O mercado de cinema está em crise? Sim, mas um dos efeitos mais perversos da situação é a existência de muitos espetadores que se dizem desencantados com a falta de diversidade da oferta que têm à sua disposição. Simplificando, talvez se possa acrescentar que o “contrário” também é verdade: há espetadores que perderam a capacidade de encontrar as alternativas que têm à sua disposição. Vêm estas observações a propósito da estreia de uma discreta maravilha, Leibniz - Crónica de uma Pintura Perdida, assinada pelo veteraníssimo alemão Edgar Reitz.Nascido a 1 de novembro de 1932, Reitz, convém recordar, é autor da série Heimat (1984), obra emblemática sobre a identidade alemã que, aliás, ele próprio prolongou através de diversas variações. Este filme sobre o matemático e filósofo Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), revelado no Festival de Berlim do ano passado (depois exibido entre nós no LEFFEST) talvez se possa definir como um retrato do próprio pensamento de Leibniz.Retrato, desde logo, no sentido mais literal. Dito de outro modo: tudo começa com a encomenda de um retrato de Leibniz (Edgar Selge) pela Rainha Carlota da Prússia (Antonia Bill). Muito marcada pela convivência com o filósofo, ela quer poder contemplar a sua imagem em qualquer momento, de algum modo preenchendo a distância que os separa. Depois de algumas peripécias pouco felizes, será uma mulher, Aaltje Van De Meer (Aenne Schwarz), a figura indicada para satisfazer a encomenda...Aquilo que poderia poder reduzir-se a um fait divers mais ou menos pitoresco transforma-se num processo de reflexão, pontuado por momentos de ironia e humor, sobre o que seja (ou possa ser) criar uma imagem que nos ajude a ver, rever ou reimaginar o mundo. Sem esquecer que o próprio Leibniz, embora disponível para as necessárias poses, está longe de considerar que o quadro possa ser um “revelador” do que quer que seja: “Mais fácil será filosofar sobre a linguagem dos anjos do que compreender o que é uma pessoa e a sua imagem.”As questões inerentes à produção do quadro — a escolha do fundo, a posição do retratado, as formas de incidência da luz, etc. — acabam por refletir também o modo de trabalho de Reitz para elaborar o seu argumento (escrito em colaboração com Gert Heidenreich) e encenar o seu filme. Resumindo, podemos dizer que Leibniz - Crónica de uma Pintura Perdida celebra o poder da arte, não exatamente de reproduzir o mundo, mas de alargar as fronteiras do mundo que conhecemos.