Os livros do neurocientista António Damásio nem sempre são feitos de páginas de fácil compreensão para o leitor, nada que não seja normal quando os temas de que tratam são do domínio de apenas uma ínfima minoria de especialistas em todo o mundo. No entanto, no seu mais recente ensaio, A Inteligência Natural & a Lógica da Consciência, há uma tentativa de seduzir o maior número de leitores para que estes caminhem junto dele e compreendam os desenvolvimentos que tem vindo a acrescentar à sua teoria sobre a consciência. Daí que desde o princípio do livro escreva: “É importante explicar aos leitores aquilo sobre o qual se pretende escrever”.A justificação para Damásio ter este comportamento vem expresso logo de seguida: “O meu objetivo principal será explicar como se fabrica a consciência”. Adianta que para explicar a sua perspetiva sobre “como a natureza fez o seu trabalho”, precisa de “apresentar a ideia que tenho daquilo em que consiste a consciência”. Antes de continuar faz um alerta: “A maior parte das ideias que defendo neste livro assenta em dados científicos comprovados, alguns bens recentes, mas incluo também teorias e hipóteses que ainda não foram testadas”. Se o leitor ainda desconhecia o que poderia passar-se se aceitasse o convite do autor para a leitura deste ensaio, rapidamente entenderia o que estava em causa ao ler o que escreve um pouco mais à frente, sob o título O plano: “No início introduzimos o problema da consciência no contexto da Inteligência Natural. A reflexão filosófica é completada por descobertas nos campos da biologia geral, da neurologia clínica e da neurociência. O texto apresenta as minhas respostas a duas questões principais: como se fabrica a consciência e como é que a consciência afeta aqueles que a têm”.Seis meses após lançar a edição portuguesa de A Inteligência Natural e a menos de cinco meses de ser editada a versão mundial em inglês (Natural Intelligence & the Logic of Consciousness), António Damásio não deixa de confessar que além do leitor tradicional este trabalho tem outros destinatários: “Quero fornecer a colegas por quem tenho apreço e que até podem ter entendimentos diferentes dos meus qual é a minha ideia sobre esta questão.” Considera que o livro poderá ser o melhor veículo pois “a comunicação de ideias é muitas vezes difícil quando é feita através de um artigo científico que tem um limite de páginas”.Além de avisar o leitor sobre este duplo objetivo do livro, o estratagema que Damásio utiliza para encaminhar o leitor resume-se a uma frase de apenas nove palavras, em que é capaz de antecipar e aguçar a atenção para a revelação que vai dominar o ensaio: “Os sentimentos homeostáticos são os heróis silenciosos deste livro”. Acrescenta: “É esse o ponto que quero realçar neste livro e também dar ao leitor a ideia de que não só se pode ter a compreensão daquilo que é a consciência, como se está perante um primeiro vislumbrar da forma como a consciência pode ser construída através de sentimentos homeostáticos. Estes são verdadeiramente um avanço e é isso que quero deixar bem vincado”. Conclui: “Não é só um novo livro, não é só uma reflexão sobre aquilo que é o sistema nervoso, a vida e a consciência, mas antes uma reflexão e uma proposta muito concreta sobre a forma como tudo isto pode ser construído e realizado por seres vivos”.Tal como no livro vai expondo gradualmente as descobertas, também nesta conversa as suas afirmações seguem os mesmos passos. É então que se ouve: “Hoje sou capaz de explicar como os sentimentos homeostáticos surgiram no nosso organismo”. Há logo uma necessidade de se esclarecer uma situação: é uma descoberta mais recente ou já a vinha cimentando? O cientista faz uma segunda confissão: “A coragem de explicar e descrever este novo estado de coisas é recente, no entanto alguns dos conhecimentos que levaram a essa coragem para o revelar já têm alguns anos. Por isso, podia descrever as conclusões deste livro da seguinte maneira: finalmente, tive a coragem de explicar e defender um mecanismo que há algum tempo tenho estado a investigar e a acumular os dados que permitam ter a noção de como tudo isto é construído e de como se chega ao sentimento homeostático e à consciência.”