É um dos mais ativos e recorrentes atores do cinema italiano. Riccardo Scamarcio tem carisma e é suficientemente moldável para estar sempre em plano de evidência. Alia um olhar de matador a uma raça muito latina. Por estes dias parece estar com uma maturidade notável, talvez por isso esteja muito requisitado no cinema internacional, em particular em Holly-wood - vimo-lo recentemente em Mistério em Veneza, de Kenneth Branagh e, não há muito, na saga John Wick como vilão competente.Na sua filmografia percebe-se que alguns dos grandes cineastas fazem questão de o chamar: de Nanni Moretti a Woody Allen passando por Paolo Sorrentino, mas também está disponível para produtos mais comerciais, como Corrida para a Vitória, de Stefano Mordini, por sinal já nos cinemas nacionais a partir da próxima semana - uma odisseia sobre uma famosa disputa no Campeonato de Ralis entre a Lancia e a Audi. Em Lisboa, durante a Festa do Cinema Italiano, Scamarcio quis sobretudo falar de A Sombra de Caravaggio, de Michele Placido, a história do mítico pintor italiano. Percebe-se nesta conversa que é um artista ambicioso e com o tal olhar de perigo - perfeito para o próximo pintor que lhe caiu em sorte em Modi, o biopic de Modigliani, realizado por Johnny Depp, com estreia prevista para depois do verão. Certos papéis mudam a vida de um ator. Será que o peso e a responsabilidade de interpretar Caravaggio mudou algo em si? Digamos que foi intenso, mas não quero afirmar que há um antes e um depois deste filme. Mas o Michele Placido, quando me abordou para este papel, foi algo ameaçador: “Queres mesmo fazer este filme? Percebes o que estou a tentar fazer?!” Mais do que tudo, para ele, filmar esta história era falar destes dias atuais da cultura do cancelamento. Compreendi que queria mesmo ter a certeza de que eu tinha ganas de me atirar a este papel. A Sombra de Caravaggio é um discurso pessoal e político do Michele Placido face ao que já vimos: uma série de atores a serem destruídos publicamente devido a essa política do cancelamento e, depois, a Justiça, a inocentá-los... Basta pensar em Johnny Depp, Woody Allen ou Kevin Spacey. E claro que disse logo que sim! Qual o ator que não ser o Caravaggio!?Às vezes há que ter a disponibilidade emocional para personificar alguém tão intenso. Sim, ele era muito intenso. Um homem cheio de energia e paixão. Por outro lado, não foi assim tão difícil para mim, porque essa atitude caótica perante o trabalho é algo que eu conheço. Mas foi um papel puxado, com tanto movimento, pintura e cenas de espadachim. Além do mais, sempre com esse tom de alucinado. O Caravaggio também se drogava! Aliás, a toda a hora: o homem metia tudo o que podia. Ele até snifava um dos materiais que usava para limpar as tintas..Este seu Caravaggio parece ser um homem entre a divindade e o inferno. Sim, ele era incrível! Um homem muito culto e especializado nos temas do Evangelho. Ele conhecia de cor a Bíblia por ter estudado num seminário. Mas depois foi cancelado pela Igreja Católica durante 250 anos!Tem um impressionante registo na sua filmografia. Fica-se com a sensação de que não para nunca de filmar. Ao fim de tantos filmes o que o faz mover? Como é que mantém a paixão de estar num plateau? Porque adoro representar..Será que é um vício? Não o será, porque também adoro a vida para além das filmagens. Adoro relaxar, não sou um workaholic. Não sei, a verdade é que gosto da dinâmica dos locais de filmagens e, como ator protagonista, adoro fazer com que a equipa não perca o ritmo. Quando os protagonistas agem de forma demasiado séria, o ambiente num plateau fica pesado, mas com isso não estou a criticar ninguém. Para mim, é importante que haja diversão no trabalho. Nas festas, nos fins de rodagem não sou o tipo que gosta de dançar, sou antes aquele que mete música. Enfim, gosto de organizar a diversão. Num plateau represento dois papéis: o da personagem e o da estrela de cinema que entretém a equipa. Conto anedotas, interajo e isso é fundamental: eles são o meu primeiro público. Dessa forma, todos estão focados em cada cena. Quando se ouve a palavra “ação” isso é sagrado! Agora, desde que mudámos da película para o digital, às vezes parece que se perde essa noção do sagrado, pensa-se sempre que dá para fazer mais um outro take. Se não levarmos isso para o sagrado, tudo isto perde peso e parece que estamos antes a fazer audiovisual ou séries. Isso não é cinema. Pelo amor de Deus, o cinema é uma arte do protótipo.Tem trabalhado com grandes cineastas. Há uma sensação, para si, de fazer uma espécie de coleção? Sim, trabalhei com os melhores, mas ainda não apanhei uma obra-prima! Já fiz um par de papéis que me deixam orgulhoso, mas falta-me um filme que, em si, seja uma obra-prima.E anda atrás dessa obra-prima? Ando, ando, quem sabe um dia eu consiga!? Isto do cinema nunca se sabe - muitas vezes pensamos ter feito algo sensacional e, depois, vemos o filme e percebemos tratar-se de um desastre. Também já me aconteceu estar a fazer um filme que julgava penoso e depois, vai-se a ver, e saiu algo incrível!