De que falamos quando falamos de um narrador? A pergunta é tanto mais atual quanto a própria palavra “narrativa”, depois de ter servido de pretexto para insultar qualquer intelectual que a utilizasse, se transformou num vício televisivo com larga freguesia. Dizem-nos mesmo que não há político que não se esconda atrás da sua narrativa, sem esquecer que há treinadores de futebol que mudam de narrativa como quem muda de defesas centrais... Uma tristeza: confunde-se narrativa com a banal montagem de um aparato enganador, ignorando que um narrador não é um mero maquilhador de factos, mas alguém que arrisca lidar com a complexidade da realidade. É essa a preciosa lição das breves e fascinantes 120 páginas de Um Chapéu de Leopardo, romance da francesa Anne Serre (nascida em Bordéus, em 1960), com tradução de Rui Elias (ed. Dom Quixote, 2026). Quem é, então, o narrador de Um Chapéu de Leopardo? Digamos que não sabemos. Anne Serre mostra-o e esconde-o através de uma austera designação: Narrador - assim mesmo, com maiúscula. Ficamos a saber que ele é indissociável (e como poderia ser de outro modo?) da personagem central, Fanny, nossa conhecida a partir das palavras de abertura: “Ah, como ela, Fanny, era bonita nos seus tempos de criança. Com os seus sapatinhos, os grandes olhos azuis de pestanas loiras, a trepar aos muros, aos ramos das árvores, ao cimo do seu roupeiro, a exigir que lhe chamassem Félix, que significa feliz, musculada como um lutador e a tocar piano com os dentes cerrados.”Seja como for, na página seguinte o tempo de tais memórias já se enredou num calendário nada linear: “Durante vinte anos, quinze anos, e cada vez mais intensamente com o passar do tempo, o Narrador manteve os olhos fixos em Fanny, sua amiga. Observou-a mil vezes de costas, de perfil, de frente, com delicadeza, pois Fanny temia um pouco os olhares diretos.” É mesmo duvidoso que o Narrador possa ser a nossa mais segura fonte de informação sobre Fanny: “Ele não sabia como entrar em contacto com ela. Seria possível fazê-lo, aliás?”Cedo sabemos que ela tem um chapéu de leopardo, mas não se julgue que isso é uma chave para decifrar enigmas. Como alguém já disse: um chapéu é um chapéu é um chapéu... Será assim? Se a sua vida “foi uma longa, muito longa, lenta e inexorável queda”, isso quer dizer que a escrita que contemplamos talvez seja um resgate (narrativo, precisamente) conduzido por alguém que a conheceu e perdeu. Afinal, o Narrador “falava com ela para repelir a morte.”Dizem-nos na contracapa que o romance foi “escrito após o suicídio da irmã mais nova de Anne Serre, que tinha um problema de saúde mental.” Não se julgue, porém, que estamos perante a desvergonha dessas narrativas televisivas que, em nome da descoberta do “outro”, reduzem qualquer intimidade a obscenidades moralistas que sirvam de intervalo entre duas coleções de anúncios. Um Chapéu de Leopardo cultiva uma memória (e o respetivo pudor) que passa pela sedução cinéfila, já que Fanny não é estranha a grandes personagens femininas como Marlene Dietrich em O Anjo Azul (1930) ou Elizabeth Taylor em Bruscamente no Verão Passado (1959). Fanny tinha mesmo um sorriso que fazia lembrar Romy Schneider em O Bar da Última Esperança (1982), filme de Jacques Rouffio baseado num romance de Joseph Kessel, assombrado pelas memórias do nazismo.Um Chapéu de Leopardo envolve também a história de um curioso renascimento. Isto porque a edição original data de 2008. O livro regressou à atualidade em 2024 graças à sua tradução em inglês, tendo sido finalista do International Booker Prize de 2025. Entre a nitidez da vida e o silêncio da morte, eis um romance que nos faz partilhar o desafio radical de elaborar uma narrativa: “(...) ser Narrador, já por si, não é assim tão fácil, é uma posição extraordinariamente complexa, acabamos por ser o estranho de alguém e de viver dentro desse alguém.” .Para redescobrir as memórias de um teatro.Os heróis silenciosos que deram “coragem” a António Damásio