Óscares sem realizadoras mas com Scarlett duas vezes

Das nomeações dos Óscares é importante perceber que as realizadoras vão continuar de fora e que Joker ganha um novo fôlego. Mas custa perceber que possíveis "jokers" na corrida de melhor ator terão ficado de fora.

A Academia conseguiu não ser só "white", mas continua a não gostar de Greta Gerwig (perdedora grande há dois anos com Lady Bird) nem a apostar em cineastas do sexo feminino. Os cinco melhores realizadores são homens e não têm grandes surpresas.

Este ano, os votantes conseguiram ter alguma diversidade étnica nas suas escolhas: a nomeação da inglesa Cynthia Erivo em Harriet (filme que para já Portugal não terá acesso) parece cumprir uma quota em nomear atores negros e depois há ainda o piscar de olho à Ásia com as multinomeações do coreano Parasitas, de Bong Joon-Ho, e a concessão ibérica a Antonio Banderas em Dor e Glória (mas é preciso não esquecer que o ator faz parte da indústria de Hollywood).

Se estes Óscares tivessem tido um pouco mais de coragem poderiam ter sido ainda mais diversificados. Nesse capítulo, havia um Eddie Murphy em modo superlativo em Chamem-me Dolemite ou a sino-americana Awkwafina em A Despedida (filme que também tinha a favorita chinesa Zhado Shuzen), já para não falar de Song Kang-go, de Parasitas (nos últimos dias apontado pela imprensa americana como uma possível surpresa da lista dos melhores secundários) e da realizadora de origem africana Mati Diop, que terá ficado à porta da nomeação para melhor filme internacional em Atlantique, uma das poucas apostas da Netflix não adjudicada pela Academia.

Se é para falar de perdedores, a lista é sumarenta, embora o nome de Jennifer Lopez seja o mais intrigante. A atriz de Ousadas e Golpistas parecia garantida no lote das cinco escolhidas na categoria de melhor atriz secundária. E Lopez não era só presumível nomeada, era apenas a grande concorrente para bater a agora mais do que favorita Laura Dern.

Robert De Niro (O Irlandês), Lupita Nyong'o (Nós), Willem Dafoe (O Farol), Jamie Foxx (Tudo pela Justiça), Nicole Kidman (Bombshell- O Escândalo), Adam Sandler (Diamante Bruto), Annette Bening (The Report) e Christian Bale (Ford vs Ferrari-Le Man's 66- O Duelo) terão sido outros dos mais falados esquecidos.

Num ano em que foram nomeados nove obras para a categoria de melhor filme, o que pensar quando estão de fora obras como O Caso de Richard Jewell, de Clint Eastwood, Os Dois Papas, de Fernando Meireles, A Despedida, de Lulu Wang e Knives Out- Todos são Suspeitos, de Rian Johnson? Certamente, este ano, a quota dos dez melhores poderia ter ficado preenchida, mas Diamante Bruto , dos manos Safdie é talvez o grande pecado destas nomeações. Este arrebatador thriller moral chega a Portugal apenas via Netflix, já no final deste mês. Ou seja, o cinema "indie" parece estar a perder fôlego nestas decisões...

De estranhar ainda as ausências na animação de Frozen 2- O Reino do Gelo e de O Rei Leão, as joias da coroa da Disney. O Rei Leão nem conseguiu colocar a canção de Beyonce na lista...

Surpresas há sempre, a maior delas talvez o elevado número (11!) de nomeações para Joker, cuja fama de obra polarizadora não se fez sentir e até deu a Todd Phillips a nomeação para melhor realizador, algo que o torna numa obra a considerar para o lote de favoritos. Também não deixa de ser surpreendente que pelo segundo ano a Academia consiga elevar um filme estrangeiro como o sul-coreano Parasitas para tanto protagonismo. Depois de Roma, o cinema do mundo, nesta nova "internacionalização" dos membros da Academia, entra cada vez mais no rol das conjeturas. Quer isto dizer que uma obra internacional pode cada vez mais sonhar com a honra americana para além da mera distinção de filme em língua estrangeira.

O caso de Scarlett Johansson duplamente nomeada não é das maiores surpresas. Era expectável que pudesse acontecer mas em Jojo Rabbitt Scarlett tem um papel não assim tão vistoso e poucas hipóteses terá para competir com Laura Dern. Seja como for, por muito que se preveja uma dupla derrota a 9 de fevereiro, é sempre notável alguém estar com duas nomeações no mesmo ano. A atriz mais bem paga de Hollywood aumenta assim o seu cartel.

Destas nomeações vale ainda a pena registar a inclusão de Democracia em Vertigem nos documentários, o objeto acusatório de Petra Costa. Um filme Netflix para indignar o atual regime brasileiro.

No geral, com estas nomeações, espera-se que esta cerimónia novamente sem apresentador, suba nos "ratings" de audiência: há mais estrelas nomeadas (Bradley Cooper como produtor de Joker; Leo DiCaprio, Brad Pitt, Tom Hanks, etc) e os filmes favoritos são êxitos de popularidade (Era uma Vez em... Holllywood, O Irlandês, Parasitas, Jojo Rabitt e, sobretudo Joker). Óscares para o povo americano, dirão alguns... Afinal, aquela ideia do ano passado da criação da categoria de melhor filme popular não faz mesmo o menor sentido.

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