqueles dias numa recém-construída Telavive, em que tanto se debate política nos cafés das docas com uma certa sofisticação, como se corre perigo a caminhar sozinho em plena luz do dia, Winterbottom faz resvalar o drama histórico para o thriller político, mas mantém-se sempre agarrado ao fio emocional das personagens - este que se agrava com um terceiro protagonista, o agente Geoffrey Morton, cuja atuação brutal não combina com a postura do colega Wilkin. Ou seja, no panorama de A Terra Prometida, a vida não está fácil para os moderados. Seja uma mulher livre e atraente, ativa dentro do seu círculo social, como Shoshana, seja um polícia bom, que reconhece as zonas cinzentas da realidade, como Wilkin. Entre os factos e o tratamento da ficção, o realizador conseguiu trabalhar com solidez e alguma elegância romântica um território cheio de armadilhas discursivas - haverá, claro, quem estabeleça uma linha direta entre a produção do filme e o atual conflito na Palestina, mas a verdade é que este projeto antigo de Winterbottom teve estreia no Festival de Toronto em setembro, e o seu olhar é mais focado na arrogância britânica do que na luta entre árabes e judeus. De qualquer modo, no período retratado, que antecedeu a fundação do Estado de Israel, em 1948, estão as sementes de tudo o que se vê agora e nunca cessou de existir. Com um percurso extenso e instável, que inclui cinema e televisão, e apesar de ser mais conhecido pela série de filmes ligeiros A Viagem (com a dupla cómica Steve Coogan e Rob Brydon), Michael Winterbottom tem mantido um interesse notório em narrativas à volta de zonas de conflito, como são disso exemplos o seu Bem-vindo a Sarajevo (1997), Neste Mundo (2002) e, em especial, o recente documentário Eleven Days in May (coassinado por Mohammed Sawwaf), inédito entre nós, que se centra na vida em Gaza e nos bombardeamentos que aí aconteceram em maio de 2021, por parte de Israel. Não é, por isso, de estranhar o seu mergulho numa era e num lugar que testemunharam o princípio de uma violência sem fim. Não só pelo pragmatismo do realizador britânico, mas também pela justeza do par principal de atores, Irina Starshenbaum e Douglas Booth, que responde a uma sobriedade bem jogada, A Terra Prometida consegue sobreviver ao seu próprio debate interno entre a explicação histórica e as emoções. É verdade que prevalece uma consciência fria sobre os momentos apaixonados do par - um estado mental influenciado pelas muitas paredes brancas e pela ameaça constante de explosões ou ataques em ruas silenciosas -, mas a escolha de apertar o nervo do thriller e fixar as nuances políticas do contexto, em vez de açucarar o romance, torna-se a atitude inteligente deste drama.