Marilyn Monroe nasceu a 1 de junho de 1926. O seu centenário tem sido celebrado com múltiplos ciclos dos seus filmes, mas também através das fotografias, algumas verdadeiros ícones da cultura popular, que pontuaram uma carreira fulgurante e uma vida efémera. Sam Shaw (1912-1999) ocupa um lugar muito especial na galeria dos fotógrafos que a eternizaram — esteve entre nós, em 1992, para acompanhar uma exposição das suas fotografias organizada pelo Festival Internacional de Cinema de Troia. São dele as lendárias imagens do vestido esvoaçante no filme The Seven Years Itch/O Pecado Mora ao Lado (1955), de Billy Wilder. Mas Shaw, mais do que um repórter, foi um amigo que acompanhou Marilyn com a atenção e o pudor de quem sabe observar um ser humano para lá da aura simbólica da celebridade. É um balanço caloroso e multifacetado dessa relação que podemos encontrar num álbum verdadeiramente cinéfilo: Dear Marilyn – The Unseen Letters and Photographs (ed. ACC Art Books). . A rodagem de O Pecado Mora ao Lado ocupa um lugar importante nas 240 páginas do livro, aliás num capítulo cujo título evoca a importância do filme na carreira de Marilyn: Lucky seven (à letra, “o sete da sorte”, expressão dos jogos de azar que identifica um momento em que o jogador tem os trunfos do seu lado). Em qualquer caso, não estamos perante uma mera amostragem dos bastidores de Hollywood, ainda que encontremos aqui testemunhos preciosos da “idade de ouro” dos estúdios da Califórnia. Num texto citado no prefácio, Shaw definia assim as imagens emblemáticas de uma indefectível amizade: “Quando as obtive, não dei conta de que, um dia, poderiam ser organizadas como uma unidade, como um álbum de família. Mesmo um simples instantâneo possui um profundo significado.”O título — Querida Marilyn — está longe de ser uma simples dedicatória. Isto porque a visão de Marilyn por Shaw, além de envolver uma profunda admiração pelas suas qualidades artísticas, aliadas a uma constante exigência profissional, foi acompanhada por uma significativa correspondência — daí o subtítulo “As Cartas e as Fotografias Inéditas”. Por exemplo, em 1961, quando estava em França a trabalhar no seu primeiro filme como produtor (Paris Blues/Noites de Paris, de Martin Ritt), Shaw escrevia a Marilyn, tentando ajudá-la a superar o impasse de um novo filme (Something’s Got to Give, dirigido por George Cukor), para sempre inacabado — Marilyn viria a falecer, vitimada por uma overdose de barbitúricos, a 4 de agosto de 1962, contava 36 anos. .Sam Shaw é por vezes referido como “fotógrafo das estrelas de Hollywood”, o que, evidentemente, se justifica — de Marlon Brando a Elizabeth Taylor, passando por Sophia Loren, Alfred Hitchcock, Audrey Hepburn, Gena Rowlands e John Cassavetes (de quem foi também produtor), o seu portfolio é vasto e diversificado, sempre atento à “vida interior” daqueles que foi fotografando. Seja como for, uma parte essencial da sua formação aconteceu através da produção de imagens muito variadas e da respetiva gestão jornalística: “Comecei como desenhador de tribunal, “cartoonista” de temas políticos e, mais tarde, do desporto para o jornal Brooklyn Eagle. Fui também director artístico de revistas de fotografia. Depois de usar a minha câmara para fotografar os meus filhos, optei pelo fotojornalismo. Acompanhei rodagens de filmes, tanto para estúdios como para revistas, mas não fui um fotógrafo das beldades de Hollywood.” . A reunião de todos estes elementos resulta de um trabalho exemplar de organização e edição, da responsabilidade de Melissa Stevens (neta de Sam Shaw e diretora do Shaw Family Archives Ltd.). As matérias aqui relembradas ou, finalmente, dadas a conhecer integram diversas exposições dedicadas ao centenário de Marilyn, um pouco por todo o lado, do Museu da Academia de Hollywood à National Portrait Gallery, em Londres. As fotografias de Dear Marilyn, a par dos textos do livro, definem, afinal, uma narrativa em que se cruzam a vida privada (incluindo imagens do período em que foi casada com Arthur Miller) e os compromissos do espetáculo. O resultado é uma memória biográfica genuinamente intimista.Mais imagens na fotogaleria abaixo .Marilyn Monroe. 100 anos de solidão.Marilyn, o mito