Há todo um cinema contemporâneo, das mais variadas origens geográficas e culturais, que se baseia numa “ideia” moralista, supostamente redentora, segundo a qual as gerações mais jovens passam o tempo a resgatar as memórias mais ou menos obscuras dos pais. Revelado no Festival de Cannes de 2025, Romaria, escrito e realizado pela cineasta espanhola Carla Simón, é mais um exemplo esclarecedor do estilo, e sobretudo dos limites, de tal cinema.Claro que os movimentos das gerações são um sugestivo espelho das clivagens entre o “velho” e o “novo”. Acontece que há uma diferença entre convocar uma galeria de figuras humanas para tentar compreender as suas singularidades e fazê-lo para garantir uma “mensagem” que parece estar decidida e enunciada antes mesmo de qualquer trabalho narrativo.A ação de Romaria passa-se em 2004. Seguimos uma jovem de 18 anos, Marina (Llúcia Garcia), de visita aos familiares de Vigo, numa dupla demanda: tentar obter uma bolsa para estudar cinema e procura saber como foram os tempos finais do seu pai. Há uma dor latente que parece contaminar tudo e todos, ainda que Marina, tentando “regressar” aos tempos de enamoramento dos pais, seja a que mostra mais dificuldade em lidar com um passado que, aparentemente ou não, parece conter factos recalcados pelos familiares...Não se discute a verdade emocional dos elementos narrados, até porque a realizadora esclareceu que partiu de elementos das suas memórias e da história da sua família. Resta saber qual o trabalho (cinematográfico) que é feito com tudo isso.Este é, de facto, um daqueles filmes dependente de um modelo hoje em dia corrente, rodado com uma câmara à mão numa linguagem de “reportagem” em que a vibração dos espaços é pouco mais que decorativa, não havendo qualquer sentido consistente do valor dramático do tempo.As coisas complicam-se quando, ao entrar no último terço (quando será preciso resolver as linhas cruzadas dos acontecimentos), Romaria propõe uma revisitação da juventude dos pais, atribuindo à própria Llúcia Garcia o papel da mãe, sendo o pai assumido por Mitch Martín, o mesmo ator que interpreta Nuno, um dos primos de Marina. A longa sequência de flashback, com o seu simbolismo redundante e a inevitável voz off “descritiva”, é sintomática dos limites narrativos desta visão que acredita na redenção dos mais jovens. É uma visão tocante, sem dúvida — resta saber se é suficiente para fazer um cinema um pouco mais que novelesco.