"Naquela altura, havia realmente dois grupos na área militar: um grupo que era radical, revolucionário, e havia um outro grupo, que era moderado, democrático e legalista.” As palavras são de António Ramalho Eanes, logo no início do documentário intitulado Recordar o 25 de Novembro, realizado por Armando Seixas Ferreira e promovido pelo Ministério da Defesa Nacional e pela Comissão para as Comemorações do 50.º Aniversário do 25 de Novembro de 1975, em parceria com a RTP. O DN conversou com o autor do filme sobre esta data da História de Portugal, que permite mais perguntas do que respostas, apesar de haver factos. “Este documentário é um contributo para que esses factos sejam conhecidos pelo público”, garante Armando Seixas Ferreira.O desafio lançado pela comissão organizadora foi, desde o início, explicar ao grande público o que esteve em causa naquele dia, enquadrando-o num processo histórico mais vasto, iniciado com o 25 de Abril de 1974 e marcado por uma sucessão de crises políticas, militares e sociais, explica Armando Seixas Ferreira, sublinhando que o filme foi feito “com os meios disponíveis no Ministério da Defesa”.O autor, que foi jornalista na RTP, é atualmente assessor de imprensa do Ministério da Defesa Nacional, porém, garante ter tido toda a liberdade para fazer o documentário, “escolher os momentos mais importantes do 25 de Novembro e escolher as personalidades” que protagonizaram aquele momento histórico, até porque o detentor da tutela da Defesa, Nuno Melo, de acordo com o relato de Seixas Ferreira, só viu o documentário na primeira apresentação pública, que decorreu no Cinema São Jorge, em Lisboa, no dia 10 de dezembro de 2025. O filme ainda poderá ser visto no Auditório Almeida Garrett, no Porto, a 13 de fevereiro, antes de ficar disponível no portal do Ministério da Defesa.Tudo começa com a data fundadora da democracia em Portugal, explica Seixas Ferreira, porque, sublinha, “é preciso também termos a consciência de que o 25 de Novembro só acontece porque há o 25 de Abril de 1974”.Há muitos episódios aludidos no filme, “desde a saída do marechal Spínola, a entrada de Costa Gomes, o 11 de Março, o início do PREC [Processo Revolucionário em Curso], o 28 de Setembro, o início do Verão Quente, e depois uma série de situações, desde a reforma agrária, mandados de captura em branco, o cerco do CDS, no Porto, no Palácio de Cristal, o cerco da Assembleia da República”, elenca o autor.O primeiro argumento de Armando Seixas Ferreira para a realização do documentário é precisamente a memória, porque tudo aconteceu “há 50 anos”, motivo pelo qual o público “já não tem conhecimento do que se passou”.“Não é o facto de ser um tema que não é consensual que não se deva fazer um trabalho sobre o 25 de Novembro. Eu acho que é mais uma razão para se fazer um documentário sobre o 25 de Novembro”, justifica.Um dos eixos centrais do documentário é a figura do general Ramalho Eanes, que funciona como fio condutor da narrativa. Entrevistado de forma exclusiva, numa das raras ocasiões em que aceitou falar publicamente sobre o 25 de Novembro, Ramalho Eanes surge como personagem-chave não apenas pela coordenação militar das operações, mas também pela forma como, no filme, simboliza a tentativa de reunificação das Forças Armadas em torno dos ideais de Abril, relata Armando Seixas Ferreira.O filme sublinha o papel do chamado Grupo dos Nove, liderado politicamente por Melo Antunes e coordenado, no plano militar, por Ramalho Eanes, como resposta organizada à fragmentação e à insubordinação existentes no seio das estruturas militares.Aliás, a primeira pergunta de Armando Seixas Ferreira a Ramalho Eanes questiona o general sobre “quando é que percebeu que os ideais de Abril estavam em perigo e era preciso agir”.