Trinta e oito anos depois de ter iniciado uma carreira marcada também pela memória afetiva, o músico angolano Paulo Flores regressa aos grandes palcos portugueses para dois concertos de celebração: o primeiro, que aconteceu a 28 de fevereiro, na Casa da Música, no Porto, esteve esgotado muito antes da data, e o segundo, marcado para 5 de março, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, caminha para a lotação completa. Como o artista explicou ao DN, estes espetáculos são, antes de mais, um gesto de reconhecimento, a vários níveis.“Um agradecimento ao público que durante estes 38 anos me inspirou bastante”, descreve, enquanto levanta o véu a uma ideia mais profunda, que passa pela coincidência entre o cinquentenário da independência de Angola e o seu próprio percurso artístico, o que reforça o simbolismo da ocasião. “Em 50 anos de independência, reparei que já nos canto, já nos explico, já falo de nós e daquilo que sentimos e sonhamos há 38 anos”, relata, referindo-se a um coletivo que transporta em si várias perspetivas de Angola. O músico sublinha que nunca partiu da ambição de notoriedade e faz questão de vincar que nunca teve “aquela intenção de ser famoso”. Tudo o que fez, explica, “era mesmo para poder” expressar-se, “deitar para fora o que sentia”. No entanto, a identificação do público surgiu cedo, até porque, destaca, logo no início foi “percebendo que o que sentia era também replicado no sentimento de muitas outras pessoas”. E é essa reciprocidade que, quase quatro décadas depois, transforma as salas cheias num “privilégio muito grande”.Questionado sobre o simbolismo que há em encher duas importantes salas de espetáculo em Portugal com música angolana, Paulo Flores sugere que a música que faz está cheia dos lugares a que pertence.“Eu falo do meu lugar, mas muitas vezes o amor com que eu falo dele a outras pessoas que não são exatamente do meu lugar consegue refletir aquele amor que essas pessoas têm pelo seu próprio lugar”, analisa, acrescentando que, neste processo, a chave está em sentir e fazer sentir: “Na construção das minhas músicas, das minhas letras, está sempre muito presente a questão dos afetos, da generosidade, da partilha.” Mesmo quando aborda temas delicados, insiste que a intervenção nasce da emoção e não de um programa. “Eu fiz músicas com 16 ou 17 anos, (…) e até hoje as pessoas gostam dessas músicas, não porque elas sejam elaboradas ou tecnicamente muito virtuosas, mas porque existe uma emoção tão simples.”Ao longo dos anos em que viveu e atuou em Angola, percebeu que as suas canções funcionavam como um instrumento de mediação cultural, ou, como descreve, “um cartão postal de Angola”. A diáspora, particularmente presente em Portugal, reforçou essa ponte. É também por isso que Paulo Flores acaba por não encontrar diferenças entre o público português ou o português que nasceu em Angola. Agora, em palco, espera repetir um efeito que descreve como catártico, mas não só para si: “Normalmente, nos concertos (…), nós saímos todos, parece que quase com a alma lavada, mais inteiros e mais capazes de lutar pelo dia seguinte.”A matriz matriarcal da sociedade angolana e a centralidade da memória atravessam-lhe a obra. É também por isso que conta ao DN a forma como os primeiros discos foram escritos a partir de histórias contadas pelas avós.“Há pessoas que dizem que a minha música é mais velha ou mais antiga do que eu, porque eu, com 16 anos, contava histórias de pessoas que na altura já tinham 60, 70.” A figura materna é recorrente enquanto temática e como nostalgia: “Foram mães, foram professoras, foram educadoras que trabalharam na lavra, ensinaram a palavra, foram tropas com os filhos nas costas.” Para Flores, esse legado é indissociável da identidade coletiva que foi referindo. No meio disto tudo ainda há mais um ingrediente na receita que faz de Paulo Flores um mediador cultural entre países: as suas referências musicais. Passam por vários universos, do angolano - como Bonga - à canção brasileira de Chico Buarque e Martinho da Vila, passando pela força interpretativa de Amália Rodrigues ou pela dicção de Carlos do Carmo. Em todos, o cantor reconhece influências e é isso que o aproxima das pessoas, principalmente com as músicas do seu mais recente álbum, que estarão presentes no coliseu, cujo título não deixa margem para dúvidas sobre o que motiva o cantor: Canções que fiz pra quem me ama..Casa da Música propõe a versão mais “íntima” de ‘Il Trovatore’ .Rádio Macau juntam-se para concertos nos Coliseus de Lisboa e do Porto em outubro