Os fãs da série portuguesa Rabo de Peixe têm a partir desta sexta-feira, 10 de abril, mais uma temporada para ver na Netflix. É a terceira e última. E se a segunda temporada era sobre perigos maiores e "consequências", como disse na altura Augusto Fraga, criador da série que tem sido um sucesso na plataforma de streaming, nestes seis últimos episódios a palavra de ordem é outra."Justiça. Esta temporada é sobre justiça e é sobre encontrar aquilo que eles realmente precisam. Os nossos protagonistas chegam todos a uma zona em que descobrem aquilo de que precisam e não aquilo que eles querem. São coisas diferentes", diz Augusto Fraga ao DN. O argumento foi escrito com base num acontecimento real, ocorrido em 2001, quando um veleiro com meia tonelada de cocaína a bordo naufragou e grande parte da droga deu à costa próximo de Rabo de Peixe, na ilha de São Miguel, nos Açores.Esta derradeira temporada é, para o criador, a melhor "em termos de execução, de escrita e de craft, de realização, de som e de imagem", e permite conhecer melhor algumas personagens. "A terceira temporada aprofunda mais no lado humano, que foi uma coisa que nós não tivemos tanto tempo para desenvolver na primeira e a segunda temporada. Esta terceira permitiu-nos aprofundar mais cada uma das personagens, sobretudo aquelas que não conhecíamos tanto, como a Inspetora, como o Rafael, e tentar perceber de onde é que eles vêm, perceber o passado e o que estava por trás de muitas coisas que nós conhecíamos deles.".Não haverá mais temporadas desta história que tem no centro as figuras de Sílvia (Helena Caldeira), Eduardo (José Condessa), Rafael (Rodrigo Tomás) e Carlinhos (André Leitão), mas foi assim que ela foi pensada desde o início. "Foi uma decisão à partida, já na escrita. Quando escrevemos a segunda e a terceira - escrevemos em conjunto -, queríamos fechar uma grande história de três capítulos, três atos. E queríamos fechar enquanto ela fosse verdadeira, enquanto ela tivesse um impacto grande e enquanto sentíssemos que tínhamos coisas para contar", revela Augusto Fraga. O realizador e guionista diz que a terceira temporada era "necessária", e que a história "fecha onde tem que fechar, onde é tudo verdade, onde ainda é tudo importante". Sobre se o sucesso internacional de Rabo de Peixe abre as portas a mais produção portuguesa nas plataformas de streaming, Augusto Fraga considera que sim, diz que "Portugal passou a ser também um dos países que pode produzir êxitos internacionais e tem histórias para contar, está provado, tem sítios inacreditáveis para mostrar, tem talento que pode estar à frente das câmaras e atrás. Portanto, imagino que seja o caminho a seguir, tanto para a Netflix como para as outras plataformas de streaming". Augusto Fraga sublinha a importância da Netflix para que este projeto tenha sido um sucesso. "Foi um parceiro incrível e sem a Netflix não existiria Rabo de Peixe, não existiria a projeção desta série, porque eles acreditaram no conceito original, mas depois também acompanharam o processo todo para que fosse o êxito que é", afirma, não excluindo a possibilidade de voltar a trabalhar com a plataforma noutras produções..Nesta terceira temporada, os quatro amigos decidem criar o movimento “Justiça da Noite”, com a ajuda da comunidade local, "que opera nas sombras para devolver o poder àqueles que foram silenciados durante demasiado tempo. Mas, à medida que a revolta cresce, a linha entre resistência e violência torna-se cada vez mais frágil: quando a justiça é feita à noite, alguém paga o preço à luz do dia", diz a sinopse destes últimos seis episódios de Rabo de Peixe. Sobre o final desta história, os quatro protagonistas dizem ter ficado satisfeitos. "Eu adorei o final. Sem ser spoiler, eu acho que o final é incrível, acho que é a essência da série. É uma resposta um pouco egocêntrica, mas somos os quatro, que é essencial para os personagens desde o início, no mar a olhar para a ilha que é mundo deles. Não há nada mais poético e bonito do que essa imagem final", diz José Condessa em resposta à pergunta do DN. "É um bom desfecho, estamos satisfeitos", corroboram Helena Caldeira, Rodrigo Tomás e André Leitão..O melhor momento da gravação desta terceira temporada para Helena Caldeira, foi mesmo o fim. "O fim, fim, mesmo. Foi uma superação para mim a nível pessoal, porque tenho medo do mar, mas foi fixe. Já apaziguei o medo e curti saltar para o mar e estar ali", sublinha. "Além da cena final que é emotiva por si só", diz José Condessa, "gostei muito de gravar aqueles três dias de uma cena de sequência, em que andamos a fugir dos Puxiga, foram três dias de ação e de corrida e de muitos quilómetros nas pernas, cansou-me muito, mas foi maravilhoso". Sobre o pior momento das gravações, o ator lembra uma cena. "Eu não costumo ter medo, sou até meio tranquilo nessas coisas. Mas, sem saber, fiquei com medo de uma coisa, numa das cenas. Houve uma altura em que estive cerca de meia hora seguida com um saco fechado na cabeça, a respirar lá dentro. E num dos takes, como eu estava preso com as mãos na parte de