É essa a razão, pergunta-se a António Damásio, pela qual a questão dos sentimentos homeostáticos domina a maior parte deste novo livro. Responde afirmativamente: “Sim. Dominam o livro não só por aquilo que os sentimentos homeostáticos são capazes de introduzir na vida humana, mas pela maneira como são absolutamente necessários para essa vida e para que haja uma regulação dessa vida. Também pelas consequências que esses sentimentos homeostáticos têm para a vida de uma forma mais ampla, até do ponto de vista cultural.”Mas Damásio tem mais para anunciar sobre o assunto em causa, que tem vindo a adiantar no último ano em artigos em revistas científicas e avançava em parte no anterior livro, Sentir & Saber (2020): “Não se pode ignorar uma 'novidade' que está neste livro e que é muito importante para a minha investigação: a de que não só digo que a consciência provém dos sentimentos homeostáticos como tenho uma solução para explicar a forma como esses sentimentos homeostáticos se desenvolveram. Afinal, embora venha a afirmar desde há muito tempo que os sentimentos homeostáticos são uma raiz da consciência, só neste livro e nos trabalhos mais recentes é que encontrei e descrevo uma solução para explicar como esses sentimentos homeostáticos são construídos. Ou seja, é uma situação extremamente importante, o que faz com que este novo livro não só deixe bem registada a importância dos sentimentos homeostáticos, como seja capaz de explicar a forma como esses sentimentos homeostáticos podem ser criados em seres como nós, seres vivos e humanos.”Após esta explicação, Damásio remata assim: “Isto é novo cientificamente e é muito importante”. Faz questão de acrescentar uma nota: “Há quem após uma leitura superficial deste livro possa dizer que esta será apenas mais uma afirmação que António Damásio está a fazer, até que já o disse anteriormente - de que os sentimentos homeostáticos têm um papel na consciência -, contudo, a importância deste livro é estar a propor a existência de um mecanismo que permite aos seres vivos criar consciência através desses sentimentos homeostáticos.”Um componente modernoO que pode António Damásio explicar sobre esse mecanismo é a interrogação que se segue e a que o neurocientista responde, com todos os detalhes possíveis usando como exemplo a conversa transatlântica em curso sobre este seu novo livro: “Este mecanismo tem como base o facto de termos no nosso sistema nervoso dois componentes extraordinariamente importantes e muito distintos. Um é um componente moderno, do ponto de vista da evolução, e é aquele que permite que duas pessoas possam ter um diálogo via Internet devido às enormes capacidades cognitivas que possuímos e que nos conferem uma capacidade de ter perceção daquilo que se escuta enquanto convivemos com o que se está a passar à nossa volta; também de pensar sobre o que estamos a ver e a ouvir, a que acresce a nossa capacidade de transformar tudo isso em linguagem - pode-se dar o exemplo desta entrevista telefónica. Vamos ao segundo componente, aquele que permite toda esta maravilha: é um sistema nervoso em que as células nervosas são mielinizadas, ou seja, células nervosas modernas do ponto de vista evolucionário, que estão rodeadas de mielina e por isso funcionam como cabos elétricos em que não se perde corrente desde o princípio do corpo celular até à sinapse. Esses sentimentos permitem uma ligação (resonation) aos nossos afetos e são produzidos por neurónios completamente diferentes. Neurónios que, do ponto de vista evolutivo, são muito mais velhos, muito mais do princípio do desenvolvimento dos sistemas nervosos, e em que os axónios em vez de terem mielina e estarem isolados, pelo contrário, estão expostos àquilo que se passa no meio químico que os rodeia. É exatamente nessa ligação entre aquilo que se passa no meio químico que rodeia os neurónios e os neurónios propriamente ditos, aquilo que descreveria em inglês como co-mingling [mingle = misturar], ou seja, que se dá a possibilidade de fazer uma mistura. Portanto, aquilo que se está a passar no sistema nervoso que permite os sentimentos homeostáticos é, de facto, uma mistura entre aquilo que se está a passar no corpo e aquilo que se está a passar na nossa vida direta; nas células que constroem o nosso corpo e que têm os intercâmbios com a vida propriamente dita, e naquilo que se está a passar no sistema nervoso cognitivo. Dessa situação de co-mingling entre os componentes, a mistura do que está no corpo propriamente dito e aquilo que está no sistema nervoso, é que emergem os sentimentos homeostáticos. Daí que tenhamos sentimentos homeostáticos agradáveis e desagradáveis, pois quando a vida está a correr bem o sistema nervoso apanha no nosso corpo a ideia de que a vida está boa, que a vida é possível e que não há barreiras à continuação dessa vida; se temos qualquer coisa que não está a funcionar bem no corpo, nessa altura temos sentimentos de desagrado ou de dor, e esses sentimentos são aqueles que nos estão a dar a ideia de que qualquer coisa se passa de mal no nosso corpo.”Aniquilar uma civilizaçãoA dado momento do livro, Damásio regista que “talvez seja possível reorientar parte das notáveis conquistas das inteligências naturais, de modo a salvar a humanidade da beira do abismo ao qual chegou”. Até que ponto se pode fazer uma leitura de que as sociedades contemporâneas não estão a preservar o melhor da vida, ou seja, a consciência não está a conseguir ter o papel necessário de harmonização da sociedade? Para António Damásio é possível fazer esta leitura, mas coloca condições: “É preciso vincar o facto de que a consciência não é uma forma de regular a nossa vida social, mas, basicamente, ser uma forma de regular a vida individual. A ideia de consciência, tal como explico neste livro, é de que ela é um sistema de regulação da vida individual, um sistema que vem através do desenvolvimento dos sentimentos homeostáticos e que nos permite ter conhecimento direto e imediato de se a vida está a decorrer de uma forma normal ou se existem riscos para essa própria vida. Essa é a grande beleza e a enorme importância da consciência, por ter consequências extremamente importantes na regulação da vida.”Aproveitando o cenário geopolítico de acontecimentos mundiais em curso nas últimas semanas, questiona-se o cientista sobre o papel da Inteligência Natural; que tão bem protegeu e promoveu a vida ao longo da história humana e que recentemente se encontrou perante a perplexidade de uma ameaça do presidente Trump em aniquilar uma civilização em poucas horas. Estaremos a viver num tempo de destruição da Inteligência Natural? Damásio considera que é uma pergunta interessante, mas passível de diversas respostas: “Não tenho grandes dúvidas que a nossa Inteligência Natural está, de certo modo, ameaçada por tudo aquilo que se passa com a Inteligência Artificial porque, de certo modo, a Inteligência Artificial tem-nos separado daquilo que é a realidade da vida e a realidade humana. Não é a primeira vez que tal situação se dá, pois existem diversos aspetos da cultura que, historicamente, têm contribuído para essa separação, no entanto é mais evidente agora. Porquê? Quando um grande número de pessoas - quase que a totalidade da humanidade - utiliza sistemas de Inteligência Artificial para comunicar e prefere esses sistemas à comunicação humana direta, não duvido que aquilo que constituiu a realidade da vida tornou-se mais longínqua da nossa perceção do dia-a-dia e estamos a interpor um outro sistema de comunicação que torna as coisas um pouco menos nítidas. Pode até dizer-se que há qualquer coisa que se está a passar na cultura humana em geral que remove a importância da Inteligência Natural do que seria o seu papel central e que nos torna mais distantes daquilo que é a vida ou o sofrimento e que, por essa razão, nos deixa mais capazes de tolerar o sofrimento. Portanto, a resposta à pergunta feita lá atrás é afirmativa.”No que respeita à Inteligência Artificial, este novo livro de António Damásio é mais seletivo do que se poderia esperar e soma muito poucas dezenas de páginas em referências soltas e apenas lhe é dedicado um único capítulo de forma específica. Questiona-se Damásio sobre se considera que a Inteligência Artificial está a desviar o foco da ciência além das alterações no comportamento humano? O cientista responde: “Sim, dada a importância extraordinária e cada vez maior dessa tecnologia na nossa rotina diária. O nosso dia-a-dia está ligado a capacidades de comunicação que vêm desse mundo artificial e o que se está a passar é que as pessoas estão a utilizar a Inteligência Artificial quando poderiam muito bem usar o contacto direto humano. Eu vejo isso nas ruas dos Estados Unidos da América, e também no campus da universidade, em que a maior parte das pessoas, especialmente os jovens, estão a caminhar e a olhar para os seus aparelhos em simultâneo, por vezes a ler o que está no visor ou a ter uma conversa, até a falar com outras enquanto circulam de bicicleta ou trotinetas elétricas. Ou seja, é um entrar na nossa vida diária de uma forma estranhamente potente e que nos afasta daquilo que é a humanidade e era a sua vida corrente.”Lembra-se António Damásio de que esteve há pouco mais de um ano em Lisboa e que participou num debate na Fundação Champalimaud com o professor Arlindo Oliveira, no qual estava muito reticente sobre os avanços da Inteligência Artificial. No entanto, aquando da apresentação deste livro, em novembro, parecia ter mudado de perceção. Questiona-se sobre qual é a sua opinião atual sobre a Inteligência Artificial? Refere a mudança: “Não é tanto mudar de opinião, antes de corrigir a opinião. Continuo a achar que a Inteligência Artificial tem diferenças fundamentais em comparação com a Inteligência Natural, mas não tem neste momento a capacidade de, por exemplo, ter uma consciência. Este é um dos pontos que sublinho neste novo livro e em novos artigos, o de que não é possível à Inteligência Artificial, tal como funciona neste momento, aceder a um estágio como o dos seres vivos, especialmente, o dos seres humanos. No entanto, não há qualquer dúvida que o poder do sistema ao nível técnico é tal que avançou muito além daquilo que eu pensava ser possível e que iria alcançar. Ou seja, repito, não é tanto mudar de opinião mas corrigir e continuar a afirmar que é difícil à Inteligência Artificial conseguir copiar inteiramente aquilo que é a Inteligência Natural e, sobretudo, sensibilizar sobre o facto de não existirem dúvidas sobre o quanto está a dominar a nossa vida diária de uma forma que tem impacto sobre aquilo que podemos ser como seres humanos e também no que respeita à nossa relação uns com os outros.”Ao iniciar o título do novo livro com a expressão Inteligência Natural existiria uma intenção de António Damásio em rivalizar com o conceito de Inteligência Artificial? É a pergunta que se faz e a que o cientista responde desta forma: “Era o título que pretendia usar desde o início, de modo a forçar a distinção entre aquele que é um processo natural nos seres humanos e o que é um processo de inteligência que veio através do desenvolvimento desses seres humanos. A Inteligência Artificial é um dos diversos produtos da criação humana, que é extraordinariamente importante e há que reconhecer a sua extraordinária importância e potência na maneira como ajuda as nossas vidas em diversos aspetos e com resultados positivos. No entanto, também é preciso reconhecer que tem limitações, graves riscos e, entre as limitações, o que mais me interessa é o facto de lhe faltar a lógica da consciência que a Inteligência Natural tem à sua disposição.Concorrência e divergênciaEste novo livro de António Damásio é a prova de que o mundo da ciência não está parado. Quer-se saber de António Damásio se a “concorrência” é grande neste campo de investigação, a que responde “sim” de imediato. Em seguida elabora: “Em primeiro lugar, o estudo da consciência é muito importante e por isso tem levado imensas personalidades do mundo da ciência, bem como da ciência filosofada, a interessarem-se por esta questão. Pessoas como Francis Crick ou Gerald Edelman tinham como fito principal do seu trabalho, na segunda parte das suas vidas, o estudo da consciência. Portanto, é uma área de estudo em que diversos cientistas e filósofos de grande nome têm tentado chegar a respostas e a soluções, daí que seja um tema de grande concorrência do ponto de vista do trabalho científico e filosófico.”Damásio não se fica pela questão da “concorrência”: “É bom dizer que não é só concorrência, há também divergência, pois existem opiniões muito diversas sobre a forma como a consciência é construída. E aí é fundamentalmente entre sistemas cognitivos e sistemas ligados ao afeto. Eu sou, por certo, a pessoa que mais tem vindo a defender aquilo que se poderia chamar the low road into consciousness. Ou seja, a ideia de que a consciência não está a provir daquilo que é mais recente e mais refinado no sistema nervoso, pelo contrário, a consciência provém daquilo que é mais simples e mais ligado à regulação da vida. O que me parece não só cientificamente válido – eu coloco no livro os vários dados que permitem apoiar esta posição -, mas também tem uma certa beleza e um aspeto atrativo, porque quando se pensa que a consciência é aquilo que nos permite continuar a vida, seria muito estranho se a consciência, que está presente em inúmeras outras criaturas que não são humanas, tivesse vindo das grandes capacidades que distinguem a nossa intelectualidade. Digamos que se a consciência fosse um resultado do intelecto humano, nessa altura tínhamos de rejeitar a possibilidade que toda a grande vida que existe à nossa volta e que não é humana, por exemplo, os cães, os gatos, os macacos, os peixes, as aves, todas essas criaturas que não são dotadas da nossa capacidade intelectual não poderiam ter consciência e isso é claramente absurdo. É óbvio que todos esses seres vivos que nos rodeiam possuem um sistema nervoso, que são seres vivos complexos e têm uma enorme capacidade de consciência e uma enorme capacidade de regular a sua vida de uma forma que lhe permita continuar essa vida. Portanto, a atitude intelectual que eu tenho sobre a consciência, bem como a minha atitude científica e filosófica, é de que é uma capacidade fundamental dos seres vivos, complexos, com um sistema nervoso e não uma capacidade exclusivamente humana. Isso distingue muito claramente o meu trabalho e a minha teorização em relação à de outros colegas cientistas ou filósofos que julgam que tudo isto vem de um aspeto mais puramente humano e não tão distribuído pelos outros seres vivos.”O neurocientista faz questão de deixar bem registado no livro que já não receia fazer certas afirmações, aliás num dos capítulos diz mesmo “penso” enquanto em livros anteriores usaria uma palavra mesmo forte e direta. Explica: “Exato. Quando eu usei lá atrás a palavra 'coragem' não foi por acaso; estarei a exagerar talvez, mas, do ponto de vista científico, julgo que é importante fazer afirmações desta ordem quando se têm os dados e o raciocínio que as permite suportar e defendê-las. Portanto, quando falo de 'coragem', é pelo facto de ter os dados e o modo de argumentar com eles para chegar a uma determinada conclusão. Claro que estes avanços levam tempo, não é fácil resolvê-los de um dia para o outro.”Qual a melhor forma de atingir certos avanços? Enquanto está nesta investigação há tantos anos, terá António Damásio utilizado o seu corpo e a sua mente como referência? O neurocientista esclarece: “Sem dúvida. É exatamente com a nossa vida, o nosso pensamento e na nossa estrutura fisiológica que começa o trabalho. É uma particularidade da consciência o conhecer a própria vida e o conhecer do próprio corpo, depois há muitos outros dados que vêm através de experiências, de observações que são feitas em outros seres vivos, ou até em seres não vivos, e o seu resultado terá a ver com a estrutura do sistema nervoso e com os processos da biologia. Claro que também existe toda uma série de áreas de investigação que não têm nada a ver com a reflexão sobre aquilo que nós somos, mas é correto pensar que o começo destas ideias e o início destas observações, até o motivo delas e os primeiros dados, vêm de nós próprios. Aliás, é um campo em que há uma situação muito curiosa: é a particularidade da consciência que nos dá a possibilidade de nos conhecermos a nós próprios. Daí ser quase inevitável que muito tenha de vir de nós próprios também e que deva começar connosco. Nisso é muito diferente do que acontece numa investigação sobre um aspeto que tenha a ver com a Física, por exemplo.”Contrapõe-se que esta resposta faz lembrar uma frase existencialista, de que o homem é a medida de todas as coisas. Poderá aplicar-se nestes estudos? Damásio concorda: “Acho que sim, que se pode aplicar perfeitamente e que se enquadra perfeitamente naquilo que eu acabei de explicar.”Em A Inteligência Natural & a Lógica da Consciência existe um outro tema que é frequente nos livros de António Damásio, o da religião. Desta vez, no entanto, refere as experiências religiosas e debate qual é o papel que têm na regulação da vida. Existirá alguma ligação entre a homeostasia e os estados mentais que se descrevem como espirituais? Questiona-se também se esta não será uma área muito perigosa? Para Damásio, a caracterização de “perigosa” é exagerada: “Não há nenhum aspeto ofensivo para as religiões em reconhecer que a consciência e o estado da nossa vida, bom ou mau, é de tal forma importante que influenciaram extraordinariamente o desenvolvimento das religiões. Não vejo nada de perigoso, pelo contrário, no reconhecer de que os seres humanos foram capazes com a sua inteligência de verificar a importância dos estados afetivos na regulação da vida e também conseguiram desenvolver sistemas que permitissem o acentuar da regulação da vida através do pensamento religioso. Por outras palavras, o pensamento religioso é uma forma de ajudar a manutenção da vida e, portanto, não tem fins diversos do que os outros da homeostasia.”Apesar de negar qualquer perigo no tratamento da questão religiosa, diz-se a Damásio que um dos filósofos que escolheu para “protagonizar” um dos seus livros anteriores, Ao Encontro de Espinosa, teve receio de assumir certas posições públicas. Responde: “Claro que sim, mas o Espinosa viveu em tempos diferentes dos nossos. Existem problemas hoje, no entanto desde que se respeite o pensamento dos outros em geral e, decerto, as posições filosóficas que se podem descrever como aspetos religiosos, creio que não existe perigo.”.A INTELIGÊNCIA NATURAL & A LÓGICA DA CONSCIÊNCIAAntónio DamásioTemas e Debates334 páginas