Propondo uma revisitação crítica da história do Teatro Nacional D. Maria II, o documentário Auto da Casa é uma das revelações do IndieLisboa (a decorrer até domingo, dia 10). Integrado na secção “Rizoma”, dedicado a “obras que destacam questões relevantes da atualidade, cineastas de renome, e ante-estreias", já foi exibido na Culturgest, voltando ao calendário do festival com uma sessão no Cinema Ideal (dia 8, 19h30). Escusado será dizer que, mesmo com uma duração relativamente longa (123 minutos), seria sempre um desafio imenso fazer o retrato de um teatro inaugurado a 13 de abril de 1846, dia do 27º aniversário da Rainha D. Maria II (1819-1853). Ou seja: para lá dos dramas de sobrevivência do próprio edifício - com inevitável destaque para o incêndio de 1 de dezembro de 1964 , eis uma instituição que, como o documentário insistentemente sublinha, viveu sempre marcada por valores, regras e decisões dos regimes políticos que atravessou. .Produzido por Pedro Borges (Midas Filmes), com realização partilhada por Joana Cunha Ferreira e Tiago Bartolomeu Costa (tendo como base um trabalho de pesquisa de Tiago Bartolomeu Costa), faz mesmo sentido dizer que Auto da Casa se organiza menos como uma história artística do Teatro Nacional D. Maria II e mais como a sua história política. Em qualquer caso, até pela surpreendente abundância dos materiais de arquivo que nos são apresentados, seria incorreto considerar que uma dimensão exclui a outra. Os exemplos povoam todo o filme. Da “dupla” encenação de Frei Luís de Sousa, desafiando a rede censória do Estado Novo, até às polémicas geradas por Passa por Mim no Rossio, em plena democracia, Auto da Casa acaba por expor um sistemático, por vezes perverso, assombramento: para lá das suas especificidades de texto ou estética, qualquer ato teatral que tenha por cenário o D. Maria II surgirá sempre enredado em componentes de natureza política. .Daí que a concessão do teatro à companhia do casal Amélia Rey Colaço/Robles Monteiro, durante o período 1929/1964, surja como um capítulo fulcral de mais de 150 anos de memórias. Porquê? Porque as opções artísticas da atriz, antes e depois da morte do marido (em 1958), foram marcadas por sinais de uma ambivalência tão pensada quanto fascinante, inscrevendo-se dentro e fora do enquadramento ideológico e estatal em que exercia a sua função. O inventário de imagens utilizadas para dar conta de tal ziguezague é mesmo uma das componentes mais ricas do documentário. Na verdade, o trabalho de investigação integrou materiais provenientes de uma série de entidades, além do próprio D. Maria II. Foram elas: RTP, Cinemateca Portuguesa, Museu do Teatro e da Dança, Arquivo Nacional Torre do Tombo, Centro Português de Fotografia, Hemeroteca Municipal de Lisboa e Fundação Mário Soares e Maria Barroso. A pluralidade de tais materiais talvez carecesse de mais algum enquadramento que as vozes off nem sempre garantem. Por exemplo, imagens tão especiais como as da multidão feminina que homenageou António de Oliveira Salazar a 28 de abril de 1959 (data do 70º aniversário do ditador) ganhariam outro peso narrativo se houvesse uma clara explicitação do respetivo contexto - isto porque não são materiais que falem “por si”, sendo importante situar a sua origem e até, por vezes, as formas de difusão de que foram objeto. Seja como for, nada disso invalida os méritos da pesquisa realizada, e também da sua devolução ao nosso presente. Até porque Auto da Casa se apresenta como uma análise em aberto, evitando encerrar este capítulo da nossa história cultural e política em chavões simplistas ou definitivos. .Teatro Nacional D. Maria II antecipa reabertura em setembro com "Prólogo" no início do verão.IndieLisboa inclui grande montra de cinema português