trás do carro, comecei a panicar. Mas foi só um bocadinho". .Rodrigo Tomás também tem uma história para contar, quando lhe perguntamos sobre o melhor e o pior momento das gravações desta terceira temporada. "Era um dia em que eu gravava duas cenas, uma ao final da manhã e outra à noite. E aquilo no papel era uma cena de nós no barco, era uma cena divertida. A da noite era 'Rafael entra na igreja', era a descrição da cena. E depois chego lá e começo a ver bombeiros, chuva e tudo mais. E fiquei deitado numa pedra encharcado, de tronco nu, todo molhado. E essa foi a cena mais desagradável que eu tive a gravar.""Acho que é essa entrega que faz a diferença", aponta José Condessa, destacando que a série é exigente a nível físico - e também a nível emocional, acrescenta Helena Caldeira.André Leitão lembra-se de um dia em particular, de que gostou muito durante as filmagens desta última temporada. "Passámos o dia todos juntos. Tínhamos duas equipas a filmar, passámos de uma equipa para a outra. Estivemos muitas horas a filmar, e eram sempre cenas juntos, de grupo. Começou na lota da dona Valentina, da minha mãe e do Carlinhos. Foi uma cena super descontraída, feliz, tranquila, eu senti que estávamos na zona mesmo. E depois tivemos que jantar a correr, porque a nossa outra equipa já estava à espera. E fomos para a outra equipa, a fazer uma coisa completamente diferente. Mas o espírito desse dia foi muito agradável. Eu gostei muito desse dia. Foi muito cansativo, mas foi muito agradável"..Perguntamos qual tem sido o impacto nas carreiras deles do sucesso da série. "Subi os cachês um bocado", responde Rodrigo Tomás, entre risos. "Tem todo o impacto", afirma José Condessa. "Principalmente se sairmos aqui do universo português e percebermos que um elenco português tem a oportunidade de fazer uma série desta qualidade e que acaba por ser vista tanto, pelo mundo todo. É um privilégio para nós e muda-nos completamente a vida e a carreira. Mesmo que não façamos mais nada - que felizmente não vai acontecer -, está marcada de alguma maneira uma fase antes e depois de Rabo de Peixe na ficção nacional e em nós como atores. Foram ao todo quase quatro anos de história a ser criada, e nós próprios mudámos muito ao longo disto. Isto é muito bonito de lembrar.Helena Caldeira concorda, e considera que "esta série vai provavelmente marcar um período na história da ficção nacional e uma geração. A nossa geração. Eu acho que esse é o grande marco". .André Leitão é pragmático: "O facto de nós fazermos uma série para uma plataforma que está acessível no mundo inteiro e de termos tido a sorte da série ter sido bem-sucedida, implica automaticamente que muito mais gente tem acesso ao nosso trabalho e se aproxima de nós enquanto artistas, enquanto atores. Há oportunidades, abrem-se portas, porque literalmente há muito mais gente a ver o nosso trabalho", sublinha.Nesta terceira temporada estes quatro protagonistas, Helena Caldeira, José Condessa, Rodrigo Tomás e André Leitão estão novamente acompanhados por Maria João Bastos, Salvador Martinha, Afonso Pimentel, Kelly Bailey e Victória Guerra. E também se juntaram ao elenco algumas novas caras, como Joaquim de Almeida, Ângelo Rodrigues e Inês Castel-Branco.Ângelo Rodrigues acha interessante a série basear-se numa história verídica e de ele próprio, quando viu a reportagem na televisão sobre o assunto, ter visto o seu potencial e de até ter falado com uma colega sobre a possibilidade de fazerem um documentário sobre ela. "Mas não do lado ficcional, mais para descobrir o que é que aquela droga poderia ter feito a alguns intervenientes. Ou seja, ver como é que estão certas famílias, que se sabe terem tido contacto com a droga, passado este tempo todo".O documentário não chegaria a ser feito, mas "depois deu tudo certo e vim fazer parte do universo. Portugal tem boas histórias para contar, e ainda bem que esta série teve repercussão mundial, que é para colocar os holofotes um pouco sobre Portugal", diz o ator ao DN. .Maria João Bastos também destaca o que a série representa para a produção nacional. "Para mim o aspeto mais interessante de participar nesta produção foi, sem dúvida, o lugar onde ela pôs Portugal a nível internacional. O ter mostrado a indústria portuguesa ao mundo", diz a atriz ao DN. "Fazer uma série vista em 193 ou 196 países, estar no top 10 de mais de 30 países, mostrou o nosso trabalho, o nosso talento, da escrita, da realização, dos atores, da produção e da indústria portuguesa. Eu acho que isso foi de uma enorme importância para abrir outras portas para mais talento e para mais oportunidades. E fazer parte disso, para mim, foi um privilégio", acrescenta.Ambos os atores sublinham a "portugalidade" desta história. "Não tivemos repercussão internacional com uma história que não tem nada a ver conosco. O mais bonito é a portugalidade da história que interessou ao mundo inteiro", sublinha Maria João Bastos. .Série 'Rabo de Peixe', inspirada em história real nos Açores, volta à Netflix.Netflix prepara documentário sobre história que inspirou série "Rabo de Peixe"