José Augusto Bernardes, comissário-geral da estrutura de missão para as Comemorações do V Centenário do Nascimento de Luís de Camões.
José Augusto Bernardes, comissário-geral da estrutura de missão para as Comemorações do V Centenário do Nascimento de Luís de Camões.Foto: D.R.

Portal dedicado a Camões não terá muitos comparáveis no mundo e será "referência" para investigadores

Camões Lab será dinâmico e primeiros resultados ficarão acessíveis até julho, diz José Augusto Bernardes, comissário-geral da estrutura de missão para as comemorações dos 500 anos do poeta.
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Será um portal de referência, com validação científica, para o conhecimento da obra de Camões, dos estudos sobre Camões e das recriações da sua obra nas artes. O Camões Lab é apresentado esta segunda-feira, 23 de março, à tarde, na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.

Trata-se de uma iniciativa da Universidade de Coimbra que a estrutura de missão para as Comemorações do V Centenário do Nascimento de Luís de Camões incorporou no seu programa, "em lugar destacado", sublinha José Augusto Bernardes, comissário-geral da estrutura de missão, em entrevista por escrito ao DN.

O projeto "ambicioso", diz, terá várias vertentes, destacando-se "os textos anotados (em versão XML), verbetes originais, construídos expressamente em registo de Compêndio, imagens e propostas pedagógicas (utilizáveis em diferentes níveis de ensino)". As diferentes partes do portal deverão ficar acessíveis até 2027 e a partir dessa data "o projeto entrará em fase de laboratório, ou seja, em fase de ajustamento dinâmico e regular", adianta o professor Catedrático da Faculdade de Letras de Coimbra.

A três meses do final das comemorações dos 500 anos de Luís de Camões, José Augusto Bernardes diz que "ainda é cedo para fazer balanços", mas considera que têm permitido "pensar em Camões de forma renovada, quer na Academia, quer no espaço cívico, em geral".

A sessão de encerramento das comemorações que tiveram início oficial no dia 10 de junho de 2024 decorrerá no dia 10 de junho deste ano com a estreia da ópera Relicário Perpétuo.

Este portal dedicado a Camões é uma iniciativa da Universidade de Coimbra? Qual foi o papel da Estrutura de Missão neste projeto?

Trata-se de um projeto da Universidade de Coimbra, que a Estrutura de Missão acolheu e incorporou no seu programa, em lugar destacado.

O portal será gerido pela Universidade?

A criação e a gestão do portal ficará a cargo da Universidade, que possui experiência demonstrada para exercer essa função. Para além do plano técnico, o projeto implica algo que valorizamos muito. Refiro-me ao escrutínio científico. Num tempo em que a internet acolhe conteúdos sem qualquer tipo de validação, é essencial que passe a existir um "sítio" de confiança. Para além do grau de acessibilidade e da variedade articulada de informação que passa a estar disponível, a fiabilidade e o critério são, a meus olhos, a marca mais importante deste projeto. Ora, essa marca só pode ser assegurada por uma instância onde se produz conhecimento científico.

Como é financiado o portal?

Pelos meios logísticos e humanos que envolve, e pelas obrigações que cria para o futuro, estamos perante um empreendimento relativamente oneroso [225 mil euros, com apoio mecenático de 200 mil]. Para além do apoio direto da Estrutura de Missão, estão assegurados apoios substanciais de três entidades: A Fundação La Caixa, a Fundação Calouste Gulbenkian, a Universidade de Macau (através de uma das suas fundações) e a Imprensa Nacional/Casa da Moeda. Os meios que resultam desta conjugação são suficientes para assegurar o lançamento e a manutenção do projeto. Mas representam, ao mesmo tempo, a concretização de um princípio que a Estrutura de Missão sempre procurou levar à prática: mobilizar e congregar em torno de Camões, na origem das iniciativas e no seu impacto.

Em que data estará acessível?

