"Três ações políticas destacam-se no governo do general Rocha Vieira, entre 1991 e 1999: a primeira incide na manutenção e no aprofundamento das relações com as autoridades chinesas, fator fundamental para a conclusão bem-sucedida do processo negocial iniciado com a assinatura da Declaração Conjunta Luso-Chinesa em Pequim, em 1987; a segunda remete para a criação de condições de estabilidade política e social no Território, o que se traduziu no bom funcionamento da Administração Pública de Macau, antes e depois da transferência da soberania, a 19 de dezembro de 1999, sem ruturas nem sobressaltos; a terceira refere-se à construção de infraestruturas que, por um lado, promovessem a modernização do Território e o seu desenvolvimento económico e, por outro, reforçassem a sua autonomia, destacando-se, entre estas, a construção do Aeroporto Internacional de Macau”, diz Alfredo Gomes Dias, autor de Macau: A Última Transição, livro editado pela Guerra & Paz, que esta terça-feira será apresentado no Grémio Literário, em Lisboa.Dedicado ao período em que Vasco Rocha Vieira desempenhou funções de governador de Macau, na realidade o último governador do império pluricontinental que Portugal fundou com a conquista de Ceuta em 1415, o livro não é uma biografia clássica do general, que morreu em janeiro de 2025 com 85 anos. Sobre a vida do general existe Todos Os Portos A Que Cheguei - Vasco Rocha Vieira, escrito por Pedro Vieira e publicado pela Gradiva, em 2010. Uma vida que começa em Lagoa, no Algarve, em 1939, tem um período com a família em Moçambique antes dos estudos no Colégio Militar em Lisboa, e depois inclui uma longa carreira militar e política. Rocha Vieira, que se formou na Academia Militar e era engenheiro pelo Técnico, teve uma missão em Angola nos anos 1960, depois foi enviado em 1973 para Macau, esteve com o MFA na Revolução do 25 de Abril, foi chefe do Estado-Maior do Exército entre 1976 e 1978 e na década de 1980 desempenhou funções de ministro da República nos Açores. Em 1991, o presidente Mário Soares confia-lhe a governação de Macau, já com o propósito da devolução à China, após uma presença portuguesa de mais de quatro séculos na foz do Rio das Pérolas. Também o Reino Unido tinha já acordado restituir Hong Kong em 1997, dois anos antes de Macau. .Sobre os desafios que o general teve de enfrentar, o historiador Alfredo Gomes Dias sublinha: “Da análise das suas primeiras intervenções, destaca-se a existência de um pensamento estratégico que viria a orientar a ação política do governador Rocha Vieira ao longo do seu mandato. O seu grande desafio foi implementar uma ação política coerente com o rumo traçado, envolvendo as diferentes dimensões da sua governação: as relações políticas com os órgãos da República, em Lisboa; os desafios que o diálogo luso-chinês colocava diariamente; o cumprimento do compromisso das ‘três localizações’ (língua, leis e quadros); a implementação de novas dinâmicas urbanas geradoras de desenvolvimento económico e social; e a afirmação da identidade sociocultural de Macau, através do apoio às diferentes instituições locais. Estes constituíram os grandes desafios diários que o governador Rocha Vieira enfrentou de forma coordenada, sempre em coerência com a missão estratégica que definiu para esta última fase do período de transição”.O livro agora publicado tem prefácio do antigo presidente Aníbal Cavaco Silva, que relembra aquele 19 de dezembro de 1999 do adeus português a Macau: “para a História fica a imagem do último governador, Vasco Rocha Vieira, diante do Palácio da Praia Grande, a receber a bandeira nacional, arreada pela última vez naquele local, e a apertá-la ao peito”..Alfredo Gomes Dias conta o que o levou a escrever este livro: “Na sequência dos meus contactos com o general Rocha Vieira, iniciados em 2005 com vista à redação do texto para a obra Governadores de Macau (Livros do Oriente, 2013), fui convidado a colaborar, com o apoio da Fundação Jorge Álvares, na organização, leitura e catalogação de um vasto conjunto de documentos pessoais do general, reunidos durante o seu governo em Macau. Concluída esta tarefa, decidimos avançar para a redação do que então apelidávamos de Relatório do Governo de Macau, relativo ao período entre 1991 e 1999. Como historiador, escrever o livro Macau: a última transição. Vasco Rocha Vieira (1991-1999) foi um trabalho longo e complexo, mas particularmente gratificante: primeiro, por me ter proporcionado muitos momentos de conversa com o General Rocha Vieira e, segundo, por me ter permitido contribuir para a preservação da memória dos últimos anos da administração portuguesa em Macau. Estes anos, protagonizados pelo seu último governador, constituem simultaneamente o encerramento de um capítulo de seis séculos da história da presença portuguesa no Oriente.”Iniciativa conjunta da Fundação Jorge Álvares e da editora Guerra & Paz, o lançamento do livro no Grémio Literário será às 18:00, com presença do autor e apresentação pelo major-general Tiago Vasconcelos..Rocha Vieira, o último governador que foi para Macau “pôr aquilo na ordem”