Eis um filme que nos faz bem. Porquê? Porque, com infinita subtileza, Os Domingos conta-nos uma história atravessada por um tema complexo e perturbante: a chamada que alguém sente para abandonar as convulsões da vida social “normal”, entregando-se, para toda a vida, a uma vocação religiosa de assumida clausura. Ao mesmo tempo, eis também um filme que não cede às facilidades mediáticas em que tudo se esgota em dicotomias simplistas — nada a ver, portanto, com as formas televisivas que querem convencer-nos que os seres humanos são meros protótipos de categorias (sociais, emocionais, etc.) sempre redutíveis a esquemas grosseiros e moralistas.Digamos, então, que em Os Domingos tudo é transparente — e quanto mais transparente, mais labiríntico, mais difícil de explicar. Ainara (Blanca Soroa, notável revelação) é uma jovem de 17 anos que já não tem mãe, embora viva numa família marcada por uma contagiante exuberância afetiva. Ainda assim, o pai, Iñaki (Miguel Garcés), e a sua irmã, a tia Maite (Patricia López Arnaiz), encaram de maneira bem diferente o facto de Ainara desenvolver um interesse especial pela vida das freiras de um convento onde, com alguns colegas, passou pela experiência de um retiro espiritual. Até que, um dia, Ainara declara querer cumprir um processo de “discernimento vocacional” que poderá confirmar o seu desejo de se entregar a uma vida religiosa...Não estamos perante um daqueles objetos “ilustrativos” (filmes ou séries) em que, para dar conta das convulsões da sua existência, as personagens falam e comportam-se como se fossem “mensageiros” de ideias ou pontos de vista codificados e inalteráveis. Daí que talvez seja útil sublinhar que Os Domingos não é um filme “pró” ou “contra” a religião católica — reduzi-lo a tal esquematismo só servirá para alimentar medíocres discussões televisivas. É, isso sim, uma narrativa de metódica e intransigente observação (dos seres e seus ambientes) que coloca em cena um tecido de relações (familiares e sociais, públicas e privadas), vivido num contexto pontuado por elementos indissociáveis do catolicismo, sua história e valores.A realizadora Alauda Ruiz de Azúa, também autora do argumento, consegue a proeza muito especial de recuperar e revitalizar os valores de um cinema espanhol que não depende de qualquer filiação "obrigatória” no simbolismo surreal de Luis Buñuel ou no barroquismo psicológico de Pedro Almodóvar (o que, obviamente, não significa uma rejeição das suas obras). Se necessitamos de algumas referências, que não serão influências diretas, para situar Os Domingos, talvez possamos evocar as variações realistas do clássico Carlos Saura (lembremos Cria Corvos, 1976), ou experiências mais recentes, também tocadas por algum desejo de realismo, como é o caso do trabalho de uma cineasta como Icíar Bollaín (autora desse filme tão invulgar como inclassificável que é Dou-te os Meus Olhos, 2003).O que é o sagrado?No seu realismo austero — que não é estranho a um rigor cinematográfico que, por ironia, apetece apelidar de “teatral” — Os Domingos é um filme capaz de lidar com a questão mais radical, sem dúvida também mais secreta, da identidade espiritual da cada ser humano. Na sua delicadeza de pormenores, incluindo os momentos de silêncio, o argumento de Alauda Ruiz de Azúa sabe “dar a ver” os cruzamentos da entrega religiosa e do conhecimento (ou reconhecimento) da identidade sexual de cada um. Nesta perspetiva, este é um filme que toca numa ferida contemporânea que excede as fronteiras do catolicismo. A saber: o esmagamento do sagrado pelos valores e práticas das nossas sociedades cegamente “liberais”.Enfim, não esqueçamos que nada disso é estranho à revalorização de um cinema que dispensa as “tipologias” moralistas, celebrando antes a irredutibilidade de cada personagem — logo, o trabalho dos atores. Além de Blanca Soroa, sublinhe-se o talento imenso de Patricia López Arnaiz (vimo-la em Pequenos Clarões, de Pilar Palomero), uma das distinguidas com os cinco prémios Goya ganhos por Os Domingos, incluindo o de melhor filme espanhol de 2025.