“As Forças Armadas estavam desinstitucionalizadas, não tinham hierarquia, não tinham unidade, não tinham disciplina”, explica Ramalho Eanes.Ao longo do documentário, são apresentados dilemas, como a ausência de consensos, a pressão para agir rapidamente, o risco de confrontação armada entre fações militares e a possibilidade de uma deriva autoritária, à esquerda ou à direita. A reunião em Belém, com o Presidente da República, Costa Gomes, hesitante entre a busca de consensos e a necessidade de ação imediata, surge como um momento de viragem. A posição de Melo Antunes, defendendo que já não era tempo para consensos, mas para agir, é mostrada como determinante para o desfecho dos acontecimentos.O documentário não foge às zonas cinzentas da História. Episódios como a tentativa de golpe de Estado, no sentido contrário ao que acontecera no 25 de Abril, a 11 de Março de 1975, são revisitados com testemunhos diretos, levantando hipóteses que permanecem em aberto, como uma hipotética manipulação de Spínola - que o terá também conduzido à tentativa de golpe no 28 de Setembro de 1974 - ou a existência de um clima de conspiração e desinformação. A chamada “maioria silenciosa”, a “matança da Páscoa” e o mistério em torno das lideranças efetivas de algumas ações são abordados sem conclusões fechadas, deixando espaço à reflexão do espectador.No plano operacional, o filme descreve a intervenção dos comandos, o papel decisivo da Força Aérea - com a deslocação de pilotos para Cortegaça e os voos rasantes sobre Lisboa e Setúbal -, a postura expectante e não-interventiva da Marinha e as divisões internas em corpos como os Fuzileiros e os Paraquedistas. Episódios sensíveis, como a tomada do Quartel da Ajuda e as três mortes registadas, são enquadrados na lógica de uma operação que, segundo os protagonistas entrevistados, procurou sempre minimizar baixas e evitar uma escalada irreversível de violência.Presentes e ausentes a nível político e militarA dimensão política está presente, mas de forma contida. Nuno Melo surge no documentário enquanto ministro da Defesa e impulsionador das comemorações, assumindo uma leitura política clara: sem o 25 de Novembro, não teriam sido possíveis as eleições livres que se seguiram - legislativas, presidenciais e autárquicas -, nem a consolidação da democracia constitucional.A ausência de uma contraparte partidária é assumida como consciente pelo autor do filme, que privilegia os testemunhos dos operacionais militares em detrimento de uma confrontação política direta, num filme que não pretende esgotar o tema, mas antes abrir caminho a outros olhares.Figuras como Otelo Saraiva de Carvalho (líder do Comando Operacional do Continente - Copcon), Vasco Gonçalves (primeiro-ministro, que neste processo viria a ser substituído por Pinheiro de Azevedo) ou Vasco Lourenço (que substituiu Otelo no Copcon) são evocadas, mas não surgem no filme na primeira pessoa.No caso de Vasco Lourenço, a ausência resulta da sua “autoexclusão” das comemorações oficiais, justifica Armando Seixas Ferreira. No ano passado, no dia 25 de Novembro, em declarações à CNN, o coronel, um dos que protagonizou as duas datas históricas, defendeu que “equiparar o 25 de Novembro ao 25 de Abril é uma injúria ao 25 de Abril”.Quanto a Otelo, a opção do realizador foi a de o retratar apenas através da perceção dos entrevistados, evitando “criar juízos de valores - porque depois não poderia rebater” - sobre uma figura que continua a suscitar leituras contraditórias da História recente.“Otelo era um bom homem, um bom militar, mas era um indivíduo que mudava de opinião consoante as pressões que fossem feitas, e naquele período teve um comportamento um pouco errático”, descreve Ramalho Eanes durante o documentário.Produzido num curto espaço de tempo - cerca de mês e meio -, com meios do próprio Ministério da Defesa e sem custos para os contribuintes, sublinha o realizador, o documentário surge como um exercício de serviço público, apoiado na riqueza do arquivo histórico da RTP. Mais do que oferecer respostas definitivas, propõe-se a contextualizar decisões e sublinhar a complexidade de um momento cujo desfecho, segundo o documentário, não estava garantido.Cinquenta anos depois, este filme procura retirar o “25 de Novembro do esquecimento”, explica Armando Seixas Ferreira, assumindo que “aconteceram situações graves que, ainda por cima estão documentadas em imagem, que merecem ser do conhecimento do público. E foi isso que eu fiz, contribuir para a verdade.”.Ministério da Defesa estreia o documentário "Recordar o 25 de Novembro" com a presença de Nuno Melo.25 de Novembro. Marcelo evoca D. Pedro, Ventura retira os cravos e PCP fala em "menorizar o 25 de Abril".25 de Novembro: Partidos dividem-se entre “reconciliação” e “ajuste de contas com o 25 de Abril”