"Prenderam o meu corpo, não me prenderam mais nada”, quem o diz é Aurora Rodrigues, que esteve presa três meses durante o Estado Novo. A peça de teatro Projeto Aurora , de Inês Melo, retrata a história de resistência de Aurora Rodrigues. A atriz e criadora do projeto cruzou-se com ela quando preparava um trabalho para a faculdade há dez anos. “Não consegui ficar indiferente e quis partilhá-la com as pessoas. Queria que toda a gente soubesse o que a Aurora passou às mãos da PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) e a força, a coragem e a esperança que ela teve a resistir”, explica a atriz ao DN.A peça é um monólogo de 40 minutos que viaja pela vida de Aurora Rodrigues, passando pela PIDE. “Era importante para mim nomear as pessoas, dizer os nomes, porque até nos processos que existem na Torre do Tombo, os nomes de mulheres não existem. E eu acho importante dizer às pessoas que havia mulheres a torturar estas pessoas”, acrescenta.Para além deste monólogo, a peça oferece ainda espaço para debate sobre a liberdade e os 51 anos de democracia. “Para repensarmos o nosso presente e repensarmos estes anos de democracia e o nosso papel enquanto cidadãos, enquanto pessoas livres”. Esta é uma produção do RAIAR - Laboratório Criativo e encontra-se em circulação pelo país para a sua terceira temporada. É dos 45 projetos apoiados pelo programa Arte pela Democracia, uma iniciativa da Comissão Comemorativa 50 anos do 25 de Abril, em parceria com a Direção-Geral das Artes. Aurora Rodrigues soube da existência do projeto através de uma amiga. “Telefonou-me e disse: eu vi-te em Riachos (Torres Novas). Ao que eu respondi: não fui lá. E ela contou-me como é que me tinha visto. Ela, de facto, viu-me pelos olhos de outra pessoa”, conta..Três meses na prisão de CaxiasAurora Rodrigues, jovem estudante da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, de 21 anos, sabia que ia ser presa antes de o ser. Levaram-na para a PSP em Lisboa. “Estivemos lá uma tarde inteira. Não me trataram mal, trataram-me bem. Estiveram lá para me dizer que da próxima vez seria diferente. A PIDE fazia muito isso”.O ponto de viragem foi a morte do seu colega José António Ribeiro Santos. Aurora, que fazia parte do Movimento Re-organizativo do Partido do Proletariado (MRPP), estava ao seu lado quando o jovem estudante foi assassinado pela PIDE num “meeting contra a repressão”, no dia 12 de outubro de 1972 no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras. “Aquele momento foi, para mim e para muitas pessoas, uma forma de arranque para dar o passo em frente, porque não podiam matar assim. Para mim, foi decisivo. Eu mudei e percebi que era importante lutar, resistir, derrubá-los”. A 3 de maio de 1973 foi presa pela PIDE à saída da faculdade de Direito. Durante os três meses que esteve na prisão de Caxias foi submetida à tortura do sono, durante 16 dias. “A determinada altura eles diziam que se aguentasse mais um dia ia bater o recorde, mas era o recorde relativamente aos homens. Eles não faziam uma tortura igual a toda a gente. Eles mudavam de acordo com a pessoa”, conta.Apesar da tortura, a atual magistrada conseguiu manter a calma e o sentido de humor. Desde o primeiro dia que prometeu a si mesma que não iria falar com os agentes. Para não perder a sanidade, Aurora Rodrigues cantava a música Ronda do soldadinho de José Mário Branco. “Num dia em que a minha tia me veio visitar disse-lhe: prenderam o meu corpo, não me prenderam mais nada”. Durante os 16 dias, fazia cálculos matemáticos. No entanto, não conseguiu permanecer sempre lúcida. “Eu via os agentes chegarem de elevador e não havia lá elevador nenhum.. Foi uma das alucinações que tive. Outra foram as lagartas, sentia as lagartas a subir pelas pernas”. Aurora Rodrigues conta que havia dois tipo agentes: os “bons” e os “maus”. Esta era uma das técnicas utilizadas. “Eles faziam esse jogo psicológico”. Uma das agentes da PIDE, por exemplo, ensinou Aurora a nadar. “Ela disse-me que tinha ido à praia e que eu poderia ir se falasse. Eu respondi-lhe que não sabia nadar e ela deitou-se no chão da minha cela a ensinar-me a nadar”. Nos dias seguintes, utilizaram a tortura do afogamento. Inês Melo chama a esse ato no espetáculo “pré-natação”. A PIDE tentou ainda utilizar a tortura da estátua, mas a ex-presa política recusou-se. “Agarraram-me e disseram-me que eu ia fazer o Cristo. Dois deles agarraram-me os braços. E tive de lhes dizer: ‘quando me largarem, eu baixo os braços e a tortura é tanto minha como vossa’. Eu sabia qual era o resultado, mas não ia fazer o que me mandavam, porque eles não tinham esse poder”, relembra. Aurora foi libertada ao fim de três meses, porque a PIDE não tinha provas para a levar a julgamento. Depois de todos estes anos, Aurora Rodrigues não consegue explicar a sensação que sentiu ao sair daquela prisão. “Chamaram-me um táxi, mas eu não tinha dinheiro para lhe pagar. Então prometi que lhe pagava à chegada. Durante a viagem não me calei e contei tudo ao homem. O homem não era da PIDE, de certeza, e acreditou em mim. Eu não me conseguia calar até porque lá na prisão não falei . Mas ali falei, precisava de falar. E estava livre”. O próximo espetáculo do Projeto Aurora será no dia 29 de abril no Museu Nacional Resistência e Liberdade, em Peniche.