Disponível no seu site oficial, a fotografia de Sven Lindqvist (1932-2019), com um ligeiro toque de sépia, poderá ser a de um jovem professor, com os livros desfocados em fundo e o cachimbo como discreto adereço de uma autoridade paciente. O cabelo curto, em ligeiro desarranjo juvenil, e também a barba que não apaga o contorno do rosto, sugerem a pose de um pensador pronto para a aventura – o olhar tem a contenção, mas também a firmeza, de um observador realista que não receia as derivações romanescas. Digamos que são esses contrastes que, agora, podemos conhecer ou redescobrir através da edição de Os Mergulhadores do Deserto (ed. Antígona, traduzido do sueco por Ana Diniz).Tão belo quanto inclassificável, eis um livro que não podemos encerrar na mensagem política – “A história do imperialismo é um poço cheio de cadáveres” – que vai pontuando a sua digressão através de vários cenários africanos. Não que tal mensagem seja superficial, ainda menos secundária. O certo é que seria uma traição literária tratar Os Mergulhadores do Deserto como o relato de um viajante que partiu à procura de confirmações do seu sistema ideológico.Estava-se em 1990. O autor cumprira já um trajecto de investigador e historiador que, depois de uma breve experiência como adido cultural da embaixada da Suécia em Pequim, o levara a criar o movimento “Dig where you stand” (título do livro que publicou em 1978), empenhado no estudo da história como um labor que deve cruzar a investigação e o ensino: conhecer as nossas raízes históricas pode ser o primeiro passo para dialogar, de forma criativa, com a história de outros lugares e outras gentes – Uma História dos Bombardeamentos, original de 1999 (também editado pela Antígona) é mais um exemplo do mesmo processo.A abrir Os Mergulhares do Deserto há uma citação de Maupassant (a par de outra de Marco Aurélio) que nos esclarece sobre a postura do escritor viajante: “A viagem é uma espécie de porta por onde saímos da realidade como que para penetrar numa realidade inexplorada que se assemelha a um sonho.” O título do livro virá de uma frase de Michel Vieuchange (1904-1930), explorador francês tido como o primeiro europeu a visitar as ruínas da cidade de Smara, no deserto do Saara: “Como um mergulhador em busca de pérolas, tenho de voltar imediatamente.” Para o escritor de Os Mergulhadores do Deserto, voltar envolve não apenas o reencontro com a (nossa) história europeia, a sua idealização tecida de violência e cadáveres, mas também a releitura daqueles que escreveram a partir das aventuras de que Lindqvist é o herdeiro magoado e romântico: “(...) sou atingido por uma vaga de felicidade gerada em todo o meu corpo: esta é a minha paisagem! Era aqui que eu desejava vir!”História e sonhoPara encerrar a sua evocação de Vieuchange, Lindqvist escreve mesmo um epitáfio de perturbante contundência: “Causa imediata de morte: disenteria. Causa de morte: romantismo.” Depois dele, e da referência primordial de Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), Lindqvist viaja por novos lugares que, por assim dizer, integram as marcas daqueles que por lá passaram e sobre eles escreveram. O deserto é mesmo esse território em que tudo parece poder coincidir com o seu contrário. Daí a citação do pintor Eugène Fromentin (1820-1876): “Quanto mais luz o deserto recebe, mais escuro parece ficar.”Seguem-se memórias cruzadas de Pierre Loti (1850-1923), André Gide (1869-1951) ou Isabelle Eberhardt (1877-1904), deparando com a herança das atrocidades do colonialismo, a par da afirmação de uma “civilização” que se sonha como expressão de uma pureza sem contradições. Lindqvist condensa tal fantasmagoria numa fórmula friamente poética: “Sim, a realidade das colónias funcionava como a do sonho.”