Olhares do Mediterrâneo: o lado feminino da(s) realidade(s) 

Está de volta ao cinema São Jorge, em Lisboa, o festival que promove o trabalho das mulheres atrás da câmara. O Olhares do Mediterrâneo arranca amanhã, com uma sessão muito especial, e termina no dia 14.

Num ano em que os festivais de cinema tiveram de ajustar o calendário em função da pandemia, o Olhares do Mediterrâneo - Women"s Film Festival não foi exceção. E essa necessidade criou uma parceria feliz: a sessão de abertura de amanhã (21h30), com o filme As Irmãs Macaluso, de Emma Dante, é também a sessão de encerramento da Festa do Cinema Italiano. Chama-se a isto o encontro de uma noite entre dois festivais amigos que partilham uma obra tão italiana quanto feminina. "Era importante ter assim um filme forte a abrir", diz Sara David Lopes, da direção do Olhares, que nos conduziu pelas propostas desta 8.ª edição. "É um filme com um olhar muito íntimo sobre as relações entres os membros de uma família. São cinco irmãs, uma delas morre, e o que se observa é o modo como elas vão gerir interiormente aquela tragédia, na dinâmica quotidiana. Para além disso, tem um ambiente bastante mediterrânico, porque a história passa-se na Sicília, e mesmo a nível familiar toca muito numa maneira de ser semelhante à das famílias portuguesas. Nós estamos muito mais próximos das características do sul de Itália, do ponto de vista anímico e da forma de estar e de olhar para as coisas, do que do norte."

Começa-se em italiano e termina-se em grego, com Holy Boom, de Maria Lafi, um filme de encerramento (dia 14) que integra a secção Travessias e é composto por "quatro histórias um bocadinho erráticas. Passa-se no interior de um bairro onde um marco de correio explode, e a partir daí vai-se perceber os efeitos que a correspondência destruída tem naquele núcleo de pessoas - nalguns casos, são devastadores. O filme retrata várias questões que têm que ver com o entrecruzamento das pessoas numa situação em que estão fragilizadas. Isto é, se se ajudam ou não, os preconceitos que têm, etc. Acaba por ser uma súmula da secção Travessias", contextualiza a diretora.

Em tempos de covid-19, muitos foram os filmes que chegaram aos programadores tentando explorar uma situação que nos afetou a todos. Sara David Lopes confessa que, por ela, não teria programado nada sobre a pandemia. Já basta o que basta. Mas acabaram por surgir alguns objetos com leituras relevantes da realidade. É o caso de Teenage Lockdown Tales, das francesas Marie Pierre Jaury e Charlotte Ballet-Baz, "duas realizadoras que pegaram em vários alunos e conseguiram, à distância, articular as vivências dos adolescentes em relação à covid, ao impacto que teve nas suas vidas. Eu tenho uma simpatia especial pelos adolescentes, que estão numa fase da vida em que deviam estar a explodir para todos os lados, a explorar, a conviver!"

Esta sensibilidade em relação aos mais jovens está também presente numa edição que procura continuar, e reforçar, a ação junto das escolas. "As nossas sessões para as escolas têm tido uma procura cada vez maior. Já passámos dos 9 mil alunos, desde que começámos, e temos a intenção de levar o Olhares às escolas durante o ano letivo. É importante mostrar este tipo de filmes aos jovens, porque eles estão habituados a consumir um cinema anglo-saxónico, ou, se falado noutras línguas, com um certo nível de adrenalina. E os nossos filmes dão-lhes a ver o que eles não estão à espera, como uma rapariga síria, grega ou marroquina, que também tem um telemóvel, também está nas redes sociais, tira selfies e está irritada com a mãe... É preciso mostrar-lhes realidades que ajudem a perceber o mundo em que vivemos."

O que salta à vista na programação deste ano é o facto de haver muitas mulheres protagonistas nos filmes. Convém lembrar que o Olhares do Mediterrâneo não é, por definição, um festival exclusivo da narrativa feminina, mas aconteceu o resultado da seleção espelhar esse protagonismo, "em histórias bastante diversas, desde as mulheres que não se conseguem divorciar em Marrocos [Suspended Wives], à mulher no Egipto que tem de conduzir um tuk-tuk para sustentar a família, num ambiente dominado pelos homens [Tuk Tuk]." Ou seja, mais do que filmes realizados por mulheres, dá-se aqui "visibilidade ao trabalho das mulheres, ponto."

São elas igualmente que sobressaem em filmes mais performativos, como Kubra, de Mélanie Trugeon, sobre uma artista performativa afegã refugiada em Paris, e Esther Ferrer, Threads of Time, de Josu Rekalde, centrado na artista do título, que lida com a memória do seu corpo de idade avançada. Noutra natureza de performance, em português, Elas Também Estiveram Lá, de Joana Craveiro (baseado no espetáculo teatral homónimo), traz ao grande ecrã as mulheres "invisíveis" nos processos históricos, antes e depois do 25 de Abril. Um filme que será tema de uma mesa redonda, tal como Suspended Wives, de Merieme Addou, que é uma das primeiras propostas de reflexão, à volta do tópico "Género e Família em Contextos Árabes".

De destacar ainda a presença de outras realizadoras portuguesas, entre as quais, Cláudia Varejão, com a curta-metragem O Ofício da Ilusão, e Joana Toste, com a animação A Menina Parada, para além de um workshop para professores e uma sessão acessível a pessoas com deficiência visual, em que será exibida a curta Flor de Estufa, de Laís Andrade, com audiodescrição.

Perante tanto protagonismo feminino, pedimos a Sara David Lopes uma última sugestão, um título do seu gosto mais pessoal. "Recomendo o filme israelita Working Woman [de Michal Aviad], sobre o assédio no trabalho. É um filme que não recorre a clichés básicos e que aborda esta temática de uma maneira muito subtil e crescente. Há quase uma atmosfera de thriller aqui." Sentido de género é coisa que não falta no Olhares do Mediterrâneo.

dnot@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG