Festival de Músicas do Mundo volta a tomar conta do Castelo de Sines a partir da próxima semana.
Festival de Músicas do Mundo volta a tomar conta do Castelo de Sines a partir da próxima semana. Foto: DR/FMM

"Para ir sem guiões". FMM Sines regressa fiel à descoberta e ao encontro entre culturas

Em entrevista ao DN, o diretor artístico do Festival de Músicas do Mundo, Carlos Seixas convida o público a chegar "de ouvidos abertos" à 26ª edição, que arranca esta sexta-feira, em Porto Covo.
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Quando celebrou um quarto de século de existência, no verão passado, o Festival Músicas do Mundo (FMM) decidiu contar a própria história através de um livro. Mas em vez de uma simples cronologia ou de um desfile de cartazes, a publicação Um Espírito de Aventura organiza o percurso do festival em ideias: um festival de viagens, encontros e cruzamentos, um espaço de liberdade estética, um palco onde cada cultura mostra a sua modernidade e onde a descoberta se prolonga para lá da música. É essa identidade que continua a guiar a 26.ª edição do FMM, que arranca já esta sexta-feira, 17 de julho, entre Porto Covo e Sines.

Ao longo dos próximos nove dias, o FMM apresenta 38 concertos repartidos pelos dois polos habituais do evento. A programação começa em Porto Covo neste fim de semana (17 a 19), segue depois para o Centro de Artes de Sines e para o Pátio das Artes, antes de ocupar, a partir de quarta-feira, 22 de julho, os palcos do Castelo e da Avenida Vasco da Gama da cidade alentejana.

Apesar de contar com menos 11 concertos do que na edição anterior - uma redução motivada pelo aumento dos custos dos combustíveis e pela instabilidade das rotas aéreas, que encareceram as digressões internacionais -, a organização garante que o espírito do festival permanece intacto.

"Os constrangimentos acontecem, são inevitáveis num cenário global tão complexo, mas o festival já tem 26 anos. Temos o conhecimento e a experiência acumulada para superar estas contrariedades logísticas e manter vivas as mesmas bandeiras e a mística do festival", afirma ao DN Carlos Seixas, diretor artístico e de produção do FMM.

Ao longo dos próximos dias, o cartaz volta a reunir artistas provenientes de quatro continentes e mantém uma das características que fizeram do FMM uma referência no panorama dos festivais europeus: colocar lado a lado nomes reconhecidos e propostas que dificilmente chegam aos circuitos comerciais. Neste primeiro momento, em Porto Covo sobem ao palco Bruno Pernadas, The Legendary Tigerman, TC & The Groove Family e os tuaregues Tamikrest.

Já em Sines, Seixas destaca uma programação que passa por Paqui Ríos, Mariaa Siga, Julian Marley & The Uprising, Lia Kali, Mádé Kuti, Orquesta Akokán, Konono Nº1 e pela aguardada vinda do pernambucano Otto.

Para Carlos Seixas, a missão do festival continua a ser a mesma de há mais de duas décadas: dar palco a artistas e geografias que raramente ocupam o centro das atenções. "O FMM é, por si só, um espaço para dar voz e reconhecimento àqueles que são menos ouvidos. É por isso que trazemos propostas da Palestina, da Jamaica ou de outras paragens periféricas".

O alinhamento deste ano inclui, como é habitual, ainda vários nomes portugueses, entre eles Filipe Sambado, A Garota Não e Vitorino Salomé, acompanhado pelo Grupo de Cantadores do Redondo. Para Seixas, essa convivência entre músicos portugueses e artistas vindos de diferentes partes do mundo continua a ser um dos elementos que distinguem o FMM de outros festivais de verão.

"Um espaço de entrega e conexão"

A edição deste ano acontece depois de um ciclo eleitoral que, em 2025, chegou a levantar dúvidas sobre o que uma eventual guinada à extrema-direita poderia significar para o futuro do festival. "Não se concretizou", resume. "Pelo contrário, voltou ao poder do executivo o partido que participou da criação deste festival em 1999", recorda o diretor artístico.

A relação entre o festival e o município mantém-se, portanto, inalterada. Apesar de o PS ter assegurado a realização do evento ao longo dos últimos anos, o regresso da CDU à liderança da autarquia garante continuidade a um projeto que Seixas faz questão de frisar que ultrapassa qualquer conjuntura partidária.

Com cerca de 60% dos concertos de entrada livre - uma opção que, segundo Carlos Seixas, "reforça a componente democrática do festival" -, o impacto económico do FMM mede-se muito para lá da bilheteira. O festival continua a afirmar-se como um dos principais motores da economia local durante o verão, dinamizando a hotelaria, a restauração e o comércio de Sines e Porto Covo.

"A verdade é que, independentemente de quem esteja a governar, este é um festival do município. O FMM traz benefícios inestimáveis para Sines e Porto Covo, e qualquer executivo percebe o retorno económico e social que estes nove dias representam para a região".

É, no entanto, na relação entre a arte e o público que Carlos Seixas encontra a principal marca do FMM. Ao contrário de muitos festivais centrados nos grandes cabeças de cartaz, o diretor acredita que Sines atrai, acima de tudo, pessoas dispostas a descobrir artistas que nunca ouviram antes. "Este é um festival para um público interessado, curioso e que está genuinamente disposto a entrar em contacto com as mais diferentes vozes do mundo".

Por isso, o conselho que deixa aos visitantes que ainda não conhecem o FMM é simples e resume a filosofia que, de certa forma, também atravessa o livro publicado no ano passado. "Venham sem guiões e de ouvidos abertos, sem decorar o alinhamento. O FMM não é centrado puramente no entretenimento: é um espaço de entrega, de conexão profunda com a música e com o outro", finaliza.

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