O projeto encontra-se numa fase inicial. Por ter um carácter dinâmico e faseado, espera-se que os primeiros resultados possam ficar acessíveis até ao final de junho, coincidindo com o termo oficial das Comemorações. Até 2027, deverão ficar acessíveis as diferentes partes do portal. A partir dessa data, o projeto entrará em fase de laboratório, ou seja, em fase de ajustamento dinâmico e regular.

Qual é a importância deste projeto? Houve algum modelo internacional que foi seguido?

Estamos perante um projeto ambicioso, que envolve várias vertentes. De entre essas vertentes, destacam-se os textos anotados (em versão XML), verbetes originais, construídos expressamente em registo de Compêndio, imagens, propostas pedagógicas (utilizáveis em diferentes níveis de ensino), etc.  Não existem muitas realizações comparáveis. Podem referir-se os portais dedicados a William Blake e Samuel Beckett (embora estas se limitem ao plano das edições).

Em Portugal, a matriz mais próxima é o projeto sobre O Livro do Desassossego, desenvolvido justamente por uma equipa liderada pelo Professor Manuel Portela, atual diretor da Biblioteca Geral. Ele e o Professor Delfim Leão, vice-reitor para a Ciência Aberta, têm sido os nossos interlocutores mais diretos e desempenham um papel decisivo neste projeto.

Que impacto poderá ter este portal na divulgação e estudo da obra de Camões e da própria língua portuguesa?

Esse é um dos principais objetivos do portal. Nele ficarão acessíveis materiais cientificamente validados, ao dispor de estudiosos mas também de interessados e de curiosos. Acredita-se e pretende-se que o Camões Lab possa vir a constituir a referência de consulta para investigadores. De forma especial, penso nas gerações mais novas, em Portugal, no Brasil e em muitos outros países, onde Camões continua a suscitar o interesse de pesquisadores. Os jovens investigadores (o camonismo necessita muito de renovação e aprofundamento) podem passar a aceder a materiais que antes se encontravam dispersos ou não tinham a indispensável certificação de fiabilidade. Penso ainda na utilidade que o portal pode vir a ter para quem ensina Camões no estrangeiro, nas cátedras, nos leitorados, nas escolas portuguesas espalhadas pelo mundo.

Dará aos professores ferramentas para tornar o estudo do poeta pelos mais jovens mais apelativo?

O Camões Lab terá uma forte componente formativa e pedagógica. Espera-se, sobretudo, que as ditas ferramentas possam servir para aumentar o gosto e o entusiasmo pela figura e pela obra de Camões. Sabemos bem que estes dois requisitos são essenciais para ensinar e aprender quaisquer matérias. No caso de Camões essa importância é reforçada. Afinal, falamos de um autor que, tendo nascido há 500 anos, por qualquer razão se manteve em lugar cimeiro, no nosso espaço cívico e na nossa memória coletiva. O desafio parece claro: manter vivo esses mesmos gosto e entusiasmo, recorrendo a meios de comunicação e difusão que o nosso tempo permite.

Estará aberto a contributos noutras línguas?

Sem dúvida. O portal terá como idioma de base a língua portuguesa mas não poderá ignorar a necessidade de expandir o conhecimento internacionalizado sobre Camões.  Julgo que o Camões Lab pode ajudar bastante na concretização do objetivo de internacionalizar a figura e a obra de Camões: dando-o a conhecer, desde logo, e inscrevendo-o, de forma adequada, na grande constelação dos clássicos mundiais.

Portal é um projeto "ambicioso", diz José Augusto Bernardes.
Portal é um projeto "ambicioso", diz José Augusto Bernardes. Foto: D.R.

Como presidente da Estrutura de Missão para as Comemorações do V Centenário do Nascimento de Luís de Camões, que balanço pode fazer do trabalho desta estrutura até ao momento?

A três meses do termo das comemorações, é cedo para fazer balanços. Até porque existem ainda projetos em curso, nos quais depositamos muitas esperanças. Existem mesmo outros, que, não estando inicialmente previstos, foram surgindo, por lembrança ou iniciativa de autarquias, associações culturais ou académicas.

De qualquer modo, e a título pessoal, atrevo-me a antecipar que as comemorações têm permitido alcançar objetivos importantes: pensar em Camões de forma renovada, quer na Academia, quer no espaço cívico, em geral. Contribuíram também, para através de Camões, pensarmos na Escola e nos seus desafios: Camões é ensinado há muitos anos e nós achamos que essa presença deve ser mantida. Porém, o perfil sociológico dos alunos (e também dos professores) mudou imenso nos últimos anos, reclamando talvez ajustamentos, em termos de atitude, de método ou talvez mesmo de objetivos e conteúdos. Camões foi não apenas um poeta mas um defensor do valor da poesia. Através dele e da sua obra, temos tentado combater a ideia (tão errada) de que a poesia é coisa frívola ou dispensável. Camões tem sido pretexto (fundamentado) para pensar no valor da palavra, na poesia e na arte em geral, e no papel que elas podem ocupar na nossa vida pessoal e coletiva.

Quando levamos Camões a Braga, a Setúbal, a Leiria, a Trancoso, a Portalegre, a Évora, a Tavira (e havemos de levar a Arganil, a Constância, a Miranda do Douro e onde as nossas possibilidades o consentirem) não levamos apenas a lembrança vaga e convencional do poeta: levamos também palavras dele, que ainda nos tocam. E levamos ainda arte, inspirada pela sua criação: música e teatro, sobretudo.

Agrada-me muito sublinhar que estas iniciativas contam sempre com a parceria de câmaras, associações de cultura e recreio, comunidades académicas, universidades seniores, etc. Somos sempre recebidos com sentido de participação. Nesse sentido, posso dizer, que, muitas vezes, recebemos bem mais do que levamos.

Quais são as principais iniciativas previstas para os próximos meses?

Até ao final das Comemorações, haverá ainda um conjunto grande de iniciativas. Destaco congressos e exposições. Depois de terem já convergido em Coimbra, na Ilha Terceira e em Braga, Camonistas de todo o mundo vão convergir no Porto (abril) e em Lisboa (junho). O objetivo é reunir quem se dedica (e, por vezes, dedica-se ao longo de uma vida inteira) a estudar Camões, fazer o ponto da situação dos estudos camonianos e ajustar a sua agenda.

No dia 5 de maio (dia da Língua Portuguesa) serão inauguradas duas grandes exposições camonianas na Biblioteca Nacional de Portugal e, em outubro uma outra (igualmente grandiosa) na Biblioteca Nacional de Espanha. Lançaremos o primeiro volume das Obras Anotadas de Camões, um sonho de gerações que vai levar o texto do poeta a um maior número de leitores e que só foi possível graças à colaboração de vastas equipas de estudiosos de Camões.

Haverá espetáculos musicais e teatrais por todo país (com destaque para os territórios de baixa densidade), campanhas de divulgação artística em meios de transporte público (com destaque para a Metro de Lisboa e do Porto)

Haverá cerimónias e implantação de bustos camonianos nas cidades de língua oficial portuguesa (Macau, Díli, Praia, Bissau, Luanda, Maputo, etc.), em parceria com a UCLA.

E haverá livros (muitos livros) promovidos ou apoiados pela Estrutura de Missão. Acreditamos muito no valor do livro e, sem prejuízo de outros suportes, tudo temos feito para reabilitar a sua importância. Promovemos e apoiamos livros novos. Compramos e distribuímos livros camonianos por Escolas e bibliotecas públicas.

Quando vai estrear a ópera com música de Luís Tinoco e libreto de Luísa Costa Gomes?

A estreia da Ópera a que se refere [Relicário Perpétuo] está prevista para o dia 10 de Junho de 2026 no Teatro Nacional de S. Carlos, em Lisboa, na sessão de encerramento das comemorações do V Centenário do Nascimento de Luís de Camões.

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