Longe vão os tempos em que o inglês Jonathan Glazer era conhecido como o rei dos telediscos no Reino Unido. Era a altura da explosão os Massive Attack, Jamiroquai e Radiohead. A sua entrada em cinema teve culto local com o muito divertido Besta Sexy, em 2000, um dos papéis da vida de Ben Kingsley numa ideia de filme de gangsters invertida. Depois, tornou-se cineasta raro – só filmava quando lhe apetecia mas sempre com algum estrondo. Primeiro chegou o thriller provocatório Birth- o Mistério, em 2004, obra que ganha cada vez que é revista e, depois, em 2013, essa obra-prima com Scarlett Johansson como ser extraterrestre chamada Debaixo da Pele, ficção-científica sensorial que tentava trazer para o cinema outras linguagens sensoriais..Agora, depois da seleção e do Grand Prix em Cannes, é lícito falar-se em aclamação, ainda para mais depois de nomeações nos European Film Awards, Golden Globes e distinções nas associações dos críticos. E é certo e muito garantido que para a semana deverá estar na lista dos Óscares onde parte como favorito destacado na categoria de melhor filme internacional (é inteiramente falado na língua de Goethe) e, mais tarde, nas nomeações dos BAFTA, os prémios da Academia britânica..Toda esta reverência é explicada, claro, pela qualidade real do objeto, mas também sobre a importância “filosófica” do que está em causa: refletir sobre a banalidade do mal a partir do livro homónimo de Martin Amis, falecido uns dias depois da estreia do filme em Cannes. Por muito que os méritos da obra se elevem perante o tema, a chamada importância do que aqui está em causa ajuda à sua notoriedade. Como que o rótulo de “filme importante” se sobrepusesse a tudo. E o tudo aqui é muita coisa..Uma casa alemã, com certeza.Quem leu o livro Amis será certamente confrontado por uma liberdade ambivalente trazida por Glazer nesta adaptação. O cineasta não privilegia suportes ou técnicas narrativas, vai antes por outros caminhos, algures entre a criação de ambientes e a exploração com os sons e música, prefere sim desencantar uma imagética do mal e do bem na qual está implícita um murmúrio de terror. Se quisermos, a proposta gravita em torno de uma possibilidade de alguns códigos de cinema de terror. A pergunta que a premissa faz é simples: como seria a vida familiar de Rudolph Hoss, o oficial nazi que comandava as operações no campo de concentração de Auschwitz. A câmara segue o dia-a-dia dos Hoss, uma família em paz com um ideal de lar paradisíaco, mesmo nas traseiras do horror que ignoram. Para Hedgwig, a esposa, a construção desse paraíso é o objetivo principal dessa sua função de matriarca, projetando um futuro de felicidade para os seus filhos num local que lhe oferece paz, contacto com a Natureza e as regalias de um serviço de criadagem. A espaços, os fumos das câmaras de gás são ignorados, tal como alguns prisioneiros do campo de concentração que discretamente ajudam na jardinagem. Pelo meio, alguns gritos de desespero de judeus à porta da morte. Um dia-a-dia a cuidar da horta e a não querer olhar perante a cerca, ou seja, o quotidiano de uma casa de campo alemã à beirinha de um horror que é ignorado, um pouco como agora nos acontece a todos perante estas guerras que estão também ao lado dos nossos quintais, em simultâneo com as brincadeiras das crianças..Mica Levi, o som que pára tudo.Esse “home movie” muitíssimo campestre é filmado de forma gelada. Aquele gelo e fantasmagoria opaca habitual de Glazer que ainda acentuam mais esse conceito de exposição da banalidade do mal. Em fundo, mas com fôlego de protagonismo, está toda a criação de ambientes geométricos e secos, na qual a genial música de Mica Levi submete a tensão para a tal ante-câmera do horror, sendo que a trave-mestra desta operação são cortes no ecrã a vermelho, imagens de contos de fada em negativo sem cor e, golpe de asa, uma visita ao percurso atual turístico de Auschwitz. É daí que nasce um medo que não se define, que não estava no cânone do chamado “filme de holocausto”. Como um conto de fadas em que se ouvem ao fundo som de metralhadoras enquanto as crianças louras brincam nas margens do rio em dias de sol. Um éden da negação..Filme de vários elementos e tons, The Zone of Interest de forma digna manda às urtigas os emparelhamentos das estruturas narrativas clássicas, está muito mais próximo da chamada intervenção artística de “cinema de galeria”. Às vezes, em busca da sua própria tese, torna-se vítima do seu excesso de ensaio conceptual. Como bónus, os atores alemães são todos prodigiosos na sua frieza, em especial Sandra Huller, conhecida dos portugueses de Toni Erdmann e O Espaço Entre Nós , ela que deverá estar em destaque nos Óscares com Anatomia de uma Queda, de Justine Triet, a besta negra deste filme na temporada dos prémios..Importa ainda lembrar que todo o estardalhaço de “prestígio” nos EUA parte de uma estratégia da label A24, a mesma de obras como Tudo em Todo o Lado ao Mesmo Tempo e Minari. Tudo o que a A24 toca torna-se, assim dizendo, “apetecível”. Mas, reforço, mesmo não se amando, este novo Glazer é fulcral para discutir a invisibilidade dos